Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218608
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )
Quando na rósea nuvem sobe o dia,
De risos esmaltando1 a Natureza,
Bem que me aclare as sombras da tristeza,
Um tempo sensabor2 me principia.
Quando, por entre os véus da noite fria,
A máquina celeste observo acesa,
De angústia, de terror a imagens presa
Começa a devorar-me a fantasia.
Por mais ardentes preces que lhe faço,
Meus ais não ouve o númen3 sonolento,
Nem prende a minha dor com tênue laço.
No Inferno se me troca o pensamento;
Céus! Porque hei-de existir, porquê, se passo
Dias de enjoo e noite de tormento?
(Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poemas escolhidos, 1974.)
1 esmaltar: colorir.
2 sensabor: insípido, desinteressante.
3 númen: ser divino.
Para responder à questão abaixo, leia o soneto do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage. No soneto, a divindade a quem o eu lírico dirige suas preces é retratada como um ser
Avingativo.
Bindiferente.
Csarcástico.
Drancoroso.
Eapaixonado.
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GabaritoB — indiferente.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A divindade no soneto de Bocage: indiferença diante do sofrimento
Gabarito: letra B. A divindade a quem o eu lírico dirige suas preces é retratada como um ser indiferente, pois o texto afirma que ela não ouve as súplicas: "Meus ais não ouve o númen sonolento". O adjetivo "sonolento" e a negação "não ouve" revelam um deus que não responde ao sofrimento humano, caracterizando a indiferença.
O comando da questão pede uma interpretação do texto: não se trata de localizar uma palavra explícita como "indiferente", mas de depreender essa característica a partir das pistas deixadas pelo poeta. A resposta não está literal, mas é uma dedução ancorada em elementos concretos do soneto.
O soneto de Bocage expressa o tédio e o tormento do eu lírico, que busca alívio na natureza e na contemplação celeste, mas encontra apenas angústia. A divindade é invocada no terceiro quarteto, e é aí que mora a resposta:
"Por mais ardentes preces que lhe faço,\nMeus ais não ouve o númen sonolento,\nNem prende a minha dor com tênue laço."
A passagem é decisiva: o eu lírico faz "ardentes preces", mas o "númen sonolento" (ser divino) não ouve seus ais e não prende sua dor. A imagem do deus "sonolento" — que dorme, que não desperta para o sofrimento — é a pista central. Um ser que não ouve, não age e não se comove é, por definição, indiferente ao que lhe é pedido.
A técnica para resolver é a inferência a partir de pressupostos: o texto não diz "a divindade é indiferente", mas o verbo "não ouve" e o adjetivo "sonolento" obrigam a essa conclusão. Não há espaço para outras leituras: a divindade não é vingativa, sarcástica, rancorosa ou apaixonada — ela simplesmente não responde, não se importa.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A divindade não é retratada como vingativa. O texto não menciona qualquer desejo de punição ou retaliação por parte do ser divino. A palavra "vingativo" extrapola o conteúdo: o eu lírico sofre, mas o texto não atribui esse sofrimento a uma ação deliberada da divindade. O deus apenas não ouve; não age contra o eu lírico.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A divindade é indiferente. A prova está no trecho:
"Meus ais não ouve o númen sonolento"
O adjetivo "sonolento" (que dorme, alheio) e a negação "não ouve" (recusa ou incapacidade de escutar) caracterizam um ser que não se comove com as preces. A indiferença é a única característica que o texto sustenta: a divindade não responde, não age, não se importa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A divindade não é sarcástica. Não há no texto qualquer ironia, zombaria ou tom de escárnio atribuído ao ser divino. A palavra "sarcástico" acrescenta uma opinião que o autor não externou. O eu lírico sofre, mas a divindade não ri dele nem o ridiculariza — ela simplesmente não responde.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A divindade não é rancorosa. O rancor implica guardar mágoa e desejar o mal, o que não aparece no texto. O eu lírico não menciona nenhuma ofensa prévia que justificasse um comportamento rancoroso da divindade. A alternativa extrapola ao inventar uma motivação para o silêncio divino.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A divindade não é apaixonada. Não há qualquer indício de afeto, amor ou desejo por parte do ser divino. A palavra "apaixonado" contradiz o texto, que descreve um deus "sonolento" e que "não ouve" — o oposto de alguém apaixonado, que estaria atento e emotivo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com adjetivos que parecem plausíveis para um deus que ignora súplicas (vingativo, rancoroso), mas que não estão no texto. A única característica provada pelas palavras do poeta é a indiferença.
PEGA ESSA DICA!
Ao caracterizar um personagem ou entidade, pergunte: "qual palavra o texto autoriza?". Se a alternativa exige que você imagine uma motivação ou um sentimento que não está escrito, ela está errada.
Gabarito: letra B. A divindade é indiferente porque o texto afirma que ela "não ouve" as preces e é "sonolenta" — um ser que não responde ao sofrimento humano.