Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2025
Português›Figuras de Linguagem
Código
vu218265
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Cargo
V - - Vest ( )
Considere o primeiro poema da seção intitulada “Homenagem a Ricardo Reis”, da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), publicado originalmente em 1972 no livro Dual.
Não creias, Lídia, que nenhum estio1
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiamos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto2
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos3 cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
(Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral e outros poemas, 2018.)
1 estio: verão.
2 rasto: rastro.
3 Kronos: do grego khrónos, “tempo”. Na mitologia grega, titã do tempo.
Com a intenção de obter maior expressividade, o eu lírico lança mão de uma construção pleonástica no seguinte verso:
A“E no redondo círculo da noite”
B“Por nós perdido possa regressar”
C“Para aquele que hesita.”
D“O tempo apaga tudo menos esse”
E“Não creias na demora em que te medes.”
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GabaritoA — “E no redondo círculo da noite”
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Pleonasmo: a redundância expressiva no poema de Sophia
Gabarito: letra A. A construção pleonástica está em "E no redondo círculo da noite", pois a palavra "círculo" já contém em si a ideia de "redondo" — há uma repetição desnecessária do mesmo conceito, o que caracteriza o pleonasmo. Como se lê no verso, o adjetivo "redondo" apenas reforça uma característica que o substantivo "círculo" já carrega por definição, criando a redundância intencional que dá expressividade ao poema.
O comando da questão
O enunciado pede que você identifique "uma construção pleonástica" — ou seja, uma figura de linguagem em que há repetição de uma ideia já contida em outra palavra. Isso não é uma questão de interpretação profunda do texto, mas de reconhecimento de uma figura de construção (pleonasmo) aplicada a um verso específico. A banca quer que você perceba onde a redundância é intencional e expressiva, não um mero vício de linguagem.
O pleonasmo e sua função no poema
O pleonasmo é uma figura de linguagem que consiste em repetir um termo ou ideia que já está implícita em outro, com a intenção de reforçar, enfatizar ou dar maior expressividade ao que se diz. Quando usado de forma consciente, como recurso estilístico, é uma figura de construção; quando usado sem intenção, torna-se um vício de linguagem (redundância viciosa).
No verso da alternativa A, temos:
"E no redondo círculo da noite"
A palavra "círculo" já significa, por definição, uma figura geométrica redonda. Portanto, o adjetivo "redondo" é redundante — ele repete uma característica que o substantivo já carrega. Essa redundância é intencional e serve para intensificar a imagem da noite como algo circular, fechado, que envolve o eu lírico, reforçando a ideia de que o tempo é um ciclo do qual não se escapa.
A técnica para resolver
Para identificar o pleonasmo, pergunte: "há alguma palavra que repete o sentido de outra?" Se sim, há redundância. No caso, "redondo" repete o sentido de "círculo". Nas demais alternativas, não há essa repetição — há outras figuras, mas não pleonasmo.
Análise das alternativas
Pleonasmo
1Definição
Repetição de ideia já contida
Recurso expressivo (figura de construção)
Vício de linguagem (sem intenção)
2Exemplos clássicos
"Subir para cima"
"Entrar para dentro"
"Redondo círculo"
3Como identificar
Perguntar: repete o sentido de outra?
Sublinhar palavras de mesmo significado
4Distinguir de outras figuras
Metáfora (comparação implícita)
Hipérbole (exagero)
Personificação (atribuir ação humana)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"E no redondo círculo da noite"
Aqui, "redondo" é um adjetivo que repete a característica inerente de "círculo". O pleonasmo é evidente: um círculo é sempre redondo. A redundância é proposital, criando uma imagem mais vívida e enfática da noite como um ciclo fechado. É a única alternativa que apresenta essa repetição de sentido.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Por nós perdido possa regressar"
Aqui, "perdido" e "regressar" não repetem o mesmo conceito. "Perdido" refere-se a algo que se perdeu; "regressar" refere-se a voltar. São ideias complementares, não redundantes. Não há pleonasmo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Para aquele que hesita."
Não há repetição de sentido. "Hesita" é um verbo que expressa dúvida, indecisão. Não há outra palavra que repita essa ideia. É uma construção simples, sem pleonasmo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"O tempo apaga tudo menos esse"
Aqui, "apaga" e "tudo" não são redundantes: "apagar" é uma ação, "tudo" é o objeto. Não há repetição de conceito. Há uma ideia de totalidade, mas não pleonasmo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Não creias na demora em que te medes."
"Demora" e "medes" (medir) não repetem o mesmo sentido. "Medir-se na demora" é uma metáfora para avaliar o tempo, mas não há redundância. Não é pleonasmo.
Conclusão
A única alternativa que apresenta pleonasmo é a letra A, pois "redondo círculo" repete a ideia de circularidade. As demais usam outras figuras (metáfora, personificação, hipérbole), mas não a redundância característica do pleonasmo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre pleonasmo e outras figuras expressivas. Versos como "O tempo apaga tudo" podem parecer enfáticos, mas não repetem o mesmo conceito. Fique atento à definição: pleonasmo é repetição de sentido, não apenas intensidade.
PEGA ESSA DICA!
Ao procurar pleonasmo, sublinhe as palavras que possam ter o mesmo significado. Se uma palavra já implica a outra, há pleonasmo. Ex.: "subir para cima", "entrar para dentro", "redondo círculo".