Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218320
Banca
VUNESP
Órgão
USJT
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )
Leia o poema “Versos íntimos”, de Augusto dos Anjos, para responder a questão
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão — esta pantera — Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! o beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
(Augusto dos Anjos. Eu e outras Poesias, 1998.)
Embora Augusto dos Anjos seja associado ao Pré-Modernismo, sua obra apresenta um hibridismo estético que incorpora elementos de diferentes correntes literárias. Com base nessa informação e na leitura do poema, esse hibridismo de estilos é melhor caracterizado por:
Atom pessimista e presença de imagens mórbidas, que dialogam com o Simbolismo, mesclados à zoomorfização característica do Naturalismo.
Bconstrução de versos livres e fragmentados, que aproxima o poema do Modernismo, e uso de imagens sensoriais, remetendo ao Simbolismo.
Cexaltação da natureza, característica intrínseca ao Arcadismo, e metalinguagem, traço marcante do Concretismo.
Dlinguagem simples e coloquial, que revela influência direta do Modernismo, e foco na crítica política, aproximando o autor do Realismo.
Euso de sátira social e crítica aos valores burgueses, que fazem do poema uma obra típica do Realismo, e rigor formal, dialogando com o Parnasianismo.
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GabaritoA — tom pessimista e presença de imagens mórbidas, que dialogam com o Simbolismo, mesclados à zoomorfização característica do Naturalismo.
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Hibridismo estético em "Versos íntimos"
Gabarito: letra A. O poema de Augusto dos Anjos é melhor caracterizado pelo tom pessimista e pelas imagens mórbidas (herança do Simbolismo) mesclados à zoomorfização (traço do Naturalismo). A alternativa A é a única que encontra respaldo direto no texto: o eu lírico fala em "enterro de tua última quimera", "lama", "feras" e "escarro", imagens que materializam o pessimismo e a morbidez; e a comparação do homem a uma "fera" — "O Homem, que, nesta terra miserável, / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera" — é a zoomorfização que o Naturalismo consagrou. As demais alternativas ou atribuem ao poema características que ele não apresenta (versos livres, exaltação da natureza, metalinguagem, crítica política, sátira social) ou confundem as escolas literárias.
O comando pede que você caracterize o hibridismo de estilos presente no poema, ou seja, que identifique, no texto, elementos de diferentes correntes literárias. Não se trata de uma questão de compreensão literal (o que o texto afirma), mas de interpretação — você precisa reconhecer, nas imagens e no tom, as marcas estéticas de escolas como o Simbolismo e o Naturalismo. A informação prévia de que Augusto dos Anjos é pré-modernista e apresenta hibridismo serve de chave de leitura: o poema não é "puro" de uma escola, mas uma síntese.
O poema é um soneto (forma fixa, com versos decassílabos e rimas), mas o conteúdo é profundamente pessimista e mórbido. O eu lírico dirige-se a um "tu" que perdeu a última ilusão ("tua última quimera") e é aconselhado a se acostumar com a "lama" e a se tornar "fera" como os outros homens. As imagens são fortes e desagradáveis: "escarro", "apedreja", "chaga", "pantera". Esse vocabulário, somado ao tom de desilusão absoluta, é a marca do Simbolismo (a ênfase no pessimismo, no mistério, no grotesco) e, ao mesmo tempo, a zoomorfização — tratar o homem como animal — é um recurso típico do Naturalismo, que via o ser humano como produto de instintos e do meio.
A técnica para resolver é: teste cada alternativa perguntando se o texto autoriza aquela caracterização. A alternativa correta precisa nomear elementos que estejam, de fato, no poema. As erradas, em geral, cometem um de dois erros: ou extrapolam (atribuem ao texto algo que ele não tem, como "versos livres" ou "exaltação da natureza"), ou confundem as escolas (dizem que o poema é "típico do Realismo" quando o texto não faz crítica social, por exemplo).
Alternativa
Elementos citados
Presente no poema?
Associação à escola correta?
Veredito
A
Tom pessimista, imagens mórbidas, zoomorfização
Sim (enterro, lama, escarro, "ser fera")
Sim (Simbolismo e Naturalismo)
✅ Correta
B
Versos livres, imagens sensoriais
Não (é um soneto, forma fixa)
Parcial (Simbolismo)
❌ Incorreta
C
Exaltação da natureza, metalinguagem
Não (natureza é negativa; sem metalinguagem)
Não (Arcadismo e Concretismo)
❌ Incorreta
D
Linguagem simples/coloquial, crítica política
Não (linguagem erudita; sem crítica política)
Não (Modernismo e Realismo)
❌ Incorreta
E
Sátira social, rigor formal
Não (sem sátira social; há rigor formal)
Parcial (Parnasianismo)
❌ Incorreta
Hibridismo em "Versos íntimos": Simbolismo (Tom pessimista, Imagens mórbidas); Naturalismo (Zoomorfização, Homem como fera); Forma fixa (Soneto, Decassílabos)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto. Vejamos os dois elementos que ela nomeia:
Tom pessimista e imagens mórbidas (Simbolismo): o poema está repleto de imagens funestas. Logo no primeiro verso, "Ninguém assistiu ao formidável / Enterro de tua última quimera" — o "enterro" de uma ilusão. Depois, "Acostuma-te à lama que te espera!" e "o beijo, amigo, é a véspera do escarro". O pessimismo é absoluto: não há esperança, apenas a aceitação da degradação.
Zoomorfização (Naturalismo): o eu lírico afirma que o homem, vivendo "entre feras", sente a "inevitável / Necessidade de também ser fera". O homem é comparado a um animal feroz, e a "Ingratidão" é chamada de "pantera". Essa animalização do ser humano é um procedimento caro ao Naturalismo, que via o homem como ser biológico, regido por instintos.
"O Homem, que, nesta terra miserável, / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera."
A passagem prova a zoomorfização: o homem não apenas convive com feras, mas precisa tornar-se fera. E o tom geral do poema — a desilusão, o conselho de aceitar a lama — é a materialização do pessimismo simbolista.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (troca de vocábulo). A alternativa afirma que o poema usa "versos livres e fragmentados", mas o poema é um soneto, ou seja, uma forma fixa com 14 versos decassílabos e rimas. Não há verso livre algum. Além disso, embora haja imagens sensoriais ("lama", "escarro", "beijo"), a primeira parte da alternativa é factualmente falsa em relação ao texto. A banca troca "soneto" por "versos livres" para induzir ao erro.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (fora do escopo). O poema não exalta a natureza — pelo contrário, a natureza (a "lama", as "feras") é vista de forma negativa, como algo a que o homem deve se acostumar. A "exaltação da natureza" é característica do Arcadismo, mas não está presente aqui. E "metalinguagem" (o texto falando do próprio texto) também não aparece: o poema fala da vida, não da poesia. A alternativa inventa elementos que não existem no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (fora do escopo). A linguagem do poema não é "simples e coloquial" — é uma linguagem poética elaborada, com inversões sintáticas ("Vês! Ninguém assistiu ao formidável / Enterro") e vocabulário erudito ("quimera", "formidável"). Além disso, não há "crítica política" no poema; a crítica é existencial, sobre a condição humana, não sobre o sistema político. A alternativa atribui ao texto um conteúdo que ele não aborda.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (fora do escopo) e contradição. O poema não faz "sátira social" nem "crítica aos valores burgueses" — ele faz uma reflexão amarga sobre a natureza humana, mas não ataca uma classe social ou instituições. Além disso, embora o poema tenha "rigor formal" (é um soneto), o que dialogaria com o Parnasianismo, a primeira parte da alternativa (sátira social típica do Realismo) não se sustenta no texto. A alternativa mistura uma verdade (o rigor formal) com uma invenção (a sátira social).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com fatos verdadeiros do mundo real — é verdade que o Modernismo usou versos livres, que o Arcadismo exaltava a natureza, que o Realismo fazia crítica social. Mas a questão pergunta o que está no poema, não o que é verdadeiro sobre as escolas. Teste cada alternativa com a pergunta: "onde no texto está isso?"
PEGA ESSA DICA!
Em questões de hibridismo estético, sublinhe as imagens e o tom do texto e, depois, relacione cada uma a uma escola. Se a alternativa nomear uma característica que você não consegue apontar no poema, ela está errada — mesmo que a característica seja típica da escola citada.
Gabarito: letra A. A resposta certa é a que nomeia elementos presentes no texto (pessimismo, morbidez, zoomorfização) e os associa corretamente às escolas (Simbolismo e Naturalismo). As demais ou inventam características (versos livres, exaltação da natureza, crítica política) ou confundem as correntes literárias.