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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218323
Banca
VUNESP
Órgão
FESA
Ano
2025
Cargo
Vest ( )

Deus não joga dados, dizia Einstein. O poeta, sim, ele os joga; mas os seus dados são a matéria e a forma de linguagem. Ambas lhe abrem o caminho a uma preliminar experiência das coisas. Pela matéria sonora e gráfica, pela forma enunciativa ou expressional, antes de tudo pelo ritmo da frase — pausas, acentos, colisões, elisões —, a poesia lhe dá acesso ao mundo, porque torna manifesto, podemos dizê-lo numa paródia a Heidegger, o que há e o que pode haver, o possível no real e o real no possível. O poeta pode fazê-la seguindo os modos e modas do momento presente e do passado ou se opondo à dominância de um estilo, à inércia histórica da tradição. Quando antitradicionalista, ele é um desviante; beneficia-o a rebelde vontade de negar o aceito, o consagrado, o dito e o redito, o por demais expressado. E negando-os, principia a mudar-se e a mudar a poesia. Mudando a poesia, critica-a e, por sua vez, entra em crise. É a crise o comum estado de consciência do poeta em nosso tempo. Em crise, o poeta de hoje, temendo a insídia1 da linguagem, para melhor poder estadear2, na palavra, o que em torno de si se dá — procura mostrar, enfim, o que ela enuncia. E que outro melhor meio de mostrar do que fazer ver, colocar o que se mostra verbalmente, como uma coisa no espaço à frente de quem lê — intuída pelo poeta e perceptível para o leitor?

 

(Benedito Nunes. A clave do poético, 2009.)

 

1 insídia: traição.

2 estadear: ostentar.

Leia o excerto de “O jogo da poesia”, de Benedito Nunes, para responder à questão.     De acordo com o autor, é uma característica frequente entre os poetas de seu tempo
  1. Aa valorização da tradição, ao difundir regras que prescrevem o correto uso do idioma.
  2. Ba abstenção da realidade concreta, ao se concentrar na experiência estética pura e na experimentação formal.
  3. Co fomento de um estado de crise, ao se determinar quais recursos linguísticos são utilizados e, ao mesmo tempo, questionados.
  4. Do emprego da linguagem com objetividade e exatidão, ao se aproximar do que faz a ciência moderna.
  5. Ea simulação de estados emocionais intensos, ao envolver o leitor em seu universo ficcional.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — o fomento de um estado de crise, ao se determinar quais recursos linguísticos são utilizados e, ao mesmo tempo, questionados.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A crise como estado comum do poeta contemporâneo

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que parafraseia fielmente a tese central do texto: o poeta de hoje vive em crise, e essa crise se manifesta justamente na relação com a linguagem — ele determina quais recursos linguísticos usa e, ao mesmo tempo, os questiona. O texto afirma isso explicitamente: "É a crise o comum estado de consciência do poeta em nosso tempo" e, antes, "Mudando a poesia, critica-a e, por sua vez, entra em crise". As demais alternativas ou extrapolam o que está escrito ou contradizem o texto.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede "de acordo com o autor" — isso é compreensão de texto: a resposta deve estar explícita no texto, apenas reescrita com outras palavras (paráfrase). Não se trata de inferir, deduzir ou completar com conhecimento de mundo. Portanto, a alternativa correta precisa ser aquela que repete, com outras palavras, uma ideia que o autor realmente escreveu. Qualquer alternativa que acrescente informação de fora, por mais plausível que pareça, está errada.

O texto: a tese e o movimento argumentativo

O texto de Benedito Nunes parte de uma metáfora (o poeta joga dados, mas com a matéria e a forma da linguagem) e desenvolve uma reflexão sobre a poesia e o poeta. O ponto central, para esta questão, está no trecho:

"Quando antitradicionalista, ele é um desviante; beneficia-o a rebelde vontade de negar o aceito, o consagrado, o dito e o redito, o por demais expressado. E negando-os, principia a mudar-se e a mudar a poesia. Mudando a poesia, critica-a e, por sua vez, entra em crise. É a crise o comum estado de consciência do poeta em nosso tempo."

Aqui está a tese: o poeta contemporâneo é, por natureza, um desviante que nega a tradição, e essa negação o leva a mudar a poesia, a criticá-la e, consequentemente, a entrar em crise. A crise não é um acidente, mas o "comum estado de consciência" — ou seja, uma característica frequente (como pede o enunciado). A alternativa C capta exatamente isso: o poeta fomenta (provoca, alimenta) um estado de crise ao determinar (escolher, usar) recursos linguísticos e, ao mesmo tempo, questioná-los (criticá-los).

A técnica: teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto?"

A armadilha central desta questão é a extrapolação: a banca oferece alternativas que parecem plausíveis, mas que não estão no texto. Para cada alternativa, pergunte: "onde o autor diz isso?" Se não houver passagem que sustente, a alternativa está errada, mesmo que soe verdadeira no mundo real.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não fala em "valorização da tradição" nem em "difundir regras que prescrevem o correto uso do idioma". Pelo contrário, o autor descreve o poeta como "antitradicionalista", alguém que nega "o aceito, o consagrado, o dito e o redito". A alternativa A inverte o sentido do texto: em vez de valorizar a tradição, o poeta a nega. Além disso, a ideia de "prescrever o correto uso do idioma" é totalmente estranha ao texto, que fala de poesia, não de gramática normativa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que o poeta se abstém da realidade concreta. Pelo contrário, afirma que a poesia dá acesso ao mundo: "a poesia lhe dá acesso ao mundo, porque torna manifesto... o que há e o que pode haver". A alternativa B fala em "experiência estética pura" e "experimentação formal", mas o texto não menciona abstenção da realidade — ele diz que a poesia revela o real e o possível. A ideia de "abstenção" é uma invenção.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel da tese. O texto afirma que o poeta, ao negar a tradição, "principia a mudar-se e a mudar a poesia. Mudando a poesia, critica-a e, por sua vez, entra em crise. É a crise o comum estado de consciência do poeta em nosso tempo." A alternativa C diz que é característica frequente "o fomento de um estado de crise, ao se determinar quais recursos linguísticos são utilizados e, ao mesmo tempo, questionados". Isso corresponde exatamente: o poeta determina (usa, escolhe) recursos linguísticos e, ao mesmo tempo, os questiona (critica), gerando a crise. A palavra "fomento" (ato de promover, estimular) equivale a "principia a mudar" e "entra em crise".

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não fala em "objetividade e exatidão" nem em aproximação com a ciência moderna. Pelo contrário, o texto abre com a famosa frase de Einstein — "Deus não joga dados" — para contrapor a poesia à ciência: o poeta joga dados, ou seja, trabalha com a matéria e a forma da linguagem, não com a precisão científica. A alternativa D contradiz o texto, que não defende objetividade, mas sim a experiência poética com a linguagem.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não menciona "simulação de estados emocionais intensos" nem "universo ficcional". O autor fala em "mostrar" e "fazer ver" o que a linguagem enuncia, mas não há nada sobre simular emoções ou envolver o leitor em ficção. A alternativa E introduz um tema (emoção, ficção) que não está no texto — é uma fuga ao tema.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de localizar a ideia explícita e reconhecer a paráfrase. A alternativa C é a única que repete, com outras palavras, o que o autor escreveu sobre a crise do poeta. As demais ou extrapolam (A, B, D, E) ou contradizem (A, D) o texto. Lembre-se: em compreensão, a resposta mora no texto — se você precisa acrescentar algo de fora, está errada.

Gabarito: letra C

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