Questão de Português — Variações da Linguagem: Não Verbal, Regional, Histórica, Contextual. Neologismos e Estrangeirismos — VUNESP 2025
Português›Variações da Linguagem: Não Verbal, Regional, Histórica, Contextual. Neologismos e Estrangeirismos
Código
vu218718
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2025
Cargo
3º AEM ( )
Resgate caipira
São Paulo vive hoje uma transformação na fala de parte dos seus 11,4 milhões de habitantes, principalmente nas periferias. O modo de se expressar meio “italianizado” vem dando lugar, sobretudo entre os mais jovens, a um “r” mais parecido com os pronunciados no interior.
O rapper Rafael Gomes, de 32 anos, mais conhecido como MMoneis, é um dos que adotaram esse jeito meio caipira de falar. Em uma música lançada recentemente, “Sorria, você está sendo filmado”, o cantor articula palavras como “sorte”, “orçamento” e “normal” com o “r retroflexo”, que tem esse nome porque a língua dobra para trás ao vocalizá-lo, explicam os linguistas.
Mmoneis é exemplo de um cenário mais amplo, segundo Livia Oushiro, professora de sociolinguística da Unicamp. O “r caipira”, quando comparado ao “r tepe” – que soa semelhante ao “r” pronunciado na palavra “carambola” e virou sinônimo do português falado em regiões mais nobres como os Jardins e a Faria Lima – tem ganhado espaço. Não é a primeira vez que ele aparece.
– No começo do século XX, aqui era roça. A cidade não tinha mais do que 100 mil habitantes. Só que esse “r” foi substituído, é possível que pela influência da imigração italiana e portuguesa. Agora, acontece esse retorno do “r retroflexo” – explica.
O resgate caipira, diz o músico e linguista da USP Luiz Tatit, reflete também o mercado fonográfico.
– Até pouco tempo, esse sotaque não tinha prestígio – explica Tatit. Isso mudou com o crescimento da música sertaneja.
O professor Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, da USP, lembra que as primeiras referências do “r retroflexo” podem remontar ao século XVI. Outras mudanças ocorreram com a interação dos portugueses com indígenas, africanos e imigrantes italianos. Uma salada sonora que começou a ser preparada nas origens da cidade de São Paulo.
(Mariana Rosário. Resgate caipira. O Globo. 25.01.2025, p. 9)
Leia o texto para responder a questão. De acordo com o texto, o uso dos dois tipos de “r” é determinado por contrastes de natureza
Ahistórica e biológica.
Bartística e científica.
Cgeracional e filosófica.
Dpolítica e cultural.
Esocial e geográfica.
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GabaritoE — social e geográfica.
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Variação linguística: os contrastes que determinam o uso dos dois tipos de “r”
Gabarito: letra E. O texto determina que o uso dos dois tipos de “r” é marcado por contrastes de natureza social e geográfica — o “r caipira” (retroflexo) é associado ao interior e às periferias, enquanto o “r tepe” é ligado a regiões nobres como os Jardins e a Faria Lima. A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo, quando a professora Livia Oushiro compara os dois sons e os vincula a espaços geográficos e a camadas sociais distintas.
O comando pede uma compreensão do texto: “De acordo com o texto” — ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem deduções ou acréscimos. A tarefa é identificar, nas palavras do autor, quais contrastes explicam a escolha entre os dois “r”. Não se trata de inferir nada além do texto, mas de localizar a informação explícita e reconhecê-la em uma das alternativas.
O texto apresenta um movimento argumentativo claro: começa observando uma transformação na fala de parte dos paulistanos, sobretudo nas periferias, e depois explica que o “r caipira” vem ganhando espaço em comparação ao “r tepe”. A professora Livia Oushiro é quem estabelece o contraste central:
“O ‘r caipira’, quando comparado ao ‘r tepe’ – que soa semelhante ao ‘r’ pronunciado na palavra ‘carambola’ e virou sinônimo do português falado em regiões mais nobres como os Jardins e a Faria Lima – tem ganhado espaço.”
Aqui estão os dois eixos que a alternativa E captura: o geográfico (interior × regiões nobres da capital) e o social (periferias × regiões mais nobres). O texto ainda reforça o contraste social ao citar o músico Luiz Tatit: “Até pouco tempo, esse sotaque não tinha prestígio […] Isso mudou com o crescimento da música sertaneja.” O prestígio é uma marca social — o sotaque ganhou valorização, o que é um fenômeno de hierarquia social, não apenas de lugar.
A técnica que decide esta questão é simples: teste cada alternativa perguntando se o texto autoriza aquele par de contrastes. A alternativa correta é a única cujos dois elementos aparecem explicitamente no texto. As demais ou trazem um elemento ausente (extrapolação) ou trocam o eixo do contraste (troca de conceito).
Contraste entre os dois "r": "r caipira" (retroflexo) (Interior e periferias, Sem prestígio (antes)); "r tepe" (Regiões nobres (Jardins, Faria Lima), Prestígio); Eixos do contraste (Geográfico (interior × capital nobre), Social (periferia × região nobre))
Alternativa A — ❌ Incorreta
O texto não menciona nenhum contraste de natureza biológica. A explicação para o “r retroflexo” é fonética (a língua dobra para trás), mas isso é uma descrição articulatória, não um determinante biológico do uso social do som. A alternativa extrapola: acrescenta um fator que o texto não aborda.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O texto cita o mercado fonográfico e a música sertaneja, mas isso é um fator cultural/econômico, não artístico e científico no sentido proposto. A alternativa tangencia o tema: fala de algo remotamente correlato (a música) e acrescenta “científica”, que não aparece como contraste determinante.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O texto menciona que a mudança ocorre “sobretudo entre os mais jovens”, o que sugere um recorte geracional. No entanto, filosófica não tem qualquer apoio no texto. A alternativa restringe o contraste a um único eixo (geracional) e extrapola ao acrescentar “filosófica”.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O texto fala de prestígio e de regiões nobres, o que tem relação com cultura e política em sentido amplo. Porém, o contraste central que o texto estabelece é entre interior/periferia e regiões nobres — ou seja, geográfico e social. A alternativa troca o conceito: substitui “social e geográfica” por “política e cultural”, que não são os eixos que o texto usa para explicar a diferença entre os dois “r”.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa é uma paráfrase fiel do texto. O contraste entre o “r caipira” (interior, periferias) e o “r tepe” (regiões nobres como Jardins e Faria Lima) é, ao mesmo tempo, geográfico (interior × capital nobre) e social (periferias × regiões nobres, prestígio × falta de prestígio). A passagem que prova:
“O ‘r caipira’, quando comparado ao ‘r tepe’ – que soa semelhante ao ‘r’ pronunciado na palavra ‘carambola’ e virou sinônimo do português falado em regiões mais nobres como os Jardins e a Faria Lima – tem ganhado espaço.”
E ainda, no 5º parágrafo:
“Até pouco tempo, esse sotaque não tinha prestígio […] Isso mudou com o crescimento da música sertaneja.”
O prestígio é um marcador social; a localização (interior, periferias, Jardins, Faria Lima) é um marcador geográfico. A alternativa E é a única que nomeia exatamente esses dois eixos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a troca de conceito — oferece pares que parecem plausíveis (cultural, geracional) mas que não são os eixos que o texto usa. O candidato que lê rápido e associa “música sertaneja” a “cultura” cai na D; o que vê “jovens” e pensa em “geração” cai na C. A chave é voltar ao texto e ver quais contrastes ele nomeia: interior × capital, periferia × região nobre.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de “de acordo com o texto”, grife os pares de oposição que o autor constrói. Aqui, o par é “r caipira” × “r tepe”, e cada um vem acompanhado de um lugar e de um grupo social. A alternativa correta é a que repete esse par com outras palavras.
Gabarito: letra E — o uso dos dois tipos de “r” é determinado por contrastes sociais e geográficos, exatamente como o texto descreve ao opor periferias/interior a regiões nobres da capital.