Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — VUNESP 2025
Português›Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
vu218609
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )
Quando na rósea nuvem sobe o dia,
De risos esmaltando1 a Natureza,
Bem que me aclare as sombras da tristeza,
Um tempo sensabor2 me principia.
Quando, por entre os véus da noite fria,
A máquina celeste observo acesa,
De angústia, de terror a imagens presa
Começa a devorar-me a fantasia.
Por mais ardentes preces que lhe faço,
Meus ais não ouve o númen3 sonolento,
Nem prende a minha dor com tênue laço.
No Inferno se me troca o pensamento;
Céus! Porque hei-de existir, porquê, se passo
Dias de enjoo e noite de tormento?
(Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poemas escolhidos, 1974.)
1 esmaltar: colorir.
2 sensabor: insípido, desinteressante.
3 númen: ser divino.
Para responder à questão abaixo, leia o soneto do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage. Na segunda estrofe, o adjetivo “presa” qualifica o substantivo
A“noite”.
B“máquina”.
C“angústia”.
D“terror”.
E“fantasia”.
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GabaritoE — “fantasia”.
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O adjetivo "presa" e seu referente na segunda estrofe
Gabarito: letra E. O adjetivo "presa" qualifica o substantivo "fantasia", como se prova pela ordem sintática do verso: "De angústia, de terror a imagens presa / Começa a devorar-me a fantasia." A expressão "a imagens presa" é uma inversão poética de "presa a imagens", e o sujeito que "começa a devorar" é justamente "a fantasia" — ou seja, a fantasia está presa a imagens de angústia e terror.
O comando da questão
A questão pede uma análise sintática pontual: identificar a que substantivo o adjetivo "presa" se refere. Isso não é interpretação livre nem inferência — é uma leitura estrutural do verso, apoiada na ordem das palavras e na concordância. O adjetivo "presa" está no feminino singular, então deve concordar com um substantivo também feminino singular. Mas isso, sozinho, não resolve: "noite", "máquina", "angústia", "terror" e "fantasia" são todos femininos singulares. A decisão vem da estrutura sintática e do sentido.
O texto e o movimento do verso
Na segunda estrofe, o eu lírico observa o céu noturno e é tomado por um sentimento avassalador. O trecho decisivo é:
"De angústia, de terror a imagens presa / Começa a devorar-me a fantasia."
A ordem natural (sem inversão poética) seria: "A fantasia, presa a imagens de angústia, de terror, começa a devorar-me." O poeta inverteu a ordem para manter a rima e o ritmo do soneto. Assim:
"a fantasia" é o sujeito de "começa a devorar";
"presa" é um adjetivo que se refere a "fantasia", formando a locução "presa a imagens";
"de angústia, de terror" são adjuntos adnominais que especificam "imagens".
Portanto, "presa" concorda com "fantasia", e não com os termos intermediários.
A técnica: concordância + inversão
Em versos, a ordem direta (sujeito + verbo + complemento) costuma ser alterada por razões estéticas. Para identificar o referente de um adjetivo, siga dois passos:
Verifique a concordância: o adjetivo deve concordar em gênero e número com o substantivo. Aqui, "presa" (feminino singular) poderia concordar com vários, então a concordância não basta.
Reconstrua a ordem direta: reorganize os termos para encontrar o núcleo do sujeito. O verbo "começa" exige um sujeito: quem começa a devorar? "A fantasia". Logo, "presa" se liga a ela.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Noite" aparece no verso "Quando, por entre os véus da noite fria". É um adjunto adverbial de tempo, não o núcleo do sujeito. "Presa" não se refere a ela, pois a noite não está presa a imagens; quem está presa é a fantasia. Erro: troca de referente — confunde o adjunto adverbial com o núcleo do sujeito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Máquina" (a "máquina celeste", ou seja, o céu estrelado) é o objeto da observação do eu lírico, não o sujeito de "começa a devorar". A máquina celeste não devora ninguém; ela é apenas contemplada. Erro: troca de referente — confunde o objeto direto com o núcleo do sujeito.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Angústia" faz parte da expressão "de angústia", que especifica o tipo de imagens. É um adjunto adnominal de "imagens", não o núcleo do sujeito. A angústia não está presa; a fantasia é que está presa a imagens de angústia. Erro: troca de referente — confunde o adjunto adnominal com o núcleo do sujeito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Terror" segue o mesmo padrão de "angústia": é um adjunto adnominal de "imagens" ("imagens de terror"). Não é o núcleo do sujeito, e "presa" não concorda com ele no sentido. Erro: troca de referente — confunde o adjunto adnominal com o núcleo do sujeito.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Fantasia" é o núcleo do sujeito de "começa a devorar-me". A inversão "a imagens presa" equivale a "presa a imagens", e o sujeito "a fantasia" está deslocado para o final do verso. A fantasia, presa a imagens de angústia e terror, começa a devorar o eu lírico. É a única alternativa que respeita a concordância e o sentido do texto.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de referência de adjetivo em poesia, reconstrua a ordem direta mentalmente. Pergunte: "quem pratica a ação do verbo?" — o sujeito é o termo que responde, e o adjetivo se liga a ele.
NÃO CAIA NESSA!
A banca coloca "angústia" e "terror" logo antes de "presa", tentando fazer você acreditar que o adjetivo se refere a eles. Mas eles são apenas especificadores de "imagens". Fique atento à função sintática, não à proximidade.
Conclusão: A resposta é a letra E, pois "presa" qualifica "fantasia", o núcleo do sujeito da oração. As demais alternativas confundem termos acessórios com o núcleo, um erro clássico em questões de inversão poética.