Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218701
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2025
Cargo
3º AEM ( )
Enquanto ainda temos escolha
A inteligência artificial (IA) está começando a envenenar a produção literária. É um veneno perfumado, disfarçado de bálsamo, que vem contaminando os textos rápidos publicados nas redes sociais. Logo mais vai se espalhar para os contos, os romances e a poesia.
No início, surpreendeu-me a quantidade de textos inteligentes, bem articulados, circulando on-line. Aos poucos, fui notando algo estranho: a repetição de metáforas, de ideias, de arquiteturas narrativas. Em arte, essa repetição de técnicas, somada a um punhado de obsessões, é o que chamamos de estilo — aquele tempero inconfundível que nos faz amar certos escritores, reconhecendo-os já no primeiro parágrafo.
Aqui, contudo, trata-se do estilo do algoritmo. Sim, o desgraçado tem estilo — provavelmente, uma mistura de estilos dominantes. Um purê de vozes.
A IA opera por meio do saque. Vasculha milhões de textos, analisa padrões e, ao responder, escolhe as repetições mais comuns. Se alguém escrever “Cão que ladra…”, o algoritmo completa “não morde”.
Usada com preguiça, a IA tende a gerar textos organizados, muito bem vestidos, muito bem educados. Falta-lhes, contudo, a imprevisibilidade de um coração em chamas, a intuição, o milagre do espanto, o erro que ilumina, a capacidade da subversão, um grande amor adolescente, a morte de um pai, dois ou três divórcios mal resolvidos etc. Enfim, a vida. A vida humana.
(José Eduardo Agualusa. Enquanto ainda temos escolha. O Globo. Segundo Caderno, 09.08.2025, p. 6. Adaptado)
Leia o texto para responder a questão. A “escolha” a que o título do texto faz referência remete à possibilidade de
Atermos um estilo próprio.
Butilizarmos os recursos da IA.
Cconhecermos o algoritmo.
Daprendermos novas tecnologias.
Eamarmos os escritores.
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GabaritoA — termos um estilo próprio.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A "escolha" do título: o estilo próprio contra o purê de vozes da IA
Gabarito: letra A. A "escolha" a que o título se refere é a possibilidade de termos um estilo próprio — e não de usarmos a IA, conhecermos o algoritmo ou qualquer outra leitura tangencial. O texto constrói essa ideia por oposição: de um lado, o "estilo do algoritmo", um "purê de vozes" (repetição do que já existe); de outro, a escrita humana com sua "imprevisibilidade", "intuição" e "capacidade da subversão". A escolha é entre render-se ao veneno perfumado da IA ou preservar a voz autoral.
O comando pede interpretação — "remete à possibilidade de" —, ou seja, exige que você capture a tese do autor, não uma informação literal solta. A tese mora na oposição central do texto: a IA produz textos "muito bem vestidos, muito bem educados", mas sem vida; o humano tem "o milagre do espanto, o erro que ilumina, a capacidade da subversão". O título "Enquanto ainda temos escolha" só faz sentido se houver algo a escolher — e esse algo é justamente manter o estilo próprio diante da padronização algorítmica.
A técnica que decide esta questão é a leitura da tese global: o texto não é sobre tecnologia, nem sobre aprender a usar IA — é uma crítica à homogeneização da escrita pela IA e uma defesa da singularidade humana. A alternativa correta é a que traduz essa defesa. As demais ou tangenciam o tema (falam de IA, algoritmo, tecnologia) ou invertem o sentido ("amarmos os escritores" é consequência do estilo, não a escolha em si).
Para confirmar, observe como o autor valoriza o estilo próprio: no 2º parágrafo, ele define estilo como "aquele tempero inconfundível que nos faz amar certos escritores, reconhecendo-os já no primeiro parágrafo". No 4º parágrafo, contrapõe o "estilo do algoritmo" — um "purê de vozes" — à escrita humana, que tem "a imprevisibilidade de um coração em chamas, a intuição, o milagre do espanto, o erro que ilumina, a capacidade da subversão". A escolha, portanto, é entre a repetição padronizada da IA e a voz autoral única. É exatamente isso que a alternativa A captura.
NÃO CAIA NESSA!
A banca arma com tangenciamento — as alternativas B, C e D falam de IA, algoritmo e tecnologia, temas presentes no texto, mas que não respondem à pergunta sobre a "escolha". A alternativa E inverte o sentido: amar os escritores é consequência do estilo, não a escolha em si.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação, grife o comando antes de ler as alternativas. "Remete à possibilidade de" pede a tese do autor, não um detalhe do texto. A tese geralmente está na introdução ou na conclusão — aqui, no título e no último parágrafo.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única que traduz a tese do texto. O autor critica a IA por gerar textos padronizados, sem vida, e defende a escrita humana com sua singularidade. A "escolha" do título é entre render-se ao "estilo do algoritmo" (o "purê de vozes") ou preservar o estilo próprio. Como o texto afirma: "Em arte, essa repetição de técnicas, somada a um punhado de obsessões, é o que chamamos de estilo — aquele tempero inconfundível que nos faz amar certos escritores". A escolha é justamente manter essa voz autoral única.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Tangencia o tema. O texto fala sobre a IA, mas a "escolha" não é "utilizar os recursos da IA". Pelo contrário, o autor critica o uso preguiçoso da IA, que gera textos "muito bem vestidos, muito bem educados", mas sem vida. A escolha é resistir a essa padronização, não aderir a ela. A alternativa B inverte o sentido da crítica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Tangencia o tema. O texto menciona o algoritmo — "o desgraçado tem estilo" — mas a "escolha" não é "conhecer o algoritmo". Conhecer o algoritmo seria um passo técnico, não uma escolha existencial. A escolha é entre o estilo próprio e o estilo do algoritmo. A alternativa C foge ao núcleo da tese.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Tangencia o tema. O texto não trata de "aprender novas tecnologias". A crítica do autor é justamente contra a tecnologia que padroniza a escrita. A escolha não é aprender a usar a IA, mas decidir se vamos preservar a voz autoral diante dela. A alternativa D introduz uma ideia que o texto não aborda.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Inverte o sentido. O texto diz que o estilo próprio "nos faz amar certos escritores" — ou seja, amar os escritores é uma consequência do estilo, não a escolha em si. A alternativa E troca a causa pelo efeito. A escolha do título é sobre ter um estilo próprio, não sobre amar escritores.
Conclusão: a "escolha" do título é entre a padronização da IA e a singularidade humana. A alternativa A é a única que captura essa tese. As demais ou tangenciam o tema (B, C, D) ou invertem o sentido (E).