Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218523
Banca
VUNESP
Órgão
FAMERP
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
Para responder a questão a seguir, leia o soneto “Tortura”, da poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930).
Tirar dentro do peito a Emoção, A lúcida Verdade, o Sentimento!
— E ser, depois de vir do coração, Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento, E puro como um ritmo de oração!
— E ser, depois de vir do coração, O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos: Rimas perdidas, vendavais dispersos, Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
(Florbela Espanca. Sonetos, 2025.)
O soneto de Florbela Espanca caracteriza-se, sobretudo, pelo seu teor
Areligioso.
Bsocial.
Cnostálgico.
Dmetalinguístico.
Eirônico.
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GabaritoD — metalinguístico.
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Soneto "Tortura" e o teor metalinguístico
Gabarito: letra D. O soneto de Florbela Espanca caracteriza-se, sobretudo, pelo teor metalinguístico, pois a poeta reflete sobre a própria criação poética — o fazer do verso —, como se lê já no primeiro verso: "Tirar dentro do peito a Emoção, A lúcida Verdade, o Sentimento!". A linguagem volta-se sobre si mesma, discutindo a dificuldade de transformar sentimento em poesia.
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique o teor predominante do soneto, ou seja, a característica que define sua natureza temática e discursiva. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de interpretar o conjunto do texto e reconhecer o eixo central que organiza a reflexão da autora. É uma questão de compreensão global, que exige perceber o movimento argumentativo do poema: a poeta fala de seus versos, de sua dificuldade em escrever, do desejo de alcançar um verso puro.
O texto: a poesia que fala da poesia
O soneto é uma reflexão sobre o próprio ato de escrever. Nos quartetos, a poeta descreve o que gostaria de fazer — "Tirar dentro do peito a Emoção" — e o que teme se tornar: "Um punhado de cinza esparso ao vento!...". No segundo quarteto, repete a estrutura para falar do verso ideal: "Sonhar um verso de alto pensamento, E puro como um ritmo de oração!". Nos tercetos, a autora avalia seus próprios versos: "São assim ocos, rudes, os meus versos: Rimas perdidas, vendavais dispersos, Com que eu iludo os outros, com que minto!". E conclui com o desejo: "Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!".
O tema central não é religião, nem sociedade, nem nostalgia, nem ironia — é a própria poesia. A autora fala de emoção, verdade, sentimento, verso, rimas, ilusão, mentira, e do desejo de um verso que expresse o que sente. Tudo isso é matéria da criação poética. Quando a linguagem fala da própria linguagem, temos a função metalinguística.
A técnica: função metalinguística × função poética
A função metalinguística ocorre quando a linguagem explica a si mesma, quando o código é usado para falar do próprio código. No poema, isso aparece de forma explícita: a poeta fala de "versos", de "rimas", de "verso puro", de "verso altivo e forte". Ela não está apenas usando a linguagem para expressar sentimentos (função emotiva) nem apenas preocupada com a beleza da forma (função poética) — ela está refletindo sobre a linguagem poética, sobre como escrever, sobre a dificuldade de transformar emoção em palavra.
A função poética, por sua vez, centra-se na mensagem em si, na elaboração da forma. Todo poema tem função poética, mas o que caracteriza este soneto de forma predominante é a metalinguagem: o assunto é a própria poesia. A distinção é sutil, mas decisiva: na função poética, a mensagem é trabalhada esteticamente; na metalinguística, a mensagem fala sobre a linguagem. Aqui, a poeta fala sobre o verso, sobre a dificuldade de escrever, sobre o que é um verso puro — isso é metalinguagem.
Análise das alternativas
Funções da linguagem
1Metalinguística
Código fala do próprio código
Tema: a própria poesia
Ex.: "versos", "rimas", "verso puro"
2Poética
Foco na forma/mensagem
Todo poema tem
3Emotiva
Expressão do eu
4Referencial
Informação objetiva
5Conativa
Apelo ao receptor
6Fática
Canal de comunicação
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Religioso. O texto menciona "ritmo de oração" e "puro", mas isso é uma comparação para descrever o verso ideal, não uma temática religiosa. A poeta não discute fé, divindade ou culto; usa a imagem da oração como metáfora de pureza. A alternativa tangencia o texto: aproveita uma palavra isolada ("oração") e extrapola um teor religioso que não é o eixo do poema.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Social. Não há qualquer referência a questões sociais, coletivas ou políticas no soneto. A reflexão é inteiramente individual e introspectiva, centrada na experiência da poeta com sua própria escrita. A alternativa extrapola completamente: acrescenta um tema que não está no texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Nostálgico. Há um tom de insatisfação e desejo, mas não de saudade de um tempo passado. A poeta não rememora algo que perdeu; ela expressa uma aspiração presente — encontrar o verso puro. A nostalgia envolve lembrança e saudade, o que não ocorre aqui. A alternativa troca o conceito: confunde o tom de anseio com nostalgia.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Metalinguístico. O soneto é uma reflexão sobre a própria poesia. A autora fala de "versos", "rimas", "verso puro", "verso altivo e forte", e da dificuldade de expressar o que sente. A linguagem volta-se sobre si mesma, discutindo o fazer poético. Como se lê nos tercetos:
"São assim ocos, rudes, os meus versos: Rimas perdidas, vendavais dispersos, Com que eu iludo os outros, com que minto!"
A poeta avalia seus próprios versos, reconhecendo suas limitações, e deseja um verso que "dissesse, a chorar, isto que sinto". Esse é o traço central do texto: a poesia que fala da poesia, a linguagem que discute a linguagem.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Irônico. Não há ironia no soneto. A ironia envolve dizer o contrário do que se pensa, com tom de crítica ou zombaria. Aqui, a poeta é sincera e confessional: expressa sua frustração com seus versos e seu desejo de alcançar algo melhor. Não há inversão de sentido nem tom jocoso. A alternativa contradiz o tom geral do texto, que é sério e introspectivo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre função poética e função metalinguística. Todo poema tem função poética, mas este se caracteriza por falar da própria poesia — isso é metalinguagem. A alternativa D é a única que capta o eixo temático central.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a função metalinguística, pergunte: "o texto fala sobre o quê?" Se o assunto é a própria linguagem, a escrita, o verso, a palavra — é metalinguagem. Grife os termos que nomeiam o fazer poético (verso, rima, poema) e veja se eles são o tema, não apenas o meio.
Gabarito: letra D. A questão se resolve percebendo que o soneto não trata de religião, sociedade, nostalgia ou ironia, mas da própria criação poética — a poeta reflete sobre seus versos, sobre a dificuldade de escrever e sobre o desejo de um verso puro. Esse é o teor metalinguístico, a linguagem que fala de si mesma.