Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — VUNESP 2025

PortuguêsConcordância (Verbal e Nominal)
Código
vu218566
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sorocaba
Ano
2025
Cargo
Prof ( )
Leia o excerto do conto de Conceição Evaristo para responder a questão a seguir:   A morte brinca com balas nos dedos gatilhos dos meninos. Dorvi se lembrou do combinado, o juramento feito em voz uníssona, gritado sob o pipocar dos tiros:   — A gente combinamos de não morrer! Limpou os olhos. Lágrimas apontavam diversos sentimentos. A fumaça que subia do monturo de lixo ao lado justificava qualquer gota ou rio-mar que surgisse e rolasse pela face abaixo. Era a fumaça, desculpou-se consigo mesmo e cantarolou mordiscando a dor, a canção do Seixas: “Quem não tem colírio usa óculos escuros.”   A morte incendeia a vida, como se essa estopa fosse. Molambos erigem fumaça no ar. Na lixeira, corpos são incinerados. A vida é capim, mato, lixo, é pele e cabelo. É e não é. Na televisão deu:   — Mataram a mulher, puseram o corpo na lixeira e atearam fogo!'   (Conceição Evaristo, “A gente combinamos de não morrer”. Olhos d’água, 2016)   Em relação à frase do 2o parágrafo “— A gente combinamos de não morrer!”, são análises coerentes com o exposto por Bechara (2015), Bagno (2003) e Martins (2008), correta e respectivamente:
  1. ATal construção atende à concordância entre sujeito e verbo tanto no conteúdo quanto na expressão. / O uso contraria a norma-padrão e pode ocorrer no contexto do dia a dia, mas deve ser evitado na escola. / Trata-se de um caso de concordância estilística, a exemplo de “Consultemos o coração aqueles que o tivemos”.
  2. BTal construção atende à concordância entre sujeito e verbo, já que “a gente” pressupõe “nós”. / Trata-se de uso que contraria a norma de prestígio, razão pela qual deve ser evitado, principalmente no ambiente escolar. / Trata-se de um caso de concordância lógico- formal, a exemplo de “Os rios estão vazios”.
  3. CTal construção deve ser evitada, mesmo que haja distância suficiente entre sujeito e verbo. / O uso de formas não padrão não interfere na comunicação e elas devem ser amplamente disseminadas. / Trata- se de um caso de concordância lógico-formal, a exemplo de “A casa e o apartamento estavam sujeitos ao alto imposto na cidade”.
  4. DTal construção soa desagradável ao ouvido pela proximidade entre sujeito e verbo. / A crítica a esse tipo de construção constitui preconceito linguístico, vindo, em geral, das camadas privilegiadas da população. / Trata-se de um caso de concordância estilística, a exemplo de “... tratei logo de convocar a trinca do Curvelo para que me arranjassem uma gaiola”.
  5. ETal construção desqualifica o uso da língua culta e impõe um padrão de falar que se deve evitar. / Desqualificar a concordância nessa construção é uma atitude de preconceito linguístico que nega a língua viva. / Trata-se de um caso de concordância estilística, a exemplo de “Sim, eu agora ando bom. E tu, meu Luís, como vamos de saúde?”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Tal construção soa desagradável ao ouvido pela proximidade entre sujeito e verbo. / A crítica a esse tipo de construção constitui preconceito linguístico, vindo, em geral, das camadas privilegiadas da população. / Trata-se de um caso de concordância estilística, a exemplo de “... tratei logo de convocar a trinca do Curvelo para que me arranjassem uma gaiola”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Concordância verbal, variação e preconceito linguístico em "A gente combinamos"

Gabarito: letra D. A questão pede que você relacione três análises da frase "A gente combinamos de não morrer!" às perspectivas de Bechara (2015), Bagno (2003) e Martins (2008), correta e respectivamente. A única alternativa que faz isso com fidelidade é a D: Bechara trata do efeito estético ("soa desagradável ao ouvido"), Bagno denuncia o preconceito linguístico e Martins classifica o fenômeno como concordância estilística (silepse), com exemplo de Machado de Assis. As demais trocam os autores, invertem conceitos ou extrapolam o que cada teórico defende.

O comando: o que a banca quer

Repare no verbo do enunciado: "são análises coerentes com o exposto por Bechara (2015), Bagno (2003) e Martins (2008), correta e respectivamente". Isso significa que a ordem importa: a primeira parte da alternativa deve corresponder a Bechara, a segunda a Bagno, a terceira a Martins. Não basta a alternativa conter ideias verdadeiras sobre a frase — elas precisam estar na ordem certa e fieis ao pensamento de cada autor. É uma questão de interpretação de texto aplicada a teorias linguísticas, não de decoreba de regra.

O texto e o fenômeno linguístico

No conto de Conceição Evaristo, a fala "A gente combinamos de não morrer!" é um exemplo clássico de concordância verbal não padrão: o sujeito "a gente" (3ª pessoa do singular) recebe o verbo na 1ª pessoa do plural ("combinamos"). Na norma-padrão, seria "A gente combinou de não morrer". Mas a construção é perfeitamente compreensível e carrega valor expressivo — é uma silepse de pessoa (concordância ideológica, feita pelo sentido, não pela forma). É exatamente esse contraste entre norma-padrão e uso real que os três autores comentam, cada um a seu modo.

A técnica: como testar cada alternativa

Para cada alternativa, pergunte: "esta análise corresponde ao autor indicado?" e "a ordem está correta?". Bechara, em sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, discute a concordância verbal e reconhece que certas construções, embora possam ocorrer, "soam mal" ou fogem ao padrão culto — ele não as condena como erro absoluto, mas aponta o desconforto. Bagno, em A Língua de Eulália e Preconceito Linguístico, é enfático: criticar construções como "a gente combinamos" é preconceito linguístico, pois todas as variedades têm sua lógica. Martins, ao tratar da concordância estilística (ou silepse), explica que o verbo concorda com a ideia (nós) e não com a forma (a gente), como em "Consultemos o coração aqueles que o tivemos" — note que o exemplo da alternativa D, de Machado, também ilustra essa concordância pelo sentido.

1Bechara (2015)
Desvio da norma-padrão
Soa desagradável ao ouvido
2Bagno (2003)
Preconceito linguístico
Vem das camadas privilegiadas
3Martins (2008)
Concordância estilística
Verbo concorda com a ideia (nós)
"A gente combinamos" (silepse de pessoa)
LEVELsoulevel.com.br
"A gente combinamos" (silepse de pessoa): Bechara (2015) (Desvio da norma-padrão, Soa desagradável ao ouvido); Bagno (2003) (Preconceito linguístico, Vem das camadas privilegiadas); Martins (2008) (Concordância estilística, Verbo concorda com a ideia (nós))

Alternativa A — ❌ Incorreta

A primeira parte diz que a construção "atende à concordância entre sujeito e verbo tanto no conteúdo quanto na expressão" — isso contradiz Bechara, que reconhece o desvio da norma. A segunda parte, sobre Bagno, está parcialmente correta ("contraria a norma-padrão e pode ocorrer no contexto do dia a dia, mas deve ser evitado na escola"), mas Bagno não defende que se evite na escola; ele critica justamente essa postura. A terceira parte, sobre Martins, está correta (concordância estilística), mas o exemplo "Consultemos o coração aqueles que o tivemos" é de Vieira, não de Machado — e a alternativa erra ao atribuir a Bechara uma posição que ele não tem. Erro: contradiz o texto e troca os autores.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A primeira parte afirma que "a gente" pressupõe "nós" e que por isso a concordância está correta — isso não é o que Bechara defende; ele reconhece a construção como desvio da norma, ainda que explique sua origem. A segunda parte, sobre Bagno, está correta ("contraria a norma de prestígio, razão pela qual deve ser evitado, principalmente no ambiente escolar") — mas, de novo, Bagno não recomenda evitar; ele combate o preconceito. A terceira parte, sobre Martins, está errada: "concordância lógico-formal" não é o termo; o correto é concordância estilística (silepse), e o exemplo "Os rios estão vazios" é uma concordância comum, não estilística. Erro: troca o conceito e inverte a posição de Bagno.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A primeira parte ("deve ser evitada, mesmo que haja distância suficiente entre sujeito e verbo") não corresponde a Bechara, que não prescreve "evitar" — ele descreve o fenômeno. A segunda parte ("O uso de formas não padrão não interfere na comunicação e elas devem ser amplamente disseminadas") distorce Bagno: ele não defende que se dissemine o não padrão, mas que se respeite a variação. A terceira parte ("concordância lógico-formal") repete o erro da B, e o exemplo "A casa e o apartamento estavam sujeitos ao alto imposto na cidade" é uma concordância gramatical comum, não estilística. Erro: extrapola e troca o conceito.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A primeira parte ("soa desagradável ao ouvido pela proximidade entre sujeito e verbo") é coerente com Bechara, que, ao tratar da concordância, observa que certas construções, embora possam ocorrer, causam estranheza — e a proximidade entre "a gente" e "combinamos" acentua o desconforto. A segunda parte ("A crítica a esse tipo de construção constitui preconceito linguístico, vindo, em geral, das camadas privilegiadas da população") é a tese central de Bagno, que denuncia o preconceito como instrumento de discriminação social. A terceira parte ("concordância estilística, a exemplo de '... tratei logo de convocar a trinca do Curvelo para que me arranjassem uma gaiola'") é exatamente o que Martins descreve: a silepse, em que o verbo concorda com a ideia (a "trinca" = grupo de pessoas, por isso "arranjassem" no plural). A ordem está correta e os exemplos são fiéis. É a única alternativa inteiramente sustentada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A primeira parte ("desqualifica o uso da língua culta e impõe um padrão de falar que se deve evitar") inverte a posição de Bechara: ele não "desqualifica" nem "impõe" — descreve. A segunda parte ("Desqualificar a concordância nessa construção é uma atitude de preconceito linguístico que nega a língua viva") é coerente com Bagno, mas a primeira já comprometeu a alternativa. A terceira parte ("concordância estilística, a exemplo de 'Sim, eu agora ando bom. E tu, meu Luís, como vamos de saúde?'") é um exemplo de concordância ideológica (o "nós" implícito em "vamos"), mas o trecho é de Manuel Bandeira, não de Machado — e a alternativa erra ao atribuir a Bechara uma posição que ele não tem. Erro: contradiz o texto e troca os autores.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura três teóricos e exige que você saiba quem disse o quê. Decore as teses centrais: Bechara = descrição da norma e do desvio; Bagno = preconceito linguístico; Martins = concordância estilística (silepse). Se uma alternativa trocar a ordem ou o exemplo, está errada.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler alternativas com "respectivamente", sublinhe os três blocos e relacione cada um ao autor correspondente. Se um bloco estiver errado, a alternativa inteira cai — não precisa analisar o resto.

Conclusão: a questão testa sua capacidade de relacionar teoria e exemplo. A alternativa D é a única que mantém a ordem Bechara → Bagno → Martins com fidelidade. Nas demais, ou o conceito está trocado ("lógico-formal" em vez de "estilística"), ou a posição do autor foi invertida (Bagno "evitar" em vez de "respeitar"), ou o exemplo não corresponde ao fenômeno. Gabarito: letra D.

Link permanente: /questoes/vu218566