Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218264
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Cargo
V - - Vest ( )
Considere o primeiro poema da seção intitulada “Homenagem a Ricardo Reis”, da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), publicado originalmente em 1972 no livro Dual.
Não creias, Lídia, que nenhum estio1
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiamos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto2
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos3 cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
(Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral e outros poemas, 2018.)
1 estio: verão.
2 rasto: rastro.
3 Kronos: do grego khrónos, “tempo”. Na mitologia grega, titã do tempo.
Depreende-se das reflexões do eu lírico uma visão de mundo influenciada, sobretudo, pela
Afilosofia iluminista.
Bteoria de Marx.
Cteoria de Darwin.
Dfilosofia de Epicuro.
Efilosofia de Platão.
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GabaritoD — filosofia de Epicuro.
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Inferência e intertextualidade: a filosofia de Epicuro no poema de Sophia
Gabarito: letra D. O poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, dedicado a Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa), expressa uma visão de mundo claramente epicurista: a exortação a não hesitar, a aproveitar o momento presente e a consciência da irreversibilidade do tempo. A pista decisiva está nos versos "Cada dia te é dado uma só vez" e "Mais tarde será tarde e já é tarde", que ecoam o carpe diem e a filosofia de Epicuro, para quem o prazer e a ausência de dor se alcançam vivendo o presente com serenidade, sem temer a morte nem os deuses.
O comando pede que se depreenda — ou seja, que se faça uma inferência a partir das pistas do texto. Não se trata de localizar uma informação explícita (como seria em uma questão de compreensão), mas de deduzir a corrente filosófica que orienta as reflexões do eu lírico. Para isso, é preciso reconhecer os pressupostos e subentendidos que o poema carrega: a ideia de que o tempo não volta, de que a hesitação é um erro e de que a vida deve ser vivida intensamente no agora.
O poema é uma homenagem a Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa conhecido por sua adesão ao epicurismo e ao estoicismo. Ricardo Reis, em seus próprios poemas, prega a aceitação serena do destino, o aproveitamento do presente e a indiferença diante da morte — exatamente o que o eu lírico de Sophia expressa. A referência a Kronos (o tempo) e a imagem do "redondo círculo da noite" reforçam a ideia de um tempo cíclico e implacável, contra o qual não há piedade para quem hesita.
A filosofia de Epicuro (341–270 a.C.) defendia que o prazer é o bem supremo, mas um prazer entendido como ataraxia (tranquilidade da alma) e aponia (ausência de dor). Para Epicuro, o medo da morte e dos deuses era a principal fonte de sofrimento humano; por isso, ensinava a viver o presente com moderação e a não temer o que não se pode controlar. O poema de Sophia traduz essa lição: "Não creias na demora em que te medes" — não adies, não hesites, porque o tempo não espera.
As demais alternativas apresentam filosofias ou teorias que não têm qualquer ancoragem no texto. A banca, ao oferecer Marx, Darwin, Platão e o Iluminismo, aposta na extrapolação e na associação superficial — o candidato que não conhece o epicurismo pode se perder. Mas o texto é claro: a exortação ao aproveitamento do presente, a irreversibilidade do tempo e a ausência de qualquer preocupação metafísica ou social apontam exclusivamente para Epicuro.
Filosofias e o poema: Epicuro (gabarito) (Carpe diem — viver o presente, Ataraxia — serenidade da alma, Sem temer morte nem deuses); Iluminismo (Racionalismo e progresso — ausentes); Marx (Luta de classes — ausente); Darwin (Evolução das espécies — ausente); Platão (Mundo das Ideias — contradiz o texto)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A filosofia iluminista, com seu racionalismo e fé no progresso, não aparece no poema. O eu lírico não exalta a razão nem a perfectibilidade humana; ao contrário, enfatiza a limitação do ser humano diante do tempo. A alternativa extrapola — acrescenta uma visão de mundo que o texto não sustenta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A teoria de Marx, centrada na luta de classes e na transformação social, é totalmente alheia ao poema. Não há qualquer menção a questões econômicas, sociais ou políticas. A alternativa tangencia o tema, pois a palavra "mundo" no enunciado pode sugerir uma visão sociológica, mas o texto é de ordem existencial e filosófica, não materialista histórica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A teoria de Darwin, sobre evolução e seleção natural, não tem relação com o poema. A menção a "Kronos" e ao tempo não remete à biologia evolutiva. A alternativa extrapola — tenta conectar a ideia de tempo à evolução das espécies, mas o texto fala de tempo como experiência humana, não como processo biológico.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A filosofia de Epicuro é a única que se alinha às reflexões do eu lírico. Os versos "Cada dia te é dado uma só vez" e "Mais tarde será tarde e já é tarde" expressam o carpe diem epicurista: viver o presente, não adiar, não temer o futuro. A referência a Kronos (o tempo que não se detém) e a exortação a não hesitar são marcas do pensamento epicurista, que via no tempo a oportunidade única de alcançar a felicidade. A homenagem a Ricardo Reis, heterônimo epicurista de Fernando Pessoa, confirma a leitura.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A filosofia de Platão, com sua teoria das Ideias e a busca pela verdade transcendente, não aparece no poema. O eu lírico não fala de um mundo inteligível nem de essências eternas; ao contrário, foca no mundo sensível e na efemeridade da vida. A alternativa contradiz o texto, pois Platão valorizaria a eternidade das Ideias, enquanto o poema valoriza o instante que passa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece filosofias famosas (Marx, Darwin, Platão) que não têm relação com o texto, tentando induzir o candidato a escolher por associação superficial. A chave é reconhecer a intertextualidade com Ricardo Reis e o epicurismo.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, grife as pistas do texto (palavras como "tempo", "hesitar", "tarde") e pergunte: que visão de mundo elas pressupõem? Não escolha por "conhecimento de mundo" — a resposta mora no texto.