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Questão de Português — Formação e Estrutura das Palavras — VUNESP 2025

PortuguêsFormação e Estrutura das Palavras
Código
vu218612
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )

Quando na rósea nuvem sobe o dia,

De risos esmaltando1 a Natureza,

Bem que me aclare as sombras da tristeza,

Um tempo sensabor2 me principia.

 

Quando, por entre os véus da noite fria,

A máquina celeste observo acesa,

De angústia, de terror a imagens presa

Começa a devorar-me a fantasia.

 

Por mais ardentes preces que lhe faço,

Meus ais não ouve o númen3 sonolento,

Nem prende a minha dor com tênue laço.

 

No Inferno se me troca o pensamento;

Céus! Porque hei-de existir, porquê, se passo

Dias de enjoo e noite de tormento?

 

(Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poemas escolhidos, 1974.)

 

1 esmaltar: colorir.

2 sensabor: insípido, desinteressante.

3 númen: ser divino.

Para responder à questão abaixo, leia o soneto do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage.   As palavras podem mudar de classe gramatical sem sofrer modificação na forma. A este processo de enriquecimento vocabular pela mudança de classe das palavras dá-se o nome de “derivação imprópria”. Por esse processo se explica, por exemplo, a passagem de interjeições a substantivos. (Celso Cunha. Gramática essencial, 2013. Adaptado.)   Verifica-se um exemplo de derivação imprópria no seguinte trecho:
  1. A“Quando na rósea nuvem sobe o dia,” (1a estrofe)
  2. B“Por mais ardentes preces que lhe faço,” (3a estrofe)
  3. C“Meus ais não ouve o númen sonolento,” (3a estrofe)
  4. D“Um tempo sensabor me principia.” (1a estrofe)
  5. E“Quando, por entre os véus da noite fria,” (2a estrofe)
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GabaritoC — “Meus ais não ouve o númen sonolento,” (3a estrofe)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Derivação imprópria: a interjeição que virou substantivo

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que apresenta um caso de derivação imprópria: a palavra "ais", originalmente uma interjeição (expressão de dor), é empregada no texto como substantivo (objeto direto de "ouve"), sem sofrer alteração na forma. Como se lê no verso: "Meus ais não ouve o númen sonolento" — o possessivo "meus" e a função sintática de objeto direto comprovam a substantivação.

O comando: identificar o processo de formação

A questão pede que você reconheça um exemplo de derivação imprópria no soneto. O enunciado já define o conceito: "As palavras podem mudar de classe gramatical sem sofrer modificação na forma". Portanto, você deve procurar uma palavra que, no contexto do verso, pertença a uma classe diferente daquela que tem originalmente. Não se trata de analisar a formação morfológica (prefixos, sufixos), mas sim o uso da palavra na frase.

O texto: onde mora a resposta

O soneto de Bocage descreve o sofrimento do eu lírico: o dia que nasce não afasta a tristeza, a noite traz angústia, e nem as preces são ouvidas pelo deus sonolento. No terceiro verso da terceira estrofe, lemos:

"Meus ais não ouve o númen sonolento,"

A palavra "ais" é, originalmente, a interjeição "ai!" (usada para exprimir dor). No verso, porém, ela está precedida do pronome possessivo "meus" e exerce a função de objeto direto do verbo "ouve". Ou seja, "ais" deixou de ser interjeição e passou a funcionar como substantivo — exatamente o que caracteriza a derivação imprópria (também chamada de conversão ou substantivação).

A técnica: como reconhecer a derivação imprópria

A derivação imprópria ocorre quando uma palavra muda de classe gramatical sem que sua forma seja alterada. Os casos mais comuns são:

  • Interjeição → substantivo: "O ai dela ecoou" (o "ai" virou nome).

  • Adjetivo → substantivo: "O bom sempre vence" (o adjetivo "bom" virou nome).

  • Verbo → substantivo: "O olhar dela é profundo" (o verbo "olhar" virou nome).

  • Advérbio → substantivo: "O não dela foi definitivo" (o advérbio "não" virou nome).

Para identificar, pergunte: a palavra está sendo usada com a classe que lhe é típica, ou está exercendo outra função? No caso de "ais", a interjeição típica seria "ai!", isolada, sem flexão. No verso, "ais" está pluralizada (recebeu o plural "-s") e é antecedida de possessivo — sinais claros de que virou substantivo.

Análise das alternativas

Derivação imprópria
  • 1Conceito
    • Mudança de classe sem mudar a forma
    • Também chamada conversão
  • 2Casos comuns
    • Interjeição → substantivo
      • "Meus ais" (objeto direto)
    • Adjetivo → substantivo
      • "O bom sempre vence"
    • Verbo → substantivo
      • "O olhar dela"
    • Advérbio → substantivo
      • "O não dela"
  • 3Como identificar
    • Palavra fora da classe típica?
    • Sinais: artigo, possessivo, plural
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Quando na rósea nuvem sobe o dia,"

Aqui, "rósea" é adjetivo (qualifica "nuvem") e "nuvem" é substantivo — ambos em suas classes originais. Não há mudança de classe. A alternativa tangencia o tema, pois apresenta palavras comuns, mas sem conversão.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Por mais ardentes preces que lhe faço,"

"Ardentes" é adjetivo (qualifica "preces") e "preces" é substantivo — classes originais. Não há derivação imprópria. A alternativa não apresenta qualquer palavra que mude de classe.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Meus ais não ouve o númen sonolento,"

Como explicado, "ais" (interjeição) é usada como substantivo (objeto direto, precedida de possessivo). É o único caso de derivação imprópria no soneto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Um tempo sensabor me principia."

"Sensabor" é adjetivo (qualifica "tempo") e "tempo" é substantivo — classes originais. Não há conversão. A alternativa não apresenta mudança de classe.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Quando, por entre os véus da noite fria,"

"Véus" é substantivo e "fria" é adjetivo — classes originais. Não há derivação imprópria. A alternativa não apresenta conversão.

Fechamento

A regra de ouro: derivação imprópria = mudança de classe sem mudança de forma. Teste cada palavra perguntando: "ela está sendo usada na classe que lhe é típica?" Se sim, não é derivação imprópria. A banca adora usar interjeições substantivadas (como "ais") e adjetivos substantivados (como "o bom") — fique atento a possessivos e artigos que precedem palavras que normalmente não os aceitam.

Gabarito: letra C.

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