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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — VUNESP 2025

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
vu218599
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Paulínia
Ano
2025
Cargo
Ag ( )

A complicada arte de ver

 

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucuraa. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolasb. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamenteajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.c De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quandocortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto”.

 

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as Odes Elementares,de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetasd. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

 

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. Mas existe algo na visão que não pertence à física. Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

 

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a vere. Por isso eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana.

 

(Rubem Alves. https://www.recantodasletras.com.br/artigos/4787266. Adaptado)

Leia o texto a seguir para responder à questão.   Assinale a alternativa em que o acréscimo de vírgula(s) ao trecho original respeita a norma-padrão de emprego deste sinal de pontuação.
  1. A“Eu fiquei em silêncio, aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura.”
  2. B“… eu fui para a cozinha para fazer aquilo, que já fizera, centenas de vezes: cortar cebolas.”
  3. C“… tive a impressão, de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.”
  4. D“Essa perturbação ocular que a acometeu é, comum, entre os poetas.”
  5. E“Nietzsche sabia disso e afirmou que, a primeira tarefa da educação é ensinar a ver.”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — “Eu fiquei em silêncio, aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Vírgula: oração reduzida deslocada e os casos proibidos

Gabarito: letra A. A alternativa A é a única em que a vírgula acrescentada isola uma oração reduzida de gerúndio deslocada — “aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura” —, o que é uso obrigatório e correto. As demais alternativas cometem erros clássicos: separam sujeito de verbo, verbo de complemento, verbo de predicativo ou colocam vírgula antes de pronome relativo restritivo e após conjunção integrante, todos casos proibidos pela norma-padrão.

O comando

A questão pede que você acrescente vírgula(s) a um trecho do texto respeitando a norma-padrão. Isso significa que você deve testar cada reescrita: a vírgula só pode ser inserida onde a gramática autoriza — isolando termos deslocados, orações explicativas, apostos, vocativos, etc. — e nunca onde ela separaria termos que não podem ser separados (sujeito/verbo, verbo/complemento, etc.).

O texto

O texto de Rubem Alves narra a história de uma paciente que passa a ver a cebola como obra de arte, e o autor conclui que “ver é muito complicado” e que “o ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido”. Para a questão de pontuação, o que importa é a estrutura sintática dos trechos citados, não o sentido global. Cada alternativa reescreve um trecho com uma vírgula extra; você deve julgar se essa vírgula é gramaticalmente válida.

A técnica: os casos obrigatórios e proibidos

A vírgula é um marcador de funções sintáticas: sua presença ou omissão pode alterar a estrutura e o sentido da frase. Os principais casos obrigatórios incluem:

  • Separar adjuntos adverbiais deslocados (antepostos ou intercalados).

  • Isolar orações interferentes (comentários que interrompem o período).

  • Separar apostos e vocativos.

  • Isolar orações adjetivas explicativas (com vírgulas) — diferente das restritivas (sem vírgulas).

  • Separar termos coordenados em enumeração.

Os casos proibidos (nunca usar vírgula) são:

  • Separar sujeito de verbo.

  • Separar verbo de complemento (objeto direto/indireto).

  • Separar verbo de predicativo.

  • Separar adjunto adnominal do substantivo.

  • Separar complemento nominal do substantivo.

  • Separar locução verbal do agente da passiva.

  • Colocar vírgula entre a conjunção subordinativa e o restante da oração que ela inicia.

No caso da alternativa A, temos uma oração reduzida de gerúndio (“aguardando que ela me revelasse...”) que funciona como adjunto adverbial e está deslocada (vem depois do verbo “fiquei”, mas não é o complemento direto; indica circunstância de tempo/modo). Quando o adjunto adverbial está deslocado, a vírgula é obrigatória (ou facultativa se curto, mas aqui é longo, então obrigatória).

Análise das alternativas

Vírgula: casos proibidos
  • 1Sujeito × verbo
  • 2Verbo × complemento
  • 3Verbo × predicativo
  • 4Substantivo × complemento nominal
  • 5Conjunção integrante × oração
  • 6Pronome relativo restritivo
  • 7Vírgula: casos obrigatórios
    • Adjunto adverbial deslocado
    • Oração reduzida de gerúndio deslocada
    • Aposto e vocativo
    • Oração adjetiva explicativa
    • Enumeração
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Eu fiquei em silêncio, aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura.”

A vírgula isola a oração reduzida de gerúndio “aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura”, que funciona como adjunto adverbial deslocado. Como o adjunto é longo (mais de três palavras), a vírgula é obrigatória. A reescrita respeita a norma-padrão.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“… eu fui para a cozinha para fazer aquilo, que já fizera, centenas de vezes: cortar cebolas.”

Aqui a vírgula foi colocada antes do pronome relativo “que”, transformando a oração adjetiva em explicativa. No original, a oração é restritiva: “aquilo que já fizera centenas de vezes” especifica qual ação (cortar cebolas). Com as vírgulas, o sentido muda: “aquilo” já estaria determinado, e a informação “que já fizera” seria um comentário à parte. Além disso, a vírgula separa o verbo “fazer” de seu complemento (“aquilo”), o que é proibido. Erro: troca de sentido e separação indevida.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“… tive a impressão, de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.”

A vírgula separa o substantivo “impressão” de seu complemento nominal (“de estar vendo...”). Isso é proibido: não se separa o nome de seu complemento. A frase correta seria sem vírgula: “tive a impressão de estar vendo...”. Erro: separação de complemento nominal.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Essa perturbação ocular que a acometeu é, comum, entre os poetas.”

A vírgula separa o verbo “é” de seu predicativo (“comum”). Isso é proibido: não se separa verbo de predicativo. A frase correta seria: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas.” Erro: separação de verbo e predicativo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Nietzsche sabia disso e afirmou que, a primeira tarefa da educação é ensinar a ver.”

A vírgula foi colocada após a conjunção integrante “que”, separando-a do restante da oração subordinada substantiva objetiva direta (“a primeira tarefa da educação é ensinar a ver”). Isso é proibido: não se separa a conjunção subordinativa do conteúdo da oração. A frase correta seria: “Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver.” Erro: vírgula após conjunção integrante.

Conclusão

A única alternativa que respeita a norma-padrão é a letra A, pois isola corretamente uma oração reduzida de gerúndio deslocada. As demais cometem erros de separação indevida de termos essenciais ou de mudança de sentido. Gabarito: letra A.

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