A inteligência artificial (IA) está começando a envenenar a produção literária. É um veneno perfumado, disfarçado de bálsamo, que vem contaminando os textos rápidos publicados nas redes sociais. Logo mais vai se espalhar para os contos, os romances e a poesia.
No início, surpreendeu-me a quantidade de textos inteligentes, bem articulados, circulando on-line. Aos poucos, fui notando algo estranho: a repetição de metáforas, de ideias, de arquiteturas narrativas. Em arte, essa repetição de técnicas, somada a um punhado de obsessões, é o que chamamos de estilo — aquele tempero inconfundível que nos faz amar certos escritores, reconhecendo-os já no primeiro parágrafo.
Aqui, contudo, trata-se do estilo do algoritmo. Sim, o desgraçado tem estilo — provavelmente, uma mistura de estilos dominantes. Um purê de vozes.
A IA opera por meio do saque. Vasculha milhões de textos, analisa padrões e, ao responder, escolhe as repetições mais comuns. Se alguém escrever “Cão que ladra…”, o algoritmo completa “não morde”.
Usada com preguiça, a IA tende a gerar textos organizados, muito bem vestidos, muito bem educados. Falta-lhes, contudo, a imprevisibilidade de um coração em chamas, a intuição, o milagre do espanto, o erro que ilumina, a capacidade da subversão, um grande amor adolescente, a morte de um pai, dois ou três divórcios mal resolvidos etc. Enfim, a vida. A vida humana.
(José Eduardo Agualusa. Enquanto ainda temos escolha. O Globo. Segundo Caderno, 09.08.2025, p. 6. Adaptado)
Leia o texto para responder a questão. No terceiro parágrafo, a palavra “contudo” pode ser substituída, sem prejuízo de sentido ao texto, por
A“portanto”.
B“porém”.
C“embora”.
D“pois”.
E“logo”.
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GabaritoB — “porém”.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Conjunções adversativas: o valor de "contudo" no texto
Gabarito: letra B. A palavra "contudo" é uma conjunção coordenativa adversativa, que expressa oposição/contraste entre ideias. No terceiro parágrafo, ela introduz uma ressalva à ideia anterior — o autor reconhece que a repetição de técnicas pode ser chamada de "estilo", mas, no caso da IA, trata-se de algo diferente. A única alternativa que preserva esse sentido de oposição é "porém", também adversativa. As demais opções expressam outros valores semânticos (conclusão, concessão, explicação), o que alteraria o sentido do texto.
O comando da questão
O enunciado pede uma substituição sem prejuízo de sentido. Isso significa que a palavra escolhida deve manter a mesma relação lógica que "contudo" estabelece entre as orações. Não basta ser sinônimo em algum contexto; é preciso que o valor semântico seja idêntico no trecho específico. A questão testa, portanto, o conhecimento das conjunções coordenativas e seus sentidos.
O texto e o movimento argumentativo
No segundo parágrafo, o autor define "estilo" como a repetição de técnicas e obsessões que torna um escritor reconhecível. No terceiro parágrafo, ele escreve:
"Em arte, essa repetição de técnicas, somada a um punhado de obsessões, é o que chamamos de estilo — aquele tempero inconfundível que nos faz amar certos escritores, reconhecendo-os já no primeiro parágrafo. Aqui, contudo, trata-se do estilo do algoritmo."
O "contudo" marca uma quebra de expectativa: o autor apresenta uma definição positiva de estilo (ligada à arte e à genialidade) e, em seguida, ressalva que, no caso da IA, o estilo é algo negativo — "um purê de vozes". A conjunção estabelece, portanto, uma oposição entre o estilo humano e o estilo do algoritmo.
A técnica: identificar o valor semântico da conjunção
As conjunções coordenativas dividem-se em cinco grupos: aditivas (e, nem), adversativas (mas, porém, contudo, todavia, entretanto), alternativas (ou, ora...ora), conclusivas (logo, portanto, pois) e explicativas (porque, pois). Para resolver a questão, basta reconhecer que "contudo" pertence ao grupo das adversativas, que expressam oposição, contraste ou quebra de expectativa. A única alternativa do mesmo grupo é "porém".
"Portanto" é uma conjunção conclusiva, que indica conclusão ou consequência (equivale a "logo", "por isso"). Substituir "contudo" por "portanto" transformaria a relação de oposição em uma relação de conclusão, alterando completamente o sentido do trecho. O autor não conclui algo a partir do que disse; ele faz uma ressalva.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Porém" é uma conjunção adversativa, assim como "contudo". Ambas expressam oposição, contraste ou quebra de expectativa. No trecho, a substituição preserva integralmente o sentido: "Aqui, porém, trata-se do estilo do algoritmo". A relação de ressalva entre a definição de estilo e a aplicação à IA permanece intacta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Embora" é uma conjunção subordinativa concessiva, que introduz uma oração que expressa uma concessão (fato que se admite, mas que não impede a realização do outro). Além de mudar o valor semântico, "embora" exigiria uma reestruturação sintática da frase (verbo no subjuntivo), o que não ocorre com "contudo". A substituição alteraria tanto o sentido quanto a estrutura do período.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Pois" pode ser explicativa (quando vem antes do verbo, equivalendo a "porque") ou conclusiva (quando vem depois do verbo, equivalendo a "portanto"). Em nenhum dos casos expressa oposição. Substituir "contudo" por "pois" transformaria a ressalva em uma explicação ou conclusão, alterando o sentido do texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Logo" é uma conjunção conclusiva, que indica conclusão ou consequência (equivale a "portanto"). Assim como "portanto", "logo" estabeleceria uma relação de conclusão, não de oposição. O autor não conclui que o estilo do algoritmo é um purê de vozes; ele contrapõe essa ideia à definição anterior de estilo.
Fechamento
A questão é resolvida pelo reconhecimento do valor semântico das conjunções coordenativas. "Contudo" é adversativa, e a única alternativa do mesmo grupo é "porém". As demais opções pertencem a outros grupos (conclusivas, concessiva, explicativa) e, por isso, alterariam o sentido do texto. Lembre-se: em questões de substituição, o que importa é a relação lógica que a conjunção estabelece, não apenas a possibilidade de troca em outro contexto.