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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218313
Banca
VUNESP
Órgão
USJT
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )

Considere a crônica “O beija-flor que não vi”, de Carlos Drummond de Andrade, publicada originalmente no periódico Jornal do Brasil em 14.10.1982, para responder a questão 

 

Escrevi que há muito tempo não vejo um beija-flor e minha amiga Margot me deu uma lição daquelas:

 

— Não viu porque não quer. Aqui no meu andar recebo quase diariamente a visita de um magnífico beija-flor, que suga as minhas flores e, quando elas não estão abertas, aceita gentilmente um pouquinho de água açucarada. Chega e vai-se com a maior elegância, como é do estilo dos beija- -flores.

 

Caí para trás, porque Margot [...] é vizinha do segundo andar, e eu aqui, do sétimo, nunca reparei no seu visitante alado. Confesso que me aborreci de leve [...] porque esse bandidinho nunca se lembrou de chegar até o meu tugúrio1, onde sou provido de plantas floríferas [...]. Concluí que preciso expô-las mais na varanda, que devo preparar o meu bebedouro de água doce, que devo consultar Margot sobre o horário do seu beija-flor — e que, sobretudo, devo tornar-me, por humildade e conscientização, digno de merecer a alada visita desse príncipe da natureza.

 

Mal formulava tais pensamentos, e já recebo linda carta de Elza Borges Ribeiro, que tem a felicidade de morar em uma “amostra de floresta” na Ilha do Governador, “com copas coloridas de praieiros flamboyants entrelaçadas democraticamente com rudes coqueiros, lusas ameixeiras que não dão ameixas mas não param de crescer, mangueiras, sapotizeiros, imensas amendoeiras” e tudo mais a que tem direito uma criatura que ama a Terra, as plantas, os bichos e a vida em geral.

 

Colibris — Elza me esmaga com a informação — “tenho- -os aos montes. Desde o ‘beijinho’, meu predileto, [...] até os ‘tesouras’ [...]. Entre o ‘beijinho’ e eu há uma longa história de amizade. Pousava no fio ao lado da minha janela, mais ou menos às cinco e meia e ali ficava, com o ti-ti característico, até que eu aparecesse e lhe falasse. Ele sacudia as asinhas, catava com elas insetos imaginários, eriçava as penas, saía, pairava no nível do meu rosto, rumava para o abacateiro e voltava. O ritual era repetido até que eu saísse para o trabalho. Mesmo que chovesse”.

 

[...]

 

Volto a Margot. Como é evidente que certas pessoas conhecem a múltipla e não dicionarizada linguagem das aves (e minha vizinha e amiga é uma dessas) vou pedir-lhe que convença o seu beija-flor a vir pela manhã interromper o meu trabalho de cronista. Será uma boa medida — para mim, que me encantarei com a sua presença, e para os leitores, que terão uma crônica completamente renovada e até certo ponto ditada por um beija-flor [...]. A crônica não será propriamente datilografada; será um voo irisado2, uma cintilação, um não- -sei-que-diga de celestial e terrestre, como cronista algum saberia fazer ou sequer imitar [...].

 

Por enquanto, só vejo rolinhas bicando no chão da minha rua, e tão familiarizadas com a placidez do local que apenas se afastam um pouco à aproximação do Gerdal, da Dona Delma ou do Pavan, também conspícuos vizinhos. E olhem que rolinha é bicho desconfiado e briguento, mas as do nosso canto urbano se tornaram corteses e confiantes. As amendoeiras estão habitadas por grande número delas, e alguns tico- -ticos. O beija-flor de Margot, hei de vê-lo um dia, e prometo saudá-lo com a pouca rima e o pobre ritmo que Deus me deu, mas com que doçura de alma! [...]

 

(https://cronicabrasileira.org.br)

 

1 tugúrio: abrigo, refúgio.

2 irisado: que contém as cores do arco-íris.

A principal intenção do narrador na crônica é
  1. Ainformar sobre os hábitos alimentares e reprodutivos dos beija-flores.
  2. Brelatar com exatidão a rotina das aves que visitam as janelas das personagens.
  3. Cdenunciar o desaparecimento dos beija-flores causado pelo desequilíbrio ambiental.
  4. Dcriticar a ausência de áreas verdes nos grandes centros urbanos.
  5. Erefletir sobre a delicadeza da relação entre os humanos e a natureza.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — refletir sobre a delicadeza da relação entre os humanos e a natureza.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A intenção do narrador na crônica de Drummond

Gabarito: letra E. A principal intenção do narrador é refletir sobre a delicadeza da relação entre os humanos e a natureza, como se comprova no tom poético e afetivo com que ele trata o beija-flor — um "príncipe da natureza" — e no desejo de "tornar-se, por humildade e conscientização, digno de merecer a alada visita". As demais alternativas ou extrapolam o texto (falam em denúncia ambiental, crítica urbanística) ou o restringem (informar hábitos, relatar rotina), quando a crônica é uma reflexão subjetiva e lírica.

O comando pede a principal intenção do narrador — ou seja, o propósito global do texto, aquilo que move a escrita. Isso não é uma questão de localizar um dado explícito (compreensão), mas de sintetizar a atitude do narrador diante do tema (interpretação). A crônica é um gênero narrativo que parte de um fato cotidiano — o narrador não ver beija-flores — para construir uma reflexão pessoal e poética. A pergunta "qual a intenção?" aponta para o efeito que o texto quer produzir e para a visão de mundo que o narrador expressa.

O texto não é um relato objetivo nem uma denúncia. Ele é construído em torno da admiração e do encantamento do narrador com a possibilidade de receber a visita de um beija-flor. Veja a passagem central:

"devo tornar-me, por humildade e conscientização, digno de merecer a alada visita desse príncipe da natureza."

Aqui está a chave: o narrador não quer apenas ver o pássaro; ele quer se tornar digno dessa visita. Há uma relação de respeito e delicadeza com a natureza, expressa em termos quase espirituais ("humildade", "conscientização", "digno"). No final, ele reafirma o tom afetivo:

"O beija-flor de Margot, hei de vê-lo um dia, e prometo saudá-lo com a pouca rima e o pobre ritmo que Deus me deu, mas com que doçura de alma!"

A "doçura de alma" é a marca da delicadeza dessa relação. O narrador não estuda o pássaro, não o critica, não o quantifica: ele o admira e quer conviver com ele. Essa é a intenção central — refletir sobre o vínculo afetivo entre humano e natureza.

A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando se o texto a autoriza inteiramente, sem acrescentar nada de fora. A alternativa correta é a que resume o tom e o propósito do texto; as erradas ou extrapolam (inventam uma crítica ambiental que não existe) ou restringem (reduzem o texto a um relato informativo).

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não tem intenção de informar sobre hábitos alimentares ou reprodutivos dos beija-flores. A menção a "sugar flores" e "água açucarada" é um detalhe da fala de Margot, não o objetivo da crônica. O narrador não explica nada sobre a biologia da ave; ele reflete sobre a relação com ela. A alternativa tangencia o texto: usa um elemento presente (o beija-flor) para construir um propósito que não existe.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: restrição e contradição. O texto não relata "com exatidão a rotina das aves". Pelo contrário, o narrador não viu o beija-flor de Margot — ele apenas ouviu o relato dela. A crônica é sobre a ausência e o desejo de ver, não sobre a rotina observada. A alternativa restringe o texto a um relato factual, ignorando o tom subjetivo e poético que o caracteriza.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação com opinião embutida. O texto não denuncia o desaparecimento de beija-flores nem menciona desequilíbrio ambiental. Essa é uma opinião de senso comum que o candidato pode projetar no texto, mas que não está nele. O narrador não vê beija-flores porque mora no 7º andar e não preparou o ambiente — não porque eles sumiram. A alternativa acrescenta uma causa externa (desequilíbrio ambiental) que o texto não sustenta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não critica a ausência de áreas verdes nos centros urbanos. Há uma menção a "amostra de floresta" na Ilha do Governador, mas isso é uma descrição do local onde mora a correspondente, não uma crítica urbanística. A alternativa foge ao tema: pega um elemento periférico (a natureza) e constrói uma tese que o narrador não defende. O foco é a relação pessoal com o beija-flor, não uma análise da cidade.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa resume com precisão o propósito global da crônica. O narrador reflete sobre a delicadeza da relação entre humanos e natureza, expressa na admiração pelo beija-flor e no desejo de se tornar "digno" de sua visita. A passagem "com que doçura de alma" e o tratamento de "príncipe da natureza" confirmam o tom afetivo e poético. Não há denúncia, não há relato objetivo, não há crítica urbanística — há reflexão lírica sobre o vínculo entre o homem e o mundo natural.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com tema ambiental — o candidato, ao ver "beija-flor" e "natureza", pode projetar uma crítica ecológica que o texto não faz. A crônica é subjetiva e afetiva, não militante.

PEGA ESSA DICA!

Para questões de "intenção principal", pergunte: qual é o efeito que o texto quer causar no leitor? Se o tom é poético e pessoal, a intenção é refletir, não informar nem denunciar.

Gabarito: letra E.

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