Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218263
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Cargo
V - - Vest ( )
Considere o primeiro poema da seção intitulada “Homenagem a Ricardo Reis”, da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), publicado originalmente em 1972 no livro Dual.
Não creias, Lídia, que nenhum estio1
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiamos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto2
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos3 cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
(Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral e outros poemas, 2018.)
1 estio: verão.
2 rasto: rastro.
3 Kronos: do grego khrónos, “tempo”. Na mitologia grega, titã do tempo.
Conforme sugerido pelo próprio título da seção, trata-se de um poema escrito à maneira de Ricardo Reis, o heterônimo neoclássico do poeta Fernando Pessoa (1888-1935). A exemplo do que ocorre com frequência na poética de Ricardo Reis, o eu lírico configura aqui o seguinte tópico clássico:
Alocus horrendus (“lugar horrível”).
B inutilia truncat (“corta o inútil”).
C carpe diem (“aproveita o momento”).
Dlocus amoenus (“lugar aprazível”).
Efugere urbem (“fugir da cidade”).
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GabaritoC — carpe diem (“aproveita o momento”).
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Carpe diem: o convite a aproveitar o momento
Gabarito: letra C. O poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, escrito à maneira de Ricardo Reis, configura o tópico clássico do carpe diem (“aproveita o momento”), pois o eu lírico adverte Lídia de que o tempo não volta e que é preciso agir sem hesitar. A passagem decisiva é: “Cada dia te é dado uma só vez” e “Mais tarde será tarde e já é tarde” — versos que expressam a urgência de viver o presente, núcleo do carpe diem.
O comando pede que você identifique o tópico clássico configurado pelo eu lírico, ou seja, exige uma interpretação global do poema, não a localização de uma informação pontual. É uma questão de inferência: você precisa reconhecer, a partir das imagens e conselhos do texto, qual dos cinco tópicos clássicos listados está sendo evocado. Para isso, é essencial conhecer o significado de cada expressão latina e relacioná-lo ao sentido geral do poema.
O poema é um conselho a Lídia: não acredite que o verão perdido possa voltar, cada dia é único, o tempo não espera, e quem hesita sofre as consequências. O eu lírico alerta que “O tempo apaga tudo menos esse / Longo indelével rasto / Que o não-vivido deixa” — ou seja, o que não foi vivido deixa uma marca permanente. Esse é exatamente o espírito do carpe diem: aproveitar o agora, porque o tempo é implacável e não há segunda chance.
A técnica para resolver é: identifique o tema central do texto (a brevidade do tempo e a necessidade de agir) e compare com o significado de cada tópico clássico. O carpe diem é o único que fala de aproveitar o momento presente diante da fugacidade do tempo — exatamente o que o poema faz. As demais alternativas tratam de outros temas (lugar horrível, lugar aprazível, fuga da cidade, cortar o inútil) que não aparecem no poema.
Tópicos clássicos: Carpe diem (aproveitar o momento) (Tempo breve e irreversível, Urgência de viver o presente); Locus amoenus (lugar aprazível) (Natureza idealizada); Locus horrendus (lugar horrível) (Ambiente ameaçador); Fugere urbem (fugir da cidade) (Retiro no campo); Inutilia truncat (cortar o inútil) (Preceito estético)
Alternativa A — ❌ Incorreta
locus horrendus (“lugar horrível”) é um tópico que descreve um ambiente ameaçador ou desagradável. O poema não descreve nenhum lugar, muito menos um lugar horrível. O eu lírico fala do tempo e da ação, não do espaço. Erro: fora do escopo — o texto não aborda a descrição de um lugar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
inutilia truncat (“corta o inútil”) é um preceito estético que defende a eliminação do supérfluo na arte. O poema não discute estética nem faz qualquer referência a cortar o que é inútil. Erro: fora do escopo — o tema é o tempo e a vida, não a criação artística.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
carpe diem (“aproveita o momento”) é o tópico que exorta a viver o presente, pois o tempo é breve e irreversível. O poema é um conselho direto a Lídia: “Não creias, Lídia, que nenhum estio / Por nós perdido possa regressar” — o verão perdido não volta; “Cada dia te é dado uma só vez” — a unicidade do dia; “Mais tarde será tarde e já é tarde” — a urgência. Esses versos são a essência do carpe diem: não adie, não hesite, aproveite agora.
Alternativa D — ❌ Incorreta
locus amoenus (“lugar aprazível”) é um tópico que descreve um ambiente idealizado e agradável (natureza, paz, beleza). O poema não descreve nenhum lugar aprazível; ele fala do tempo e da necessidade de agir. Erro: fora do escopo — não há descrição de um ambiente bucólico ou agradável.
Alternativa E — ❌ Incorreta
fugere urbem (“fugir da cidade”) é um tópico que exalta o retiro no campo, longe da vida urbana. O poema não menciona cidade, campo ou qualquer oposição entre eles. Erro: fora do escopo — o tema é o tempo, não o espaço geográfico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta no desconhecimento dos tópicos clássicos. Se você não souber o que significa cada expressão latina, pode cair em uma alternativa que “soa” literária, como locus amoenus. A dica é: sempre relacione o tópico ao tema central do texto — o poema fala de tempo e ação, logo, carpe diem.
PEGA ESSA DICA!
Memorize os principais tópicos clássicos (carpe diem, locus amoenus, locus horrendus, fugere urbem, inutilia truncat, etc.) e associe cada um a um tema típico. Carpe diem = tempo e aproveitar o presente; locus amoenus = natureza idealizada; fugere urbem = fuga da cidade.
Gabarito: letra C — o poema configura o carpe diem, pois o eu lírico exorta Lídia a aproveitar o momento, já que o tempo não volta e a hesitação deixa marcas irreparáveis.