A crise como estado comum do poeta contemporâneo
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que parafraseia fielmente a tese central do texto: o poeta de hoje vive em crise, e essa crise se manifesta justamente na relação com a linguagem — ele determina quais recursos linguísticos usa e, ao mesmo tempo, os questiona. O texto afirma isso explicitamente: "É a crise o comum estado de consciência do poeta em nosso tempo" e, antes, "Mudando a poesia, critica-a e, por sua vez, entra em crise". As demais alternativas ou extrapolam o que está escrito ou contradizem o texto.
O comando: compreensão, não inferência
O enunciado pede "de acordo com o autor" — isso é compreensão de texto: a resposta deve estar explícita no texto, apenas reescrita com outras palavras (paráfrase). Não se trata de inferir, deduzir ou completar com conhecimento de mundo. Portanto, a alternativa correta precisa ser aquela que repete, com outras palavras, uma ideia que o autor realmente escreveu. Qualquer alternativa que acrescente informação de fora, por mais plausível que pareça, está errada.
O texto: a tese e o movimento argumentativo
O texto de Benedito Nunes parte de uma metáfora (o poeta joga dados, mas com a matéria e a forma da linguagem) e desenvolve uma reflexão sobre a poesia e o poeta. O ponto central, para esta questão, está no trecho:
"Quando antitradicionalista, ele é um desviante; beneficia-o a rebelde vontade de negar o aceito, o consagrado, o dito e o redito, o por demais expressado. E negando-os, principia a mudar-se e a mudar a poesia. Mudando a poesia, critica-a e, por sua vez, entra em crise. É a crise o comum estado de consciência do poeta em nosso tempo."
Aqui está a tese: o poeta contemporâneo é, por natureza, um desviante que nega a tradição, e essa negação o leva a mudar a poesia, a criticá-la e, consequentemente, a entrar em crise. A crise não é um acidente, mas o "comum estado de consciência" — ou seja, uma característica frequente (como pede o enunciado). A alternativa C capta exatamente isso: o poeta fomenta (provoca, alimenta) um estado de crise ao determinar (escolher, usar) recursos linguísticos e, ao mesmo tempo, questioná-los (criticá-los).
A técnica: teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto?"
A armadilha central desta questão é a extrapolação: a banca oferece alternativas que parecem plausíveis, mas que não estão no texto. Para cada alternativa, pergunte: "onde o autor diz isso?" Se não houver passagem que sustente, a alternativa está errada, mesmo que soe verdadeira no mundo real.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não fala em "valorização da tradição" nem em "difundir regras que prescrevem o correto uso do idioma". Pelo contrário, o autor descreve o poeta como "antitradicionalista", alguém que nega "o aceito, o consagrado, o dito e o redito". A alternativa A inverte o sentido do texto: em vez de valorizar a tradição, o poeta a nega. Além disso, a ideia de "prescrever o correto uso do idioma" é totalmente estranha ao texto, que fala de poesia, não de gramática normativa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não diz que o poeta se abstém da realidade concreta. Pelo contrário, afirma que a poesia dá acesso ao mundo: "a poesia lhe dá acesso ao mundo, porque torna manifesto... o que há e o que pode haver". A alternativa B fala em "experiência estética pura" e "experimentação formal", mas o texto não menciona abstenção da realidade — ele diz que a poesia revela o real e o possível. A ideia de "abstenção" é uma invenção.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Paráfrase fiel da tese. O texto afirma que o poeta, ao negar a tradição, "principia a mudar-se e a mudar a poesia. Mudando a poesia, critica-a e, por sua vez, entra em crise. É a crise o comum estado de consciência do poeta em nosso tempo." A alternativa C diz que é característica frequente "o fomento de um estado de crise, ao se determinar quais recursos linguísticos são utilizados e, ao mesmo tempo, questionados". Isso corresponde exatamente: o poeta determina (usa, escolhe) recursos linguísticos e, ao mesmo tempo, os questiona (critica), gerando a crise. A palavra "fomento" (ato de promover, estimular) equivale a "principia a mudar" e "entra em crise".
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não fala em "objetividade e exatidão" nem em aproximação com a ciência moderna. Pelo contrário, o texto abre com a famosa frase de Einstein — "Deus não joga dados" — para contrapor a poesia à ciência: o poeta joga dados, ou seja, trabalha com a matéria e a forma da linguagem, não com a precisão científica. A alternativa D contradiz o texto, que não defende objetividade, mas sim a experiência poética com a linguagem.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não menciona "simulação de estados emocionais intensos" nem "universo ficcional". O autor fala em "mostrar" e "fazer ver" o que a linguagem enuncia, mas não há nada sobre simular emoções ou envolver o leitor em ficção. A alternativa E introduz um tema (emoção, ficção) que não está no texto — é uma fuga ao tema.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de localizar a ideia explícita e reconhecer a paráfrase. A alternativa C é a única que repete, com outras palavras, o que o autor escreveu sobre a crise do poeta. As demais ou extrapolam (A, B, D, E) ou contradizem (A, D) o texto. Lembre-se: em compreensão, a resposta mora no texto — se você precisa acrescentar algo de fora, está errada.
Gabarito: letra C