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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218636
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2025
Cargo
1º AEM ( )

[Texto original]

 

Ai, dona fea, fostes-vos queixar

que vos nunca louvo em meu cantar;

mais ora quero fazer un cantar

em que vos loarei toda via;

e vedes como vos quero loar:

dona fea, velha e sandia!

 

Dona fea, se Deus mi pardon,

pois avedes tan gran coraçon

que vos eu loe, en esta razon

vos quero já loar toda via;

e vedes qual será a loaçon:

dona fea, velha e sandia!

 

Dona fea, nunca vos eu loei

em meu trobar, pero muito trobei;

mais ora já un bon cantar farei,

en que vos loarei toda via;

e direi-vos como vos loarei:

dona fea, velha e sandia!

 

[Texto em linguagem atual]

 

Ai, mulher feia, você se queixou

de que eu nunca a louvei em minha poesia;

mas agora eu vou fazer uma cantiga

em que eu a louvarei completamente;

e veja como a quero louvar:

mulher feia, velha e louca!

 

Mulher feia, Deus me perdoe,

pois você tem tão grande desejo

de que eu a louve, por este motivo

quero agora louvá-la completamente;

e veja qual será a louvação:

mulher feia, velha e louca!

 

Mulher feia, nunca a louvei

em minha poesia, e muito escrevi;

mas agora farei uma bela cantiga,

em que a louvarei completamente;

e vou dizer a você como a louvarei:

mulher feia, velha e louca!

 

(Lênia Mongelli (org.). Fremosos cantares: antologia da lírica galego-portuguesa, 2009)

Para responder a questão, leia a cantiga “Ai, dona fea, foste-vos queixar” do trovador João Garcia de Guilhade (1239-1288).     Depreende-se da cantiga de João Garcia de Guilhade que a mulher retratada reclamou com o eu lírico porque
  1. Aele nunca elogiou outra mulher em sua poesia.
  2. Bele ridicularizou outra mulher em sua poesia.
  3. Cele nunca a elogiou em sua poesia.
  4. Dele a ridicularizou em sua poesia.
  5. Eele sempre exagera na zombaria em sua poesia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — ele nunca a elogiou em sua poesia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência e ironia na cantiga de João Garcia de Guilhade

Gabarito: letra C. A mulher reclamou porque o eu lírico nunca a elogiou em sua poesia — é o que se depreende da queixa inicial e da promessa irônica de louvá-la. A passagem que ancora a resposta está na primeira estrofe: "Ai, dona fea, fostes-vos queixar / que vos nunca louvo em meu cantar". O verbo "queixar" já indica o motivo da reclamação: a ausência de elogios.

O comando: depreender é inferir com pista

O enunciado usa o verbo "depreende-se" — isso muda tudo. Não se pede uma informação literalmente escrita, mas uma inferência ancorada em pistas do texto. A pista aqui é a fala do eu lírico: ele reproduz a queixa da mulher ("fostes-vos queixar que vos nunca louvo") e, em seguida, promete fazer uma cantiga de louvor. A inferência legítima é: ela reclamou porque ele nunca a elogiou. Qualquer conclusão além disso — como "ele ridicularizou outra mulher" — é extrapolação, pois o texto não menciona outra mulher.

O texto: a ironia como chave

A cantiga é uma cantiga de escárnio medieval: o eu lírico finge que vai louvar a mulher, mas o refrão revela a verdadeira intenção — "dona fea, velha e sandia!" (mulher feia, velha e louca). A ironia está exatamente aí: a promessa de louvor é falsa; o que ele faz é zombar. Mas a queixa da mulher, que é o que a questão pergunta, está explícita no primeiro verso: ela se queixou de que ele nunca a louvou. Não há menção a ridicularizar outra mulher, nem a elogiar outra, nem a exagerar na zombaria.

A técnica: separar o que é dito do que é ironizado

A armadilha central é confundir a promessa irônica com o motivo da queixa. O eu lírico diz "mas ora quero fazer un cantar / em que vos loarei toda via" — isso é a promessa, não o motivo. O motivo está na queixa reproduzida: "que vos nunca louvo em meu cantar". A alternativa C parafraseia exatamente essa passagem: "ele nunca a elogiou em sua poesia". As demais ou trocam o objeto (outra mulher) ou acrescentam ideias que o texto não sustenta (ridicularizar, exagerar).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a ironia da cantiga. O candidato que lê só o refrão "dona fea, velha e sandia" pode achar que a mulher reclamou por ter sido ridicularizada (letra D). Mas a queixa é anterior à zombaria: ela reclamou da ausência de elogios, não da presença de insultos.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: troca de referente. O texto diz que o eu lírico nunca louvou a mulher a quem se dirige ("que vos nunca louvo"), não que nunca elogiou outra mulher. A alternativa inverte o objeto: fala de "outra mulher", quando a queixa é sobre a própria destinatária. Além disso, o texto não afirma que ele nunca elogiou ninguém — apenas que não elogiou esta mulher.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não menciona que ele ridicularizou outra mulher. A zombaria da cantiga é dirigida à própria mulher que se queixou ("dona fea, velha e sandia"), e mesmo essa zombaria é posterior à queixa. A alternativa inventa um fato ausente: ridicularizar outra mulher.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel da queixa. O texto diz: "Ai, dona fea, fostes-vos queixar / que vos nunca louvo em meu cantar". A alternativa reescreve: "ele nunca a elogiou em sua poesia". É a mesma informação, com outras palavras. A inferência é direta: ela reclamou porque ele nunca a louvou. Nada além disso é necessário.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz a cronologia do texto. A zombaria ("dona fea, velha e sandia") é a resposta do eu lírico à queixa, não o motivo dela. A mulher reclamou antes de ser ridicularizada. Além disso, a alternativa diz que ele "a ridicularizou" como se isso fosse a causa da reclamação — mas o texto mostra que a reclamação veio primeiro. É uma inversão de causa e efeito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: generalização indevida. O texto não diz que ele "sempre exagera na zombaria". A palavra "sempre" é um absoluto que o texto não autoriza. O eu lírico faz uma zombaria nesta cantiga, mas não há informação sobre seu comportamento habitual. A alternativa extrapola um único episódio para uma regra geral.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, grife o verbo do enunciado ("depreende-se") e procure a pista no texto. Aqui, a pista é a queixa reproduzida no primeiro verso. Desconfie de alternativas com "sempre", "nunca", "outra" — elas costumam restringir ou ampliar demais o alcance do texto.

Gabarito: letra C — a única que se sustenta integralmente no texto, sem acrescentar, suprimir ou inverter informações.

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