Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — VUNESP 2025
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
vu218561
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sorocaba
Ano
2025
Cargo
Prof ( )
Leia o excerto do conto de Conceição Evaristo para responder a questão a seguir: A morte brinca com balas nos dedos gatilhos dos meninos. Dorvi se lembrou do combinado, o juramento feito em voz uníssona, gritado sob o pipocar dos tiros: — A gente combinamos de não morrer! Limpou os olhos. Lágrimas apontavam diversos sentimentos. A fumaça que subia do monturo de lixo ao lado justificava qualquer gota ou rio-mar que surgisse e rolasse pela face abaixo. Era a fumaça, desculpou-se consigo mesmo e cantarolou mordiscando a dor, a canção do Seixas: “Quem não tem colírio usa óculos escuros.” A morte incendeia a vida, como se essa estopa fosse. Molambos erigem fumaça no ar. Na lixeira, corpos são incinerados. A vida é capim, mato, lixo, é pele e cabelo. É e não é. Na televisão deu: — Mataram a mulher, puseram o corpo na lixeira e atearam fogo! (Conceição Evaristo, “A gente combinamos de não morrer”. Olhos d’água, 2016) Em prática de leitura em sala de aula, com base em Dolz, Noverraz e Schneuwly (Gêneros orais e escritos na escola. 2004), os alunos devem reconhecer que, no texto de Conceição Evaristo, a capacidade de linguagem dominante e o domínio social de comunicação são, correta e respectivamente:
Aexpor, com contrastes de informações; transmissão e construção de saberes.
Brelatar, com enredo não-linear; discussão de problemas sociais controversos.
Cargumentar, com contraste de opiniões; negociação de tomadas de posição.
Dargumentar, com opinião única; representação pelo discurso de experiências vividas.
Enarrar, com enredo linear; cultura literária ficcional.
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GabaritoC — argumentar, com contraste de opiniões; negociação de tomadas de posição.
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Tipologia e Gênero Textual: a capacidade de linguagem dominante no conto de Conceição Evaristo
Gabarito: letra C. A questão pede que o aluno reconheça, com base em Dolz, Noverraz e Schneuwly, a capacidade de linguagem dominante e o domínio social de comunicação do texto. A alternativa C é a única que acerta ambos: o texto argumenta, com contraste de opiniões, e o domínio social é a negociação de tomadas de posição. Isso se prova no próprio excerto: o narrador apresenta a fala dos meninos — "A gente combinamos de não morrer!" — e a contrapõe à realidade da morte que "brinca com balas nos dedos gatilhos", criando um contraste entre o desejo de viver e a violência que os cerca.
O comando: o que a banca quer
O enunciado é claro: identificar a capacidade de linguagem dominante e o domínio social de comunicação. Isso não é uma questão de "achar o tipo textual" por intuição; é uma questão que exige o referencial teórico de Dolz, Noverraz e Schneuwly, que classifica os textos por sua finalidade social e pela ação de linguagem que realizam. A banca não pergunta "qual é o gênero?" (conto), mas sim qual a capacidade (argumentar, narrar, expor, relatar, descrever) e em que domínio social (negociação de posições, transmissão de saberes, cultura literária, etc.) o texto se insere.
O texto: argumentação disfarçada de narração
O excerto é um fragmento de um conto, o que pode levar o aluno a marcá-lo como "narrar". Porém, a capacidade de linguagem dominante não é a narração em si, mas a argumentação. O texto não se limita a contar uma história; ele defende um ponto de vista sobre a violência que atinge crianças. Observe:
"A morte brinca com balas nos dedos gatilhos dos meninos."
Aqui, a morte é personificada e a imagem é construída para chocar e convencer o leitor da gravidade da situação. O juramento "A gente combinamos de não morrer!" é a tese dos meninos, uma tomada de posição contra a morte. O narrador, ao descrever a fumaça que "justificava qualquer gota ou rio-mar que surgisse e rolasse pela face abaixo", apresenta o contraponto: a dor e a tentativa de autoengano. Há, portanto, um conflito de vozes e de opiniões — a vida que se quer preservar versus a morte que se impõe —, o que caracteriza a argumentação.
A técnica: capacidade de linguagem × domínio social
Na teoria de Dolz, Noverraz e Schneuwly, cada agrupamento de gêneros está ligado a uma capacidade de linguagem e a um domínio social de comunicação. O argumentar tem como finalidade a defesa de um ponto de vista e a persuasão, e seu domínio social é a negociação de tomadas de posição — ou seja, o texto existe para fazer o leitor refletir, concordar ou se posicionar sobre uma questão controversa. É exatamente o que ocorre: o texto não informa apenas (expor), não relata apenas um fato (relatar), não conta apenas uma história (narrar); ele problematiza a violência e a morte de crianças, levando o leitor a tomar uma posição.
Análise das alternativas
Capacidade de linguagem dominante
1Argumentar
Defesa de ponto de vista
Contraste de opiniões
Persuasão
2Narrar
Conta história
Enredo linear
3Expor
Transmite saber
Neutro
4Relatar
Narra fatos
5Domínio social de comunicação
Negociação de tomadas de posição
Problematiza questão controversa
Convida a refletir
Transmissão e construção de saberes
Cultura literária ficcional
Representação de experiências vividas
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito (expor × argumentar). O texto não tem finalidade meramente informativa. A alternativa diz "expor, com contrastes de informações; transmissão e construção de saberes", mas o texto não busca transmitir um saber de forma neutra; ele busca convencer e sensibilizar. O contraste presente não é de "informações", mas de opiniões e posições diante da vida e da morte.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito (relatar × argumentar). A alternativa diz "relatar, com enredo não-linear; discussão de problemas sociais controversos". O texto até discute um problema social, mas a capacidade de linguagem dominante não é relatar (que se liga à narração de fatos), e sim argumentar. Além disso, o enredo não é o foco; o foco é a defesa de uma posição.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A capacidade de linguagem dominante é argumentar, pois o texto apresenta um ponto de vista sobre a violência e a morte, contrapondo a fala dos meninos à realidade cruel. O domínio social de comunicação é a negociação de tomadas de posição, pois o texto convida o leitor a refletir e a se posicionar sobre o problema. A passagem que comprova é o juramento "A gente combinamos de não morrer!", que é uma tomada de posição diante da morte, e a descrição da morte que "incendeia a vida", que é o contra-argumento da realidade.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (opinião única × contraste de opiniões). A alternativa diz "argumentar, com opinião única; representação pelo discurso de experiências vividas". O texto não apresenta uma opinião única; ele apresenta um contraste entre a vontade de viver dos meninos e a realidade da morte. Além disso, o domínio social não é "representação pelo discurso de experiências vividas" (que seria próprio da narração), mas sim a negociação de posições.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito (narrar × argumentar). A alternativa diz "narrar, com enredo linear; cultura literária ficcional". Embora o texto seja um conto (gênero narrativo), a capacidade de linguagem dominante não é a narração, mas a argumentação. O texto não se limita a contar uma história; ele a utiliza para defender uma tese sobre a violência. O domínio social também não é apenas "cultura literária ficcional", mas a negociação de tomadas de posição.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre gênero textual (conto) e tipo textual (narrativo). O aluno que marca "narrar" se prende à forma (é um conto), mas a questão pede a capacidade de linguagem dominante, que é a argumentação, pois o texto defende um ponto de vista.
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões de tipologia com base em Dolz, pergunte-se: "qual é a finalidade social do texto?" Se é convencer ou defender uma posição, a capacidade é argumentar, e o domínio é a negociação de tomadas de posição. Não se deixe enganar pelo gênero (conto, crônica, etc.).