Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218573
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sorocaba
Ano
2025
Cargo
Prof ( )
Leia o soneto de Antero de Quental para responder a questão a seguir:
À Virgem Santíssima
Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia
Num sonho todo feito de incerteza, De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza, Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade, Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura Feita só do perdão,
só ternura E da paz da nossa hora derradeira...
Ó visão, visão triste e piedosa! Fita-me assim calada,
assim chorosa. E deixa-me sonhar a vida inteira!
(Em: MOISÉS, M. A. Literatura portuguesa através dos textos. 33. ed. São Paulo: Cultrix, 2011)
De acordo com Massaud Moisés (2011), no soneto de Quental, constata-se no eu lírico
Aa expectação de belezas transcendentais, evidenciando seu anseio de perfeições utópicas.
Bo deslumbramento religioso e o bem-estar dele decorrente, pontuando a vida de otimismo.
Ca desintegração existencial e o desconforto com o sobrenatural, em clara oposição à religião.
Do assombro pelo inusitado do sobrenatural, que lhe ronda o cotidiano e lhe traz conforto.
Ea melancolia pela fugacidade do tempo, que lhe rouba as forças, a energia espiritual e a paz.
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GabaritoA — a expectação de belezas transcendentais, evidenciando seu anseio de perfeições utópicas.
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Soneto de Antero de Quental: a busca do transcendente
Gabarito: letra A. O eu lírico manifesta a expectação de belezas transcendentais, evidenciando seu anseio por perfeições utópicas. Isso se prova nos versos em que ele descreve a visão da Virgem como algo que "até nem sei se as há na natureza" e no pedido final: "E deixa-me sonhar a vida inteira!" — o sonho é o refúgio onde essa beleza ideal pode ser contemplada.
O comando pede uma interpretação ("constata-se no eu lírico"), ou seja, exige que você deduza, a partir das pistas do texto, o estado de espírito e o anseio do sujeito poético. Não é uma questão de mera recorrência (paráfrase literal), mas de inferência ancorada em pistas textuais. A alternativa correta é a que melhor sintetiza o movimento do poema: o eu lírico não descreve uma experiência religiosa concreta e confortável, mas a contemplação de uma beleza ideal, fora do alcance da natureza, que ele deseja eternizar no sonho.
O soneto é uma invocação à Virgem Santíssima, mas o foco não está na doutrina religiosa, e sim na experiência estética e espiritual do eu lírico. Ele vê no olhar da Virgem "outra luz, outra suavidade" que "nem sei se as há na natureza" — ou seja, uma beleza que transcende o mundo sensível. O poema termina com o desejo de permanecer nesse estado de contemplação: "Fita-me assim calada, assim chorosa. E deixa-me sonhar a vida inteira!". A palavra-chave é "sonhar": o eu lírico quer se manter na visão ideal, não acordar para a realidade. Isso configura a expectação de belezas transcendentais e o anseio de perfeições utópicas — perfeições que não existem no mundo real, mas que ele almeja.
A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora? As distratoras (B, C, D, E) cometem exatamente o erro de extrapolar — acrescentam sentimentos e ideias que não estão no poema, como otimismo, oposição à religião, conforto ou melancolia pelo tempo. A correta (A) é a única que se sustenta integralmente nos versos, sem precisar de informação externa.
Eu lírico no soneto: Estado inicial (Sonho de incerteza, Ansiedade); Visão da Virgem (Olhar de piedade e tristeza, Outra luz, outra suavidade, Transcende a natureza); Desejo final (Permanecer no sonho, Contemplar a beleza ideal)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única que traduz fielmente o anseio do eu lírico. Veja as pistas:
"Era outra luz, era outra suavidade, / Que até nem sei se as há na natureza..."
Aqui está a expectação de belezas transcendentais: o eu lírico contempla uma beleza que não pertence ao mundo natural, algo que ele "nem sei se as há na natureza". E o desejo de permanecer nesse estado ideal aparece no verso final:
"E deixa-me sonhar a vida inteira!"
O verbo "sonhar" é a chave: o eu lírico quer viver na contemplação dessa perfeição utópica, não na realidade concreta. A alternativa A parafraseia exatamente isso: "expectação de belezas transcendentais" (a visão da Virgem como algo além da natureza) e "anseio de perfeições utópicas" (o desejo de sonhar a vida inteira). Nenhuma outra alternativa captura esse movimento.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (acrescenta opinião). A alternativa B fala em "deslumbramento religioso e o bem-estar dele decorrente, pontuando a vida de otimismo". O texto não menciona otimismo nem bem-estar — pelo contrário, o eu lírico descreve a visão como algo "feito de incerteza" e "indizível ansiedade". O tom é de contemplação melancólica, não de alegria otimista. A banca tenta fazer você acreditar que uma experiência religiosa positiva gera otimismo, mas isso não está no poema.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa C afirma que há "desintegração existencial e o desconforto com o sobrenatural, em clara oposição à religião". Isso é o oposto do que o poema diz. O eu lírico invoca a Virgem com devoção ("Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia") e deseja permanecer na visão dela. Não há oposição à religião, e sim uma entrega contemplativa. A palavra "desconforto" também não encontra apoio: o eu lírico quer "sonhar a vida inteira" com a visão, o que indica conforto, não desconforto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (acrescenta ideia de conforto). A alternativa D fala em "assombro pelo inusitado do sobrenatural, que lhe ronda o cotidiano e lhe traz conforto". O texto não diz que o sobrenatural "ronda o cotidiano" do eu lírico — a visão ocorre em um "sonho todo feito de incerteza", não na vida diária. Além disso, o poema não afirma que isso traz conforto; o eu lírico está em estado de "ansiedade" e "tristeza", e a visão é contemplada com piedade, não como fonte de alívio prático. A alternativa D inventa uma relação com o cotidiano que não existe no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (fuga ao tema). A alternativa E fala em "melancolia pela fugacidade do tempo, que lhe rouba as forças, a energia espiritual e a paz". O poema não aborda a fugacidade do tempo nem a perda de forças. O eu lírico não lamenta o tempo que passa; ele deseja eternizar o sonho ("deixa-me sonhar a vida inteira"). A melancolia presente no poema está ligada à tristeza piedosa da visão, não à passagem do tempo. A alternativa E tangencia o tema, mas introduz uma preocupação (o tempo) que não está no texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora extrapolar com um sentimento plausível — otimismo religioso (B), oposição à religião (C), conforto (D), melancolia temporal (E) — todos parecem razoáveis, mas nenhum está no poema. A única que se ancora nos versos é a A.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação de poema, grife os versos que expressam o desejo do eu lírico (verbos no imperativo, como "Fita-me", "deixa-me") e as comparações com a natureza ("nem sei se as há na natureza"). Eles revelam o anseio central.