Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218416
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2025
Cargo
Sold ( )
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Assassinato digital
Ao contrário de tempos passados, quando sumir com alguém exigia certo grau de dificuldade e até risco criminal, hoje tornou-se facílimo dar fim a uma pessoa. Bastam um dedo e algumas teclas. É possível mudar completamente o círculo de amizades, sumir da turma, buscar novos ares, sem grandes enfrentamentos. Um amigo estava falando de sua ex: “Bloqueei”. Explicou que bloqueou em tudo: no WhatsApp, no Instagram, no Face. Em qualquer outra rede social, uma pessoa existe ou não existe. Se é bloqueada em todos os canais em que pode se comunicar com a outra, tecnicamente não existe mais. Simplesmente deixa de estar presente. Mesmo porque, na atualidade, a presença é mais digital que física em um número imenso de casos.
Houve um tempo em que eu me admirava ao dar uma “limpa” no celular. Por que tanta gente, com quem nunca converso, tantos endereços que já não fazem parte do meu dia a dia? Para meu susto, recebi reclamações: “Por que você me deletou?”, “Me bloqueou?”. Na prática, respondia: “Porque a gente não se falava mais”. Descobri que estar na minha rede mesmo sem papo era um modo de afirmar a existência da pessoa em minha vida. Portanto, era ofensivo ser excluído. Parecia sem sentido. Mas entendi. Se a pessoa for deletada ou, pior, bloqueada, simplesmente deixa de existir. A comparação é forte, mas inevitável: morre.
Eu ainda acredito nas relações de carne e osso, nos abraços, nos encontros longos e profundos. Mas descubro que os relacionamentos digitais tomaram um espaço impressionante. Deletar equivale a dizer adeus. E dizer adeus é sempre uma forma de luto.
(Walcyr Carrasco. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/walcyrcarrasco/ assassinato-digital/. Acesso em 28/09/2025. Adaptado)
É correto afirmar que no trecho “Deletar equivale a dizer adeus. E dizer adeus é sempre uma forma de luto” (3º parágrafo), o autor procura
Asugerir que o luto digital é uma experiência que afeta principalmente os mais jovens, que desconhecem lutos reais.
Bcriticar aqueles indivíduos que não reconhecem o peso emocional dos vínculos virtuais nos dias de hoje.
Cenfatizar que a exclusão digital tem valor simbólico equivalente ao rompimento definitivo de laços afetivos.
Dsuavizar o impacto das relações digitais, apresentando- as como menos intensas do que as presenciais.
Eilustrar que as despedidas virtuais são passageiras, visto que as pessoas não estão verdadeiramente mortas.
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GabaritoC — enfatizar que a exclusão digital tem valor simbólico equivalente ao rompimento definitivo de laços afetivos.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O valor simbólico da exclusão digital: "deletar" como despedida e luto
Gabarito: letra C. No trecho final, o autor enfatiza que a exclusão digital tem valor simbólico equivalente ao rompimento definitivo de laços afetivos — é isso que a comparação "deletar = dizer adeus = luto" expressa. A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo: "Deletar equivale a dizer adeus. E dizer adeus é sempre uma forma de luto". A alternativa C é a única que não acrescenta nada de fora do texto: ela apenas parafraseia a ideia de equivalência simbólica que o autor constrói.
O comando pede que se identifique o que o autor procura fazer com aquela frase — ou seja, uma tarefa de interpretação/inferência: não basta localizar a frase, é preciso captar a intenção por trás dela. A banca quer que você perceba que o autor não está apenas descrevendo um fato, mas atribuindo um peso emocional à ação de deletar alguém. Para resolver, você deve testar cada alternativa perguntando: "o texto autoriza esta leitura, ou ela exige acrescentar algo que não está escrito?"
O texto, de Walcyr Carrasco, desenvolve uma tese central: nas relações digitais, bloquear ou deletar alguém equivale a uma morte simbólica. No 1º parágrafo, o autor afirma que, se uma pessoa é bloqueada em todos os canais, "tecnicamente não existe mais". No 2º, ele relata a reação de quem foi deletado e conclui: "Se a pessoa for deletada ou, pior, bloqueada, simplesmente deixa de existir. A comparação é forte, mas inevitável: morre". No 3º, ele arremata com a frase da questão. Perceba a progressão: o autor parte da constatação (bloquear = não existir) e chega à avaliação emocional (deletar = adeus = luto). A alternativa C capta exatamente essa progressão: a exclusão digital equivale a um rompimento definitivo.
A técnica que decide esta questão é a inferência ancorada: a resposta não está literalmente escrita, mas é obrigada pelas pistas do texto. Quando o autor escreve "equivale a", ele estabelece uma relação de igualdade simbólica entre deletar e dizer adeus; quando escreve "é sempre uma forma de luto", ele intensifica essa relação, atribuindo à despedida digital o mesmo peso de uma perda real. Não há espaço para leituras que relativizem (como a letra D) ou que acrescentem julgamentos (como a letra B). A inferência legítima é a que segue o texto; a extrapolação é a que ultrapassa o que ele diz.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. Aqui, a letra B parece razoável (criticar quem não valoriza vínculos virtuais), mas o autor não critica ninguém — ele apenas constata e reflete. A letra D também é sedutora: o autor diz que prefere relações presenciais, mas não diz que as digitais são menos intensas; pelo contrário, ele as equipara a um luto.
PEGA ESSA DICA!
Grife o comando: "o autor procura" pede intenção, não conteúdo. Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". Se a alternativa acrescenta opinião, julgamento ou informação que não está no texto, ela está errada — mesmo que soe verdadeira no mundo real.
Deletar = dizer adeus = luto: Equivalência simbólica (Exclusão digital, Rompimento definitivo de laços); Progressão do texto (Bloquear = não existir, Deletado = deixa de existir, Morre (comparação inevitável)); Intenção do autor (Enfatizar o peso emocional, Não criticar ninguém, Não suavizar o impacto)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que o luto digital "afeta principalmente os mais jovens, que desconhecem lutos reais". O texto não menciona jovens, nem faixa etária, nem comparação entre lutos. O autor fala de "um amigo" e de sua própria experiência, sem qualquer recorte geracional. A expressão "principalmente" é um quantificador absoluto que restringe indevidamente o alcance do texto. O texto diz que deletar é uma forma de luto em geral, não que isso seja exclusivo ou predominante entre jovens.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: acrescentar opinião. A alternativa diz que o autor "critica aqueles indivíduos que não reconhecem o peso emocional dos vínculos virtuais". O texto não contém crítica a ninguém. O autor relata que "recebeu reclamações" e que "entendeu" o valor de estar na rede, mas não julga negativamente quem não reconhece esse peso. Ele apenas constata e reflete. A palavra "criticar" é um juízo de valor que o autor não emite. A alternativa parafraseia parte do texto (o peso emocional) mas embute uma opinião que não está lá.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A única inteiramente sustentada pelo texto. A alternativa afirma que o autor procura "enfatizar que a exclusão digital tem valor simbólico equivalente ao rompimento definitivo de laços afetivos". Isso é exatamente o que a frase final expressa:
"Deletar equivale a dizer adeus. E dizer adeus é sempre uma forma de luto"
O verbo "equivale" estabelece a equivalência simbólica; a expressão "é sempre uma forma de luto" reforça o caráter definitivo e emocional do rompimento. A alternativa parafraseia essa ideia sem acrescentar nada: "exclusão digital" = deletar; "rompimento definitivo de laços afetivos" = dizer adeus/luto. É uma inferência ancorada — a conclusão é obrigada pelas pistas do texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o autor procura "suavizar o impacto das relações digitais, apresentando-as como menos intensas do que as presenciais". Isso inverte o sentido do texto. O autor não suaviza; ele intensifica ao comparar deletar a um luto. No 3º parágrafo, ele diz: "Eu ainda acredito nas relações de carne e osso, nos abraços, nos encontros longos e profundos. Mas descubro que os relacionamentos digitais tomaram um espaço impressionante". A conjunção "Mas" indica oposição: ele prefere as presenciais, mas reconhece a força das digitais. A alternativa troca o verbo "enfatizar" por "suavizar", invertendo a intenção do autor.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação e contradição. A alternativa diz que as despedidas virtuais são "passageiras, visto que as pessoas não estão verdadeiramente mortas". O texto não diz que são passageiras; pelo contrário, diz que "dizer adeus é sempre uma forma de luto", o que sugere permanência e profundidade. A expressão "visto que" introduz uma causa que o texto não menciona — a distinção entre morte real e virtual. O autor usa "morte" como metáfora (sentido figurado), não como fato literal. A alternativa tangencia o tema (fala de despedidas) mas foge ao que o texto afirma.
Conclusão: a questão testa a habilidade de inferir a intenção do autor sem extrapolar. A alternativa C é a única que segue o texto: a exclusão digital é apresentada como equivalente simbólica de um rompimento definitivo. As demais acrescentam (A, B), invertem (D) ou relativizam (E) o que está escrito. Lembre-se: inferência legítima é a que se apoia em pistas do texto; extrapolação é a que ultrapassa essas pistas. Gabarito: letra C.