Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218321
Banca
VUNESP
Órgão
USJT
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )
Leia o poema “Versos íntimos”, de Augusto dos Anjos, para responder a questão
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão — esta pantera — Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! o beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
(Augusto dos Anjos. Eu e outras Poesias, 1998.)
No contexto do poema, a frase “A mão que afaga é a mesma que apedreja.” expressa
Aa denúncia da instabilidade afetiva nas relações humanas, sugerindo que atos de carinho podem ser impulsionados por raiva.
Bum comentário existencial sobre a incapacidade humana de manter vínculos afetivos autênticos em um mundo em decadência.
Ca contraposição entre pulsões de afeto e destruição, revelando a tensão psíquica entre o desejo de vínculo e o instinto de repulsa.
Duma crítica à hipocrisia nas relações interpessoais, evidenciando a coexistência entre aparente benevolência e intenções cruéis.
Ea ambiguidade emocional do ser humano, cuja sensibilidade o leva a oscilar entre impulsos afetivos e destrutivos.
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GabaritoD — uma crítica à hipocrisia nas relações interpessoais, evidenciando a coexistência entre aparente benevolência e intenções cruéis.
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Sentido da expressão “A mão que afaga é a mesma que apedreja”
Gabarito: letra D. A frase expressa uma crítica à hipocrisia nas relações interpessoais, pois afirma que a mesma mão que acaricia é a que agride, revelando a coexistência entre aparente benevolência e intenções cruéis. Essa leitura é autorizada pelo próprio poema, que, nos versos finais, ordena: “Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!” — a palavra “vil” qualifica a mão que afaga, provando que o gesto de carinho é falso e esconde maldade.
O comando pede que se identifique o que a frase expressa no contexto do poema — ou seja, uma tarefa de interpretação, não de localização literal. É preciso captar o sentido global do texto: o eu lírico pinta um mundo hostil, onde a “Ingratidão” é companheira inseparável, o homem é “fera” entre feras, e o beijo é “véspera do escarro”. Nesse cenário, a frase sobre a mão que afaga e apedreja não descreve um conflito psicológico interno, mas denuncia a falsidade das relações humanas: quem demonstra afeto pode estar, na verdade, preparando uma agressão.
A técnica decisiva é ancorar cada alternativa no texto, perguntando: “o poema autoriza esta leitura?”. A alternativa D é a única que nomeia o alvo da crítica — a hipocrisia social —, enquanto as demais ou extrapolam (falam de “instabilidade afetiva”, “incapacidade humana”, “tensão psíquica”, “ambiguidade emocional”) ou restringem o sentido a um aspecto que o texto não desenvolve.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação, desconfie de alternativas que introduzem termos técnicos (psíquico, existencial, emocional) sem respaldo direto no texto. A resposta correta costuma ser a que parafraseia o que está escrito, sem acrescentar camadas de análise.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa fala em “instabilidade afetiva” e “atos de carinho impulsionados por raiva”. O texto não menciona raiva como motor do afeto; a frase apenas constata a coexistência entre afagar e apedrejar, sem explicar a causa psicológica. Isso é extrapolação: acrescenta uma motivação emocional que o poema não sustenta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa propõe um “comentário existencial sobre a incapacidade humana de manter vínculos afetivos autênticos”. O poema não discute capacidade ou autenticidade dos vínculos; ele denuncia a falsidade presente nas relações, não uma impossibilidade estrutural. Há troca de conceito: o texto fala de hipocrisia, não de incapacidade.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa fala em “tensão psíquica entre desejo de vínculo e instinto de repulsa”. O texto não aborda conflito interno; a frase é uma constatação social sobre o comportamento humano, não uma análise psicológica individual. Isso é extrapolação — introduz uma dimensão psíquica ausente no poema.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa sintetiza com precisão o sentido da frase: crítica à hipocrisia, evidenciando que a benevolência aparente (afagar) convive com intenções cruéis (apedrejar). O texto confirma isso nos versos finais, ao chamar a mão que afaga de “vil” e mandar “apedreja essa mão vil que te afaga”. A palavra “vil” é a chave: revela que o gesto de carinho é falso, escondendo maldade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa fala em “ambiguidade emocional” e “oscilação entre impulsos afetivos e destrutivos”. O texto não sugere oscilação ou ambiguidade; ele afirma uma coexistência simultânea e intencional — a mesma mão faz as duas coisas. A ideia de “oscilação” é extrapolação, pois o poema não descreve um movimento entre polos, mas uma falsidade deliberada.
Conclusão: a resposta correta é a letra D, pois é a única que permanece fiel ao texto, nomeando a hipocrisia como alvo da crítica. As demais alternativas extrapolam ao introduzir conceitos psicológicos ou existenciais que o poema não desenvolve. Lembre-se: em interpretação, a resposta certa é a que parafraseia o texto, não a que inventa camadas de sentido.