Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — VUNESP 2025
Português›Concordância (Verbal e Nominal)
Código
vu218710
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2025
Cargo
3º AEM ( )
Os jeitos de falar
“A primeira coisa do sotaque é que ele não existe entre os seus. Ele vem com o outro ou quando você é o outro. E você nota. A primeira vez que eu notei que existia um outro sotaque foi quando eu me mudei do interior da Bahia para Salvador: tem o baianês caipira, do sertão, e ele é diferente do baianês litorâneo”, relata o roteirista Tetel Queiroz, um homem branco na faixa dos 40 anos. Baiano radicado em São Paulo, ele menciona também os “pré-julgamentos” inerentes ao seu jeito de falar que observa na capital paulista. “Para o baiano tem uma série de expectativas: de que ele gosta de ir à praia ou só quer saber do happy hour às cinco horas da tarde”.
A construção de julgamentos com base na fala não é um fenômeno novo. De acordo com a linguista Raquel Freitag, da Universidade Federal de Sergipe, “julgar pela língua é parte do funcionamento da cognição humana. Fazemos isso o tempo todo, é uma forma de organizar e perceber o mundo e assim tomar decisões rápidas”. Por isso, Freitag defende que ampliar o repertório linguístico seja uma das estratégias mais eficazes para mitigar os efeitos negativos desse mecanismo. “Quando amplio minhas redes, seja por migração, viagens ou mídias digitais, começo a entender que há muitos modos legítimos de falar”, observa.
A variação linguística impacta a vida das pessoas, comenta Livia Oushiro, sociolinguista da Unicamp. Nos últimos anos, ela tem investigado a fala de migrantes nordestinos radicados nas regiões de Campinas (SP) e da capital paulista. A linguista avalia a pronúncia do R, o som de T e D antes de I, a concordância nominal e a preferência na estruturação de uma frase negativa. “Em português, podemos falar, por exemplo, ‘Não vi’, ‘Não vi, não’ ou ‘Vi não’. A incidência dos casos entre sudestinos e nordestinos é bastante diferenciada, sendo o primeiro exemplo mais frequente na região Sudeste e os outros dois no Nordeste”, diz Oushiro.
(Arthur Marchetto. Os jeitos de falar. Pesquisa FAPESP, 354, agosto/2025, p. 81. https://revistapesquisa.fapesp.br. Adaptado)
Leia o texto para responder a questão. Um dos aspectos linguísticos avaliados pela sociolinguista Livia Oushiro (3º parágrafo) pode ser exemplificado pela variação entre as frases
A“Fui à escola” e “Fui na escola”.
B“Há um livro na estante” e “Tem um livro na estante”.
C“Vai chover amanhã” e “Choverá amanhã”.
D“Encontrei eles na praia” e “Encontrei-os na praia”.
E“Lavei os pratos” e “Lavei os prato”.
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GabaritoE — “Lavei os pratos” e “Lavei os prato”.
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Variação linguística e concordância nominal: o exemplo que o texto autoriza
Gabarito: letra E. A questão pede que você identifique, entre os pares de frases, aquele que exemplifica um dos aspectos linguísticos avaliados pela sociolinguista Livia Oushiro (3º parágrafo). O texto afirma que ela avalia "a pronúncia do R, o som de T e D antes de I, a concordância nominal e a preferência na estruturação de uma frase negativa". A única alternativa que ilustra variação na concordância nominal é a E — "Lavei os pratos" (plural correto) × "Lavei os prato" (ausência de marca de plural no substantivo). As demais alternativas exemplificam outros fenômenos linguísticos (regência, uso de 'haver', tempo verbal, colocação pronominal), que não estão entre os aspectos citados no texto.
O comando: o que a banca pede
O enunciado é de compreensão/recorrência: "pode ser exemplificado pela variação entre as frases". Ou seja, você deve localizar no texto quais aspectos a sociolinguista avalia e, depois, verificar qual par de frases corresponde a um desses aspectos. Não se trata de inferir nada além do texto — a resposta está explícita no 3º parágrafo. A habilidade testada é a de relacionar o conteúdo do texto com exemplos concretos de variação linguística.
O texto: onde mora a resposta
No 3º parágrafo, o texto diz:
"A linguista avalia a pronúncia do R, o som de T e D antes de I, a concordância nominal e a preferência na estruturação de uma frase negativa."
Essa passagem é a âncora da questão. Ela lista quatro aspectos que a sociolinguista investiga. A alternativa correta deve exemplificar um desses quatro aspectos. A concordância nominal é o único que aparece nas alternativas de forma inequívoca.
A técnica: como testar cada alternativa
Para cada par de frases, pergunte: qual fenômeno linguístico está sendo contrastado? Depois, verifique se esse fenômeno está na lista do texto. Se não estiver, a alternativa está fora do escopo — mesmo que o par seja um exemplo legítimo de variação linguística, ele não é o que a questão pede.
A concordância nominal é a adequação em gênero e número entre o substantivo e seus determinantes (artigos, adjetivos, pronomes, numerais). No par E, "os pratos" (plural) × "os prato" (singular indevido) mostra exatamente a ausência de concordância de número — um fenômeno de variação linguística, pois na fala popular é comum a omissão do 's' do plural quando o artigo já marca o número.
Análise das alternativas
Variação linguística
1Aspectos avaliados (texto)
Pronúncia do R
Som de T e D antes de I
Concordância nominal
Frase negativa
2Fenômenos fora do escopo
Regência (A)
Haver × ter (B)
Tempo verbal (C)
Colocação pronominal (D)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: fora do escopo (regência). O par "Fui à escola" e "Fui na escola" contrasta a regência do verbo 'ir' (uso de 'a' com crase versus 'em' com artigo). Esse fenômeno não está na lista do texto. A banca tenta confundir com variação linguística, mas o texto não menciona regência.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: fora do escopo (uso de 'haver' existencial). O par "Há um livro na estante" e "Tem um livro na estante" contrasta o uso do verbo 'haver' (impessoal) com o uso do verbo 'ter' (existencial, comum na fala). Não é concordância nominal, nem está na lista do texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: fora do escopo (tempo verbal). O par "Vai chover amanhã" e "Choverá amanhã" contrasta o futuro do presente (forma composta versus forma simples). Não é concordância nominal, nem está na lista do texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: fora do escopo (colocação pronominal). O par "Encontrei eles na praia" e "Encontrei-os na praia" contrasta o uso do pronome pessoal reto ('eles') com o oblíquo átono ('os') como objeto direto. Não é concordância nominal, nem está na lista do texto.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Acerto: concordância nominal. O par "Lavei os pratos" e "Lavei os prato" mostra a variação na marcação de plural do substantivo. Na primeira, o plural é marcado no artigo e no substantivo; na segunda, apenas no artigo. Isso é um exemplo clássico de concordância nominal variável, exatamente o que o texto cita. A passagem que autoriza é:
"A linguista avalia a pronúncia do R, o som de T e D antes de I, a concordância nominal e a preferência na estruturação de uma frase negativa."
A alternativa E é a única que corresponde a um dos aspectos listados.
NÃO CAIA NESSA!
A banca coloca quatro pares que são exemplos legítimos de variação linguística, mas que não estão na lista do texto. A armadilha é você achar que qualquer variação serve. O comando pede especificamente o que a sociolinguista avalia.
PEGA ESSA DICA!
Grife no texto a lista de aspectos avaliados. Depois, para cada alternativa, pergunte: "isso é concordância nominal?" Se não for, descarte.
Conclusão: a resposta é a letra E, pois é a única que exemplifica a concordância nominal, um dos aspectos avaliados pela sociolinguista. As demais alternativas, embora sejam exemplos de variação linguística, não correspondem ao que o texto menciona.