Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2025
Português›Figuras de Linguagem
Código
vu218660
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2025
Cargo
1º AEM ( )
À margem de uma fonte¹, que corria,A)
Lira² doce dos pássaros cantores,
A bela ocasião³ das minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.
Mas como dorme Sílvia, não vestia
O céu seus horizontes de mil cores;B)
Dominava o silêncio sobre as flores,C)
Calava o mar, e rio não se ouvia.
Não dão o parabém4 à bela Aurora5
Flores canoras6, pássaros fragrantes7,E)
Nem seu âmbar8 respira a rica Flora9.
Porém abrindo Sílvia os dois diamantes,
Tudo a Sílvia festeja, e tudo a adoraD)
Aves cheirosas, flores ressonantes10.
(Gregório de Matos. Poemas atribuídos:
Códice Asencio-Cunha, volume 4, 2013)
Glossário :
1 fonte: nascente, ponto onde nasce um curso de água.
2 lira: música.
3 ocasião: razão, causa.
4 parabém: parabéns.
5 Aurora: personificação do nascer do dia, ou seja, do início da manhã.
6 canoras: que cantam bem.
7 fragrantes: cheirosos, perfumados.
8 âmbar: cor entre o castanho e o amarelo.
9 Flora: personificação da vida vegetal.
10 ressonantes: que ressoam, que produzem sons.
Para responder a questão, leia o soneto do poeta barroco Gregório de Matos (1633-1696).
O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define “sinestesia” como “cruzamento de sensações; associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão”.
Mesclam-se sensações percebidas por diferentes órgãos dos sentidos no seguinte verso:
A“À margem de uma fonte, que corria”. (1ª estrofe)
B“O céu seus horizontes de mil cores”. (2ª estrofe)
C“Dominava o silêncio sobre as flores”. (2ª estrofe)
D“Tudo a Sílvia festeja, e tudo a adora”. (4ª estrofe)
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Sinestesia no soneto de Gregório de Matos
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que apresenta cruzamento de sensações de diferentes órgãos dos sentidos — exatamente o que define a sinestesia, conforme o próprio enunciado: “associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão”. No verso “Flores canoras, pássaros fragrantes”, o poeta atribui às flores (percebidas pela visão/olfato) a qualidade de canoras (que cantam — audição) e aos pássaros (seres que se ouvem) a qualidade de fragrantes (cheirosos — olfato). Há, portanto, uma mistura deliberada de audição e olfato, o que configura a figura.
O comando pede que você identifique o verso em que ocorre a sinestesia. Isso é uma questão de interpretação de texto com foco em figuras de linguagem: você precisa reconhecer, no uso concreto das palavras, a definição dada no enunciado. Não se trata de inferir nada além do texto — a resposta está literalmente na combinação dos adjetivos com os substantivos.
O soneto descreve a natureza em silêncio antes de Sílvia acordar: a fonte corre, mas os pássaros não cantam, o mar se cala, o rio não se ouve. Quando Sílvia abre os olhos (“os dois diamantes”), tudo a festeja. A sinestesia aparece justamente na estrofe que descreve a natureza em estado de espera, antes do despertar — e é aí que o poeta cruza os sentidos de forma mais ousada.
A técnica para resolver: identifique os sentidos envolvidos em cada expressão. Sinestesia exige dois ou mais sentidos diferentes (visão, audição, olfato, tato, paladar) combinados numa mesma imagem. Se a expressão envolve apenas um sentido, ou se a relação é de outro tipo (comparação, personificação), não é sinestesia.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura figuras parecidas. “Dominava o silêncio sobre as flores” (C) é personificação (silêncio dominando), não sinestesia. “O céu seus horizontes de mil cores” (B) é apenas visão. A pegadinha está em achar que qualquer imagem poética é sinestesia — mas a figura exige o cruzamento explícito de sentidos.
PEGA ESSA DICA!
Ao procurar sinestesia, sublinhe os adjetivos e pergunte: “que sentido eles evocam?”. Se um adjetivo de um sentido modifica um substantivo de outro sentido, é sinestesia. Ex.: “perfume doce” (olfato + paladar), “voz quente” (audição + tato).
Sinestesia: Definição (Cruzamento de sensações, Sentidos diferentes numa impressão); Exemplo do texto (Flores canoras (visão/olfato + audição), Pássaros fragrantes (audição + olfato)); Figuras que confundem (Personificação (silêncio dominando), Hipérbole (mil cores))
Alternativa A — ❌ Incorreta
“À margem de uma fonte, que corria” descreve apenas a visão (a fonte correndo) e o movimento. Não há cruzamento de sentidos diferentes. A imagem é denotativa, sem mistura sensorial. Erro: não configura sinestesia — é descrição simples.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“O céu seus horizontes de mil cores” envolve apenas a visão (as cores do céu). Não há combinação com outro sentido. A expressão “mil cores” é hipérbole (exagero), mas não sinestesia. Erro: limita-se a um único sentido — a banca tenta confundir com a ideia de “muitas sensações”, mas todas são visuais.
Alternativa C — ❌ Incorreta
“Dominava o silêncio sobre as flores” é um caso clássico de personificação (ou prosopopeia): o silêncio, algo abstrato, é apresentado como se tivesse o poder de “dominar”. O sentido envolvido é apenas a audição (silêncio). Não há cruzamento com outro sentido. Erro: figura de pensamento, não sinestesia — a banca aposta na confusão entre personificação e sinestesia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
“Tudo a Sílvia festeja, e tudo a adora” expressa a reação da natureza ao despertar de Sílvia. Há personificação (tudo festeja e adora), mas não há mistura de sensações. Os verbos “festeja” e “adora” são metafóricos, mas não evocam sentidos corporais distintos. Erro: não há cruzamento sensorial — é uma hipérbole afetiva.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
“Flores canoras, pássaros fragrantes” é a única que apresenta sinestesia. Veja a construção:
“Flores canoras, pássaros fragrantes”
Flores canoras: flores (percebidas pela visão/olfato) recebem a qualidade de canoras (que cantam — audição).
Pássaros fragrantes: pássaros (seres que se ouvem) recebem a qualidade de fragrantes (cheirosos — olfato).
Há, portanto, um cruzamento explícito entre audição e olfato — exatamente a definição de sinestesia dada no enunciado. O poeta inverte as qualidades esperadas: flores não cantam, pássaros não têm perfume. Essa inversão é o que cria a figura.
Conclusão: a questão testa o reconhecimento da sinestesia a partir da definição fornecida. A alternativa E é a única que combina sensações de órgãos diferentes (ouvido e nariz) numa mesma expressão. As demais ou se limitam a um único sentido, ou usam outras figuras (personificação, hipérbole).