Demonstração por absurdo
Gabarito: letra A. Polya supõe que exista um conjunto de números naturais satisfazendo as condições do problema e, a partir dessa suposição, deduz que a soma dos algarismos das dezenas, , deveria ser igual a , um número que não é natural. Como essa conclusão é impossível, a suposição inicial é falsa — exatamente a estrutura da demonstração por absurdo (ou redução ao absurdo).
A demonstração por absurdo é um dos métodos mais poderosos da matemática. A ideia central é: para provar que uma proposição é verdadeira, você assume que ela é falsa e, a partir dessa suposição, deduz uma contradição lógica ou uma impossibilidade matemática. Se a suposição leva a um absurdo, então ela não pode ser verdadeira, e a proposição original fica provada.
No problema de Polya, a proposição a ser provada é: "não existe um conjunto de números naturais que use cada um dos dez algarismos exatamente uma vez e cuja soma seja 100". Para provar isso por absurdo, Polya assume o contrário: que tal conjunto existe. A partir dessa suposição, ele constrói um raciocínio lógico:
A soma de todos os algarismos usados (0 a 9) é 45.
Cada número do conjunto é formado por algarismos que ocupam a casa das unidades ou das dezenas.
Seja a soma dos algarismos que ocupam a casa das dezenas. Então, a soma de todos os números é , pois os algarismos das dezenas valem 10 vezes seu valor nominal, e os das unidades valem seu valor nominal.
Para que a soma seja 100, temos a equação , que resolvida dá , ou seja, .
Aqui está o absurdo: é a soma de algarismos das dezenas, que são números naturais (0 a 9). Portanto, deve ser um número natural. Mas não é um número natural. Logo, a suposição inicial (de que o conjunto existe) é falsa, e o problema não tem solução.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que o método não é apenas "analítico" ou "algébrico" — embora use álgebra, a estrutura lógica é a da demonstração por absurdo. A álgebra é apenas a ferramenta usada para chegar à contradição. O que caracteriza o método é a suposição do contrário e a dedução de uma impossibilidade.
Guarde o critério decisivo: demonstração por absurdo = supor o contrário + chegar a uma contradição. É exatamente esse critério que separa a alternativa correta das demais.
Hipótese | Suposição inicial | Dedução lógica | Resultado |
|---|
Caso 1 | Existe conjunto com os 10 algarismos (0–9) usados uma única vez e soma 100 | Soma dos algarismos = 45; seja (t) a soma dos algarismos das dezenas; soma total = (10t + (45 - t)) |
|
Caso 2 | (t) deve ser natural (soma de algarismos das dezenas) |
| Contradição — suposição inicial é falsa |
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A está correta porque identifica precisamente o método utilizado. Polya supõe que o problema tem solução (ou seja, que existe um conjunto de números satisfazendo as condições) e, a partir dessa suposição, deduz que , que não é um número natural. Como deveria ser a soma de algarismos das dezenas (portanto, um natural), essa conclusão é um absurdo. A suposição inicial é, então, falsa, provando que o problema não tem solução. Essa é a estrutura clássica da demonstração por absurdo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B afirma que o método é analítico porque . Embora a igualdade seja verdadeira, ela não caracteriza o método. O fato de ser uma dízima periódica é uma consequência do cálculo, não a razão da conclusão. O método analítico, em geral, refere-se a uma demonstração que usa manipulação algébrica direta para chegar ao resultado, sem a suposição do contrário. Aqui, a álgebra é usada, mas dentro de uma estrutura de redução ao absurdo. A alternativa confunde a ferramenta (álgebra) com o método (absurdo).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que o método é geométrico porque a equação é a equação de uma reta. De fato, a equação pode ser reescrita como , ou , que é uma equação do primeiro grau e, graficamente, representa uma reta. No entanto, o fato de a equação representar uma reta não tem relação com o método de demonstração utilizado. A demonstração não se apoia em propriedades geométricas, mas na contradição lógica entre a suposição e o resultado obtido. A alternativa confunde a representação algébrica com o método lógico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que o método é direto porque . É verdade que é um número racional, mas isso não caracteriza uma demonstração direta. Uma demonstração direta prova uma proposição construindo uma cadeia lógica de implicações a partir das hipóteses, sem supor o contrário. Aqui, Polya supõe o contrário (que a solução existe) e chega a uma contradição. Portanto, o método não é direto, mas por absurdo. A alternativa confunde a natureza do número obtido com a estrutura da demonstração.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que o método é por indução porque é uma dízima periódica. A indução matemática é um método de prova que estabelece a validade de uma proposição para todos os números naturais, mostrando que ela vale para o primeiro caso e que, se vale para um caso, vale para o próximo. Nada disso é usado na demonstração de Polya. O fato de ser uma dízima periódica é irrelevante para o método. A alternativa confunde o formato decimal do número com o método de demonstração.
Gabarito: letra A