Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — VUNESP 2025
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
vu218387
Banca
VUNESP
Órgão
Faculdade Belavista
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
Vivemos um tempo curioso — talvez até irônico. Nunca houve tantos alfabetizados. E, paradoxalmente, nunca presenciamos tanta dificuldade em sustentar uma leitura simples por alguns minutos. Este texto é um pequeno ensaio — mas, para alguns, já soa como uma Odisseia. Ulisses enfrentou monstros e naufrágios; o leitor moderno descobre notificações, abas abertas, mensagens pendentes e a tentação de rolar a tela. Ambos lutam contra distrações. A diferença é que Ulisses tinha um destino por vinte anos — e o leitor de hoje mal consegue terminar um parágrafo.
Não se trata de capacidade, mas de estrutura cognitiva. Sabemos decodificar letras; desaprendemos a permanecer nelas. Padre Vieira pregava por duas horas e arrebatava ouvintes. Hoje, reels e vídeos curtos exigem impacto em cinco segundos para prender a atenção. Mudou o tempo, mudou o cérebro. Mudou o tipo de silêncio. Hoje, mesmo sem ruídos, estamos cercados por estímulos. O barulho migrou para dentro.
Aqui está meu ponto: se quase todos perderam a capacidade de leitura profunda, quem a recuperar não ganha apenas conhecimento — obtém refúgio. Ler amplia ideias, organiza o pensamento, fortalece argumentos. Há um instante em que a leitura silencia tudo ao redor. E, nesse silêncio, algo raro acontece: a epifania, a iluminação.
Algo mais? A leitura pode deixar de ser exercício. Torna-se estado. É nesse ponto que ela revela seu dom mais alto: a solitude. Não o isolamento do mundo, mas a possibilidade de habitá-lo sem se dissolver. Um espaço interno onde o barulho não entra. Onde não se busca audiência, mas presença. Solitude é quando você descobre que está só — e isto basta. Por quê? Porque há silêncio. E, talvez, pela primeira vez, esse silêncio não assusta. Ele acolhe.
Hoje, ler é um ato revolucionário. O hábito produz uma forma rara e refinada de pensar. A leitura cria margem, pausa, distância crítica. Ouse ser especial. Ouse saber. Vinte minutos por dia — e um novo mundo começa a se abrir diante de você. A mente, que antes vagava, começa a habitar-se. E aí, começa a liberdade.
(Leandro Karnal. “Mudou o tempo, o cérebro,
o tipo de silêncio: sem ruídos, o barulho migrou para dentro”. www.estadao.com.br, 19.07.2025. Adaptado.)
Leia o trecho do ensaio de Leandro Karnal para responder à questão. O ensaio é um gênero textual dissertativo-opinativo em que se expõem ideias, críticas, reflexões e impressões pessoais. Na introdução do ensaio de Leandro Karnal, para abrir a temática sobre a dificuldade de sustentar uma leitura simples, o autor recorre, fundamentalmente, aos seguintes recursos linguísticos:
Ametalinguagem e intertextualidade.
Bambiguidade e metalinguagem.
Cintertextualidade e polissemia.
Dambiguidade e polissemia.
Epolissemia e metalinguagem.
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GabaritoA — metalinguagem e intertextualidade.
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Recursos linguísticos na introdução do ensaio de Karnal
Gabarito: letra A. O autor abre o ensaio recorrendo, fundamentalmente, a metalinguagem (o texto fala sobre o próprio ato de ler, sobre a dificuldade de sustentar uma leitura) e a intertextualidade (a referência explícita a Ulisses, da Odisseia, para comparar as distrações do herói com as do leitor moderno). A passagem que ancora a resposta está logo no primeiro parágrafo: "Este texto é um pequeno ensaio — mas, para alguns, já soa como uma Odisseia. Ulisses enfrentou monstros e naufrágios; o leitor moderno descobre notificações, abas abertas, mensagens pendentes e a tentação de rolar a tela."
O comando
A questão pede que você identifique os recursos linguísticos usados na introdução do ensaio para abrir a temática. Não se trata de interpretar o texto todo, mas de reconhecer estratégias de construção textual: como o autor começa a falar do assunto. As alternativas misturam quatro conceitos — metalinguagem, intertextualidade, ambiguidade e polissemia — e você precisa saber distinguir cada um.
O texto
O ensaio de Karnal discute a dificuldade de leitura profunda na era digital. Na introdução, ele estabelece um contraste: "Nunca houve tantos alfabetizados. E, paradoxalmente, nunca presenciamos tanta dificuldade em sustentar uma leitura simples por alguns minutos." Em seguida, para ilustrar essa dificuldade, ele recorre a duas estratégias: refletir sobre o próprio texto (metalinguagem) e dialogar com outra obra (intertextualidade).
A técnica que decide
Metalinguagem: é a função da linguagem que se volta para o próprio código, ou seja, o texto fala sobre o texto, sobre a linguagem, sobre o ato de ler/escrever. No trecho, o autor diz "Este texto é um pequeno ensaio" e discute a dificuldade de "sustentar uma leitura simples" — ele está falando da própria atividade de leitura, o que caracteriza metalinguagem.
Intertextualidade: é o diálogo entre textos, a referência a outra obra. A menção a "Ulisses" e à "Odisseia" é uma referência explícita à epopeia de Homero, estabelecendo uma comparação entre o herói e o leitor moderno.
Ambiguidade: ocorre quando uma palavra ou expressão admite mais de um sentido no contexto, gerando duplicidade de interpretação. Não há ambiguidade na introdução; o texto é claro.
Polissemia: é a propriedade de uma palavra ter vários significados (ex.: "manga" pode ser fruta ou parte da camisa). Não há exploração de múltiplos sentidos de uma mesma palavra na introdução.
Análise das alternativas
Recursos linguísticos: Metalinguagem (Texto fala sobre si mesmo, "Este texto é um pequeno ensaio", Reflexão sobre o ato de ler); Intertextualidade (Diálogo com outra obra, Referência a Ulisses/Odisseia); Ambiguidade (Ausente (texto claro)); Polissemia (Ausente (sem múltiplos sentidos))
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única que nomeia os dois recursos presentes na introdução. A metalinguagem aparece quando o autor reflete sobre o próprio ato de ler: "Este texto é um pequeno ensaio" e "a dificuldade em sustentar uma leitura simples". A intertextualidade aparece na referência a Ulisses: "Ulisses enfrentou monstros e naufrágios; o leitor moderno descobre notificações, abas abertas, mensagens pendentes e a tentação de rolar a tela." A comparação com a Odisseia é um diálogo explícito com outra obra, caracterizando intertextualidade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B menciona ambiguidade, que não está presente na introdução. O texto é claro e direto; não há duplicidade de sentido que gere ambiguidade. A metalinguagem está correta, mas a ambiguidade não se sustenta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C menciona polissemia, que também não é explorada na introdução. A intertextualidade está correta, mas a polissemia (multiplicidade de sentidos de uma palavra) não é um recurso usado para abrir a temática.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D combina ambiguidade e polissemia, ambos ausentes na introdução. Nenhum dos dois recursos é utilizado; a alternativa falha por completo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E menciona polissemia e metalinguagem. A metalinguagem está correta, mas a polissemia não é um recurso presente na introdução. A alternativa troca intertextualidade por polissemia, o que a torna incorreta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre conceitos próximos. Ambiguidade e polissemia são termos que parecem eruditos, mas não aparecem no texto. A chave é identificar a referência explícita a Ulisses (intertextualidade) e a reflexão sobre o próprio ato de ler (metalinguagem).
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar recursos linguísticos, pergunte: "o texto fala sobre si mesmo?" (metalinguagem) e "há referência a outra obra?" (intertextualidade). Ambiguidade e polissemia exigem duplicidade de sentido, que não ocorre aqui.
Gabarito: letra A — metalinguagem e intertextualidade, os dois recursos que abrem o ensaio de Karnal.