Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218386
Banca
VUNESP
Órgão
Faculdade Belavista
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
Vivemos um tempo curioso — talvez até irônico. Nunca houve tantos alfabetizados. E, paradoxalmente, nunca presenciamos tanta dificuldade em sustentar uma leitura simples por alguns minutos. Este texto é um pequeno ensaio — mas, para alguns, já soa como uma Odisseia. Ulisses enfrentou monstros e naufrágios; o leitor moderno descobre notificações, abas abertas, mensagens pendentes e a tentação de rolar a tela. Ambos lutam contra distrações. A diferença é que Ulisses tinha um destino por vinte anos — e o leitor de hoje mal consegue terminar um parágrafo.
Não se trata de capacidade, mas de estrutura cognitiva. Sabemos decodificar letras; desaprendemos a permanecer nelas. Padre Vieira pregava por duas horas e arrebatava ouvintes. Hoje, reels e vídeos curtos exigem impacto em cinco segundos para prender a atenção. Mudou o tempo, mudou o cérebro. Mudou o tipo de silêncio. Hoje, mesmo sem ruídos, estamos cercados por estímulos. O barulho migrou para dentro.
Aqui está meu ponto: se quase todos perderam a capacidade de leitura profunda, quem a recuperar não ganha apenas conhecimento — obtém refúgio. Ler amplia ideias, organiza o pensamento, fortalece argumentos. Há um instante em que a leitura silencia tudo ao redor. E, nesse silêncio, algo raro acontece: a epifania, a iluminação.
Algo mais? A leitura pode deixar de ser exercício. Torna-se estado. É nesse ponto que ela revela seu dom mais alto: a solitude. Não o isolamento do mundo, mas a possibilidade de habitá-lo sem se dissolver. Um espaço interno onde o barulho não entra. Onde não se busca audiência, mas presença. Solitude é quando você descobre que está só — e isto basta. Por quê? Porque há silêncio. E, talvez, pela primeira vez, esse silêncio não assusta. Ele acolhe.
Hoje, ler é um ato revolucionário. O hábito produz uma forma rara e refinada de pensar. A leitura cria margem, pausa, distância crítica. Ouse ser especial. Ouse saber. Vinte minutos por dia — e um novo mundo começa a se abrir diante de você. A mente, que antes vagava, começa a habitar-se. E aí, começa a liberdade.
(Leandro Karnal. “Mudou o tempo, o cérebro,
o tipo de silêncio: sem ruídos, o barulho migrou para dentro”. www.estadao.com.br, 19.07.2025. Adaptado.)
Leia o trecho do ensaio de Leandro Karnal para responder à questão. Para Leandro Karnal, a leitura
Apreserva valor simbólico, mas perdeu efetividade frente às novas exigências cognitivas do ambiente digital.
Boferece conhecimento, apesar de ser incapaz de competir com a complexidade do mundo contemporâneo.
Cfavorece aprendizado e pensamento crítico, porém dificulta o entendimento de formas rápidas de informação.
Dproporciona momentos de introspecção, embora dependa de ambientes silenciosos para ser eficaz.
Epromove um espaço interior silencioso e reflexivo, além de transformar a estrutura cognitiva do leitor.
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GabaritoE — promove um espaço interior silencioso e reflexivo, além de transformar a estrutura cognitiva do leitor.
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A leitura como refúgio interior: o que Karnal defende
Gabarito: letra E. Para Leandro Karnal, a leitura promove um espaço interior silencioso e reflexivo — a "solitude" — e, ao mesmo tempo, transforma a estrutura cognitiva do leitor, pois "desaprendemos a permanecer" nas letras e quem recupera a leitura profunda "obtém refúgio". A alternativa E é a única que sintetiza as duas ideias centrais do ensaio: o silêncio interior que a leitura cria e a mudança estrutural que ela opera no cérebro.
O comando pede uma compreensão global do texto: "Para Leandro Karnal, a leitura...". Isso significa que a resposta deve ser uma paráfrase fiel das ideias defendidas pelo autor, sem acrescentar opiniões ou informações que não estejam no texto. Não se trata de inferir algo novo, mas de reconhecer, entre as alternativas, aquela que melhor resume o que Karnal afirma sobre a leitura.
O ensaio desenvolve uma tese dupla. Primeiro, Karnal diagnostica um problema: embora sejamos alfabetizados, "desaprendemos a permanecer" nas letras — perdemos a capacidade de leitura profunda. Segundo, ele apresenta a solução: quem recupera essa capacidade "não ganha apenas conhecimento — obtém refúgio". Esse refúgio é descrito como um espaço interno de silêncio e presença, a "solitude", onde "o barulho não entra". A leitura, então, "pode deixar de ser exercício. Torna-se estado".
A técnica decisiva aqui é confrontar cada alternativa com o texto, perguntando: o autor afirma isso, ou a alternativa extrapola, restringe ou contradiz o que está escrito? As distratoras (A, B, C, D) cometem exatamente esses erros: ou acrescentam uma opinião que o autor não externou (como a "incapacidade de competir" ou a "dificuldade de entender formas rápidas"), ou restringem o alcance da ideia (como a dependência de "ambientes silenciosos"), ou contradizem o texto (como a "perda de efetividade" ou a "dificuldade" de aprendizado). A correta, E, é a única que se sustenta integralmente no que está escrito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura extrapolação (atribuir ao autor uma opinião que ele não deu, como em A e B) com restrição indevida (limitar a leitura a "ambientes silenciosos", como em D). A alternativa E é a única que não exige acrescentar nada de fora do texto.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a leitura "preserva valor simbólico, mas perdeu efetividade frente às novas exigências cognitivas do ambiente digital". O texto não diz que a leitura perdeu efetividade. Karnal diz que as pessoas perderam a capacidade de leitura profunda, não que a leitura em si perdeu valor. O trecho "desaprendemos a permanecer nelas" refere-se à dificuldade dos leitores, não a uma suposta ineficiência da leitura. A alternativa extrapola ao transformar um diagnóstico sobre os leitores em uma avaliação negativa da própria leitura.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a leitura "oferece conhecimento, apesar de ser incapaz de competir com a complexidade do mundo contemporâneo". O texto não diz que a leitura é incapaz de competir. Pelo contrário, Karnal a apresenta como um ato revolucionário e um refúgio diante do mundo contemporâneo: "Hoje, ler é um ato revolucionário". A alternativa contradiz o texto ao atribuir à leitura uma fraqueza que o autor não reconhece — aliás, ele a exalta como antídoto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a leitura "favorece aprendizado e pensamento crítico, porém dificulta o entendimento de formas rápidas de informação". O texto não diz que a leitura dificulta o entendimento de formas rápidas de informação. Karnal critica as formas rápidas ("reels e vídeos curtos exigem impacto em cinco segundos"), mas não afirma que a leitura as dificulta. A alternativa extrapola ao criar uma relação de oposição que não existe no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a leitura "proporciona momentos de introspecção, embora dependa de ambientes silenciosos para ser eficaz". O texto não diz que a leitura depende de ambientes silenciosos. Karnal afirma que "mesmo sem ruídos, estamos cercados por estímulos. O barulho migrou para dentro" — ou seja, o silêncio exterior não é condição para a leitura eficaz; o que importa é o silêncio interior que a leitura cria. A alternativa restringe indevidamente o alcance da ideia ao condicioná-la a um fator externo que o autor descarta.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que a leitura "promove um espaço interior silencioso e reflexivo, além de transformar a estrutura cognitiva do leitor". Isso é exatamente o que Karnal defende. O espaço interior silencioso é a "solitude":
"Um espaço interno onde o barulho não entra. Onde não se busca audiência, mas presença. Solitude é quando você descobre que está só — e isto basta."
E a transformação da estrutura cognitiva está no diagnóstico do autor:
"Não se trata de capacidade, mas de estrutura cognitiva. Sabemos decodificar letras; desaprendemos a permanecer nelas."
A leitura, para Karnal, não é apenas um exercício de decodificação; ela "pode deixar de ser exercício. Torna-se estado" — uma transformação profunda que reorganiza o pensamento e cria um espaço interno de silêncio e reflexão. A alternativa E é a única que sintetiza as duas ideias centrais do ensaio sem acrescentar, restringir ou contradizer nada.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão global, desconfie de alternativas que usam conectivos de oposição ("mas", "porém", "embora") para introduzir uma ressalva que o autor não fez. A correta geralmente é a que soma as ideias do texto, como a E, que usa "além de".
Gabarito: letra E. A leitura, para Karnal, é um refúgio interior que transforma quem a pratica — um espaço de silêncio e presença que reorganiza a mente. As demais alternativas ou extrapolam, ou restringem, ou contradizem o que o autor afirma.