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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218622
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Cargo
V - - Vest ( )

Pensemos agora em Capitu, de Machado de Assis. Ela costuma ser lembrada por estar associada à infidelidade. De minha parte, não creio que repouse nisso o charme daquela jovem dama com “olhos de ressaca”. Em hipótese nenhuma eu a escalaria para o mesmo time de Madame Bovary, de Flaubert, Anna Kariênina, de Tolstói, ou Luísa, de O primo Basílio, de Eça de Queiroz. Capitu, mais do que a probabilidade do adultério incerto, representa a incerteza.

 

O tema de Machado em Dom Casmurro é menos a traição conjugal e mais a impossibilidade de saber, o tempo todo. Daí que seu tema é também a modernidade. Dom Casmurro vem ao leitor como advertência permanente: é preciso conviver com ela, Capitu, do mesmo modo que é preciso conviver com o que não é certo e sabido, nem será. O que o Princípio da Incerteza, de Heisenberg, avisou na Física Quântica, Machado já avisava na literatura fazia tempo. [...]

 

O amor cortês do século XII, aquele que idealizava a mulher amada, teve desdobramentos poéticos na forma narrativa dos contos de fada e, em boa medida, no amor romântico, que viria mais tarde. O que me interessa destacar é a fantasia do “final feliz”, que tem forte apelo especialmente nos namoros de príncipes e moças de nobreza incerta. Em que consistia o arremate “E foram felizes para sempre”? Eu diria, modestamente, que consistia na morte: na morte da incerteza.

 

Aquele “final feliz” matava a imprevisibilidade, qualquer que ela fosse, e dava curso a uma utopia, em que é preciso encerrar a história para que o amor possa, enfim, principiar. Sim, nesse modelo de ficção, o amor só se faz depois do final. O “felizes para sempre” tem o sabor de um epitáfio. O moderno, que duvida da felicidade e do “para sempre”, vai se levantar contra esse tipo de final tolo para amar o incerto e o indefinido, ainda que não o confesse.

 

(Incerteza, um ensaio, 2023. Adaptado.)

Para responder à questão, leia um trecho do livro Incerteza, um ensaio, do jornalista Eugênio Bucci.

   

Depreende-se da argumentação do autor que a personagem Capitu constitui uma espécie de contraponto

  1. Aà indefinição.
  2. Bà certeza.
  3. Cà volubilidade.
  4. Dà modernidade.
  5. Eà infidelidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — à certeza.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Capitu como contraponto: a incerteza contra a certeza

Gabarito: letra B. A argumentação do autor define Capitu como a personificação da incerteza — "Capitu, mais do que a probabilidade do adultério incerto, representa a incerteza" — e, por isso, ela se opõe exatamente à certeza. O comando pede uma inferência ("depreende-se"), e a pista está na oposição explícita entre o que Capitu representa e o que o texto nega: ela não é a traição, é a dúvida; logo, seu contraponto é a certeza.

O comando: inferência, não recorrência

O verbo "depreende-se" sinaliza que a resposta não está literal — ela exige uma dedução ancorada em pistas do texto. Não se trata de localizar uma frase pronta, mas de concluir algo que o autor deixou implícito. A banca quer que você perceba a relação de oposição que o texto estabelece: se Capitu representa a incerteza, o contraponto dela é a certeza. Essa é uma inferência legítima, porque o texto obriga a essa conclusão — não é uma suposição solta.

O texto: a tese da incerteza

O autor desconstrói a leitura tradicional de Capitu como símbolo de infidelidade. Ele afirma que o charme dela não está na traição, mas na impossibilidade de saber:

"Capitu, mais do que a probabilidade do adultério incerto, representa a incerteza."

E reforça no segundo parágrafo:

"O tema de Machado em Dom Casmurro é menos a traição conjugal e mais a impossibilidade de saber, o tempo todo."

A tese central é que Capitu encarna a dúvida, o não-saber. O autor a contrapõe às heroínas adúlteras (Madame Bovary, Anna Kariênina, Luísa) justamente porque elas representam o adultério certo, enquanto Capitu representa o adultério incerto. Essa oposição é a chave: incerteza × certeza.

A técnica: identificar a oposição

A questão testa sua capacidade de reconhecer a antítese que estrutura o texto. O autor constrói Capitu como o oposto daquilo que se costuma afirmar sobre ela. Veja o esquema:

Capitu representa

Oposto (contraponto)

Incerteza

Certeza

Dúvida

Convicção

Impossibilidade de saber

Saber definido

A alternativa B captura exatamente esse polo oposto. As demais ou repetem o que o texto nega (infidelidade), ou extrapolam (modernidade, volubilidade), ou invertem o sentido (indefinição).

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que Capitu é contraponto à indefinição, mas o texto afirma o contrário: Capitu representa a indefinição, a incerteza. Ela não se opõe à indefinição; ela é a indefinição. O autor escreve: "Capitu, mais do que a probabilidade do adultério incerto, representa a incerteza." Portanto, a alternativa inverte a relação.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. O texto define Capitu como a personificação da incerteza. O contraponto lógico da incerteza é a certeza. A passagem "representa a incerteza" autoriza diretamente a inferência de que ela se opõe à certeza. Não há outra alternativa que capture essa oposição com tanta fidelidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapola. O texto não menciona volubilidade (mudança de humor, inconstância) em relação a Capitu. A palavra não aparece e não há pista que a sustente. A alternativa introduz uma característica que não está no texto — é uma extrapolação baseada em estereótipos sobre a personagem, não na argumentação do autor.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapola. O texto diz que o tema de Machado é "também a modernidade", mas isso se refere ao tema do livro, não a Capitu como contraponto. A alternativa confunde o que o autor afirma sobre a obra com o que ele afirma sobre a personagem. Capitu não é contraponto à modernidade; ela é o símbolo da incerteza, que o autor associa à modernidade. A relação é de associação, não de oposição.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Esta é a pegadinha clássica. O autor nega que Capitu deva ser lembrada pela infidelidade: "Ela costuma ser lembrada por estar associada à infidelidade. De minha parte, não creio que repouse nisso o charme daquela jovem dama." A alternativa repete o senso comum que o texto desconstrói. Capitu não é contraponto à infidelidade; ela é contraponto à certeza — inclusive à certeza da traição.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a associação automática de Capitu à infidelidade (letra E) e à modernidade (letra D), quando o texto a define como representante da incerteza. A letra A inverte a relação, e a C introduz um termo ausente.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "contraponto", procure a oposição explícita no texto. O autor sempre marca o que ele nega e o que ele afirma. Aqui, ele nega a infidelidade e afirma a incerteza — o oposto da incerteza é a certeza.

Conclusão: a resposta é a letra B, pois Capitu, ao representar a incerteza, constitui o contraponto exato da certeza. As demais alternativas ou contradizem o texto (A, E), ou extrapolam (C, D).

Gabarito: letra B

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