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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — VUNESP 2025

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
vu218509
Banca
VUNESP
Órgão
CREF 4
Ano
2025
Cargo
Ag Fisc ( )

Ode à vida

 

No início de 2020, a escritora portuguesa Lídia Jorge, na época com 74 anos, via as ruas se esvaziando pelas janelas de sua casa, em Algarve, no sul de Portugal. Naquele momento, o mundo era contaminado pelo coronavírus. A vida entrou em suspensão. Em pouco tempo, as fronteiras se fecharam, a pandemia da covid-19 foi decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o governo português anunciou um rígido toque de recolher. Lídia Jorge, que tinha o costume de visitar a mãe, Maria dos Remédios, de 92 anos, no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Boliqueime, encontrou as portas do local fechadas no domingo de 8 de março daquele ano.

 

A escritora portuguesa não viu mais a mãe com vida; ela faleceria em 19 de abril daquele ano, vítima de complicações da covid-19. Lídia Jorge precisou de um tempo para voltar a escrever. E a superação veio com o romance Misericórdia, inspirado nos últimos anos da matriarca, num lar para idosos. No livro, o leitor acompanha dona Alberti, junto a coadjuvantes que refletem sobre a existência, mas que também fofocam, choram, riem, brigam e amam.

 

A complexidade das relações humanas e a crítica social são pilares da obra dessa premiada autora. Ainda que muitas vezes surjam temas complicados de tratar, sua escrita transforma pensamentos, ações banais e conflitos pela teia do lirismo e da sensibilidade. A autora confessa que desejou escrever um enredo diferente de tudo o que já havia feito. “Misericórdia é um livro de paixão, que tem uma meditação sobre a existência”, conta. “Eu não quis escrever um livro sobre minha mãe, mas um livro a partir dela e, portanto, essas tantas figuras que aparecem na história são uma personagem coletiva, mas surgem como personagens individuais que expressam seus sentimentos. No livro, há um choro, mas há também um riso. Tem o dia fervilhante, mas tem a noite pesarosa que nunca mais acaba.”

 

Em seus livros, o empoderamento feminino e a crítica à desigualdade se tornaram suas marcas. Lídia Jorge também aborda as conquistas e mudanças da sociedade portuguesa em meio século, além de compartilhar sua trajetória, da infância aos primeiros passos na literatura, lugar em que traz à tona temas contemporâneos, como a crise migratória e o fechamento de fronteiras.

 

(Matheus Lopes Quirino, “Ode à vida”, Revista E. Adaptado)

Leia o texto a seguir para responder à questão:

   

Considere as frases a seguir:

 

• “Ainda que muitas vezes surjam temas complicados de tratar, sua escrita transforma pensamentos…” (3º parágrafo)

• “‘Eu não quis escrever um livro sobre minha mãe, mas um livro a partir dela…’” (3º parágrafo)

 

É correto afirmar que as expressões destacadas expressam, correta e respectivamente, relações de sentido de

  1. Aconsequência e oposição.
  2. Bexplicação e concessão.
  3. Cconsequência e causa.
  4. Dcausa e adição.
  5. Econcessão e oposição.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — concessão e oposição.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relações de sentido: concessão e oposição

Gabarito: letra E. A questão pede que você identifique, respectivamente, o valor semântico das expressões destacadas: "Ainda que" estabelece concessão (fato que não impede a realização do outro) e "mas" estabelece oposição (contraste entre duas ideias). Isso está provado no próprio texto, como veremos.

O comando

O enunciado pede que você reconheça a relação de sentido que os conectivos estabelecem entre as orações. Não é uma questão de interpretação profunda, mas de gramática aplicada ao texto: você precisa saber o valor semântico de cada conjunção/locução e confirmar no contexto. A palavra-chave é "respectivamente": a ordem das respostas deve seguir a ordem das frases.

O texto e a técnica

No 3º parágrafo, a autora afirma que, mesmo quando surgem temas difíceis, sua escrita continua transformando. A locução "Ainda que" introduz uma concessão: admite-se um obstáculo (temas complicados), mas ele não impede a ação principal (a escrita transforma). É o mesmo valor de "embora", "conquanto", "mesmo que".

Na segunda frase, a autora diz que não quis escrever sobre a mãe, mas a partir dela. O "mas" é uma conjunção coordenativa adversativa: estabelece oposição entre a ideia negada (sobre a mãe) e a ideia afirmada (a partir dela). É o mesmo valor de "porém", "contudo", "todavia".

"Ainda que muitas vezes surjam temas complicados de tratar, sua escrita transforma pensamentos…"

Aqui, "Ainda que" poderia ser substituído por "embora" sem alterar o sentido: embora surjam temas complicados, a escrita transforma. A concessão é uma quebra de expectativa: o obstáculo não impede o resultado.

"Eu não quis escrever um livro sobre minha mãe, mas um livro a partir dela…"

O "mas" opõe duas ideias: não sobre a mãe versus a partir dela. É uma oposição clássica, marcada por conjunção adversativa.

A pegadinha da banca

A banca adora confundir concessão com causa e consequência. Na concessão, o fato da oração subordinada é insuficiente para impedir o fato da principal; na causa, o fato da subordinada é condição necessária para o fato da principal. Veja:

  • Causa: "Como choveu, a rua ficou molhada." (a chuva é a causa do molhamento)

  • Concessão: "Embora chova, a rua fica seca." (a chuva não impede a secura)

No texto, "Ainda que surjam temas complicados" não é a causa de a escrita transformar; é uma ressalva que não impede a transformação. Por isso, não é causa nem consequência.

Outra confusão comum é entre oposição e adição. O "mas" pode ter valor aditivo em alguns contextos ("não só... mas também"), mas aqui ele claramente contrasta duas ideias: sobre a mãe versus a partir dela. Não há soma, há contraposição.

Análise das alternativas

Conectivos
  • 1"Ainda que"
    • Concessão
    • Fato que não impede o outro
    • Substituível por "embora"
  • 2"mas"
    • Oposição
    • Contraste entre ideias
    • Substituível por "porém"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Consequência e oposição. O primeiro conectivo "Ainda que" não expressa consequência. Consequência seria "de modo que", "tanto que", "por isso". Exemplo: "Choveu tanto que a rua alagou." No texto, "Ainda que" não indica resultado; indica ressalva. O segundo conectivo "mas" realmente expressa oposição, mas como o primeiro está errado, a alternativa cai.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Explicação e concessão. O primeiro conectivo "Ainda que" não expressa explicação. Explicação seria "porque", "pois", "já que". Exemplo: "Não fui à festa porque estava doente." No texto, "Ainda que" não explica nada; faz uma concessão. O segundo conectivo "mas" não expressa concessão; concessão seria "embora", "mesmo que". O "mas" é adversativo, de oposição.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Consequência e causa. O primeiro conectivo "Ainda que" não expressa consequência, como vimos. O segundo conectivo "mas" não expressa causa; causa seria "porque", "visto que". Exemplo: "A rua está molhada porque choveu." No texto, "mas" não indica causa; indica contraste.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Causa e adição. O primeiro conectivo "Ainda que" não expressa causa, como vimos. O segundo conectivo "mas" não expressa adição; adição seria "e", "também", "além disso". Exemplo: "Comprei pão e leite." No texto, "mas" não soma ideias; opõe-as.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Concessão e oposição. O primeiro conectivo "Ainda que" expressa concessão: admite um obstáculo que não impede a ação. O segundo conectivo "mas" expressa oposição: contrapõe duas ideias. É exatamente o que o texto mostra.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar concessão, tente substituir por "embora" e veja se a frase mantém o sentido. Para identificar oposição, tente substituir por "porém" ou "contudo". Se a substituição funcionar, o valor é concessivo ou adversativo.

Conclusão: A questão testa o reconhecimento de relações semânticas entre orações. A alternativa E é a única que nomeia corretamente os valores de "Ainda que" (concessão) e "mas" (oposição). As demais confundem concessão com causa/consequência/explicação e oposição com adição/causa. Gabarito: letra E.

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