Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2025
Português›Figuras de Linguagem
Código
vu218614
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )
Os jovens abúlicos1, os velhos deprimidos; os pobres entorpecidos, os ricos enfadados; os homens embrutecidos, as mulheres desenganadas; os privilegiados acima da lei, os excluídos aquém dela; os empregados como roldanas de engrenagem, os desocupados esmagados por ela; os bem- -sucedidos sem tempo para nada, os desvalidos sem saber o que fazer com ele; as faxineiras negativadas, os banqueiros insones; os casais algemados, os amantes rompidos; os poetas à míngua, os corruptos à larga. De tudo que foi e não foi, resta o quê? A convivência entre desumanos desidratada ao mínimo legal do mercado: a troca mercenária de bens e ofícios conforme valorações aguerridamente pactuadas.
O pagamento em dinheiro, à vista ou parcelado, como o único vínculo entre bolhas narcísicas ambulantes. A rua onde voz e buzina se confundem.
(Eduardo Giannetti. Trópicos utópicos, 2016.)
1 abúlico: que se caracteriza pela incapacidade de tomar decisões.
Para responder à questão abaixo. Leia o ensaio intitulado "Tópicos distópicos" de Eduardo Giannetti. Na construção de seu ensaio, Eduardo Giannetti recorre, sobretudo, ao recurso retórico denominado
Aambiguidade.
Bpleonasmo.
Ceufemismo.
Dpersonificação.
Eantítese.
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GabaritoE — antítese.
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Antítese: a oposição que estrutura o ensaio de Giannetti
Gabarito: letra E. O texto de Eduardo Giannetti é construído, do início ao fim, sobre pares de ideias opostas — jovens × velhos, pobres × ricos, privilegiados × excluídos, empregados × desocupados, bem-sucedidos × desvalidos, poetas × corruptos. Esse jogo de contrastes é a definição exata de antítese, figura de pensamento que aproxima palavras ou expressões de sentido contrário para reforçar uma ideia. Como se lê já na primeira linha: "Os jovens abúlicos, os velhos deprimidos; os pobres entorpecidos, os ricos enfadados" — a oposição é o esqueleto do parágrafo.
O comando: identificar o recurso retórico predominante
A questão pede que você reconheça qual figura de linguagem estrutura o texto. Não se trata de interpretar o sentido global, mas de nomear o recurso expressivo que o autor emprega de forma sistemática. Para isso, você precisa dominar as definições das principais figuras e, principalmente, observar o padrão de construção do texto: ele é feito de contrastes? De repetições? De suavizações? De atribuições de características humanas a seres inanimados?
Aqui, o padrão é inconfundível: uma sucessão de pares antitéticos. O autor não apenas menciona grupos diferentes; ele os coloca em oposição explícita — uns contra os outros — para pintar um retrato da sociedade contemporânea marcado por desigualdades e contradições.
O texto: uma galeria de contrastes
O ensaio abre com uma enumeração de tipos humanos, sempre em duplas opostas:
"Os jovens abúlicos, os velhos deprimidos; os pobres entorpecidos, os ricos enfadados; os homens embrutecidos, as mulheres desenganadas; os privilegiados acima da lei, os excluídos aquém dela; os empregados como roldanas de engrenagem, os desocupados esmagados por ela; os bem-sucedidos sem tempo para nada, os desvalidos sem saber o que fazer com ele; as faxineiras negativadas, os banqueiros insones; os casais algemados, os amantes rompidos; os poetas à míngua, os corruptos à larga."
Cada par é uma antítese: jovens × velhos, pobres × ricos, privilegiados × excluídos, empregados × desocupados, poetas × corruptos. A oposição não é apenas temática; ela é retórica, pois o autor a explora deliberadamente para construir o sentido de que a sociedade é um mosaico de extremos que não se comunicam. O desfecho — "a troca mercenária de bens e ofícios" — amarra essa visão: o que resta é a convivência entre desumanos, reduzida ao mínimo do mercado.
A técnica: como reconhecer a antítese e diferenciá-la das demais figuras
Antítese é a figura de pensamento que consiste na aproximação de palavras ou expressões de sentido oposto, criando um contraste que reforça a ideia. Exemplo clássico: "O amor e o ódio caminham juntos". No texto, a oposição é constante e estrutural.
Atribuir características humanas a seres inanimados
❌ Não — não há esse recurso
A personificação (ou prosopopeia) ocorreria se, por exemplo, o texto dissesse "a rua grita" ou "o mercado sussurra". Aqui, a rua apenas "onde voz e buzina se confundem" — descrição, não personificação. O eufemismo suavizaria algo como "morrer" por "partir"; o texto, ao contrário, é cru e direto. A ambiguidade exigiria duplo sentido; o texto é inequívoco. O pleonasmo exigiria repetição de ideia; o texto repete estruturas, mas não ideias — repete o paralelismo sintático ("os X, os Y"), que é um recurso de construção, não de sentido.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Ambiguidade é a possibilidade de dupla leitura de um enunciado. No texto, não há nenhum trecho que permita duas interpretações; cada frase tem sentido único e claro. A banca oferece essa opção para confundir quem confunde "oposição" com "duplo sentido". O texto é inequívoco.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Pleonasmo é a repetição de uma ideia já contida em outra palavra (ex.: "subir para cima"). No texto, não há redundância; há paralelismo — repetição de estrutura sintática ("os X, os Y") — que é um recurso diferente, de construção, não de sentido. A repetição aqui é estilística, não viciosa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Eufemismo é o emprego de uma expressão mais suave para comunicar algo desagradável (ex.: "partir" por "morrer"). O texto de Giannetti é direto e cru — fala de "desumanos", "troca mercenária", "bolhas narcísicas" — sem suavizar nada. Não há eufemismo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Personificação (ou prosopopeia) atribui características humanas a seres inanimados (ex.: "as árvores sussurravam"). No texto, não há esse recurso: a rua "onde voz e buzina se confundem" é uma descrição, não uma personificação. A banca oferece essa opção porque o texto tem um tom poético, mas isso não configura a figura.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Antítese é a figura de pensamento que aproxima palavras ou expressões de sentido oposto. O texto é construído inteiramente sobre pares antitéticos:
"Os jovens abúlicos, os velhos deprimidos; os pobres entorpecidos, os ricos enfadados; os homens embrutecidos, as mulheres desenganadas; os privilegiados acima da lei, os excluídos aquém dela; os empregados como roldanas de engrenagem, os desocupados esmagados por ela; os bem-sucedidos sem tempo para nada, os desvalidos sem saber o que fazer com ele; as faxineiras negativadas, os banqueiros insones; os casais algemados, os amantes rompidos; os poetas à míngua, os corruptos à larga."
Cada par é uma oposição explícita: jovens × velhos, pobres × ricos, privilegiados × excluídos, empregados × desocupados, poetas × corruptos. Essa oposição sistemática é a marca retórica do ensaio — é o recurso que o autor usa para pintar o retrato de uma sociedade cindida. Portanto, a alternativa E é a única correta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece figuras que parecem plausíveis (personificação, eufemismo) para quem lê superficialmente, mas a antítese é a única que perpassa todo o texto, de forma estrutural. Não se deixe levar por uma única expressão poética; observe o padrão.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a figura predominante, pergunte: "qual recurso o autor usa do início ao fim?" Se houver pares de opostos, é antítese; se houver repetição de estrutura, é paralelismo (que pode até coexistir, mas não é o foco aqui).
Conclusão: a resposta é a letra E — antítese — porque o texto é uma sucessão de oposições que estruturam o argumento. As demais figuras (ambiguidade, pleonasmo, eufemismo, personificação) não encontram sustentação no texto. Lembre-se: a figura de linguagem mora no texto, não na sua imaginação.