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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsSintaxe
Código
ce120854
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE-SC
Ano
2021
Nível
Superior
Cargo
Promotor de Justiça Substituto - Prova 2
    É o discurso que nos liberta e é o discurso que estabelece os limites da nossa liberdade e nos impulsiona a transgredir e transcender os limites — já estabelecidos ou ainda a ser estabelecidos no futuro. Discurso é aquilo que nos faz enquanto nós o fazemos. E é graças ao discurso, e seu ímpeto endêmico de espreitar além das fronteiras que ele estabelece para a sua própria liberdade, que nosso estar no mundo é um processo de vir a ser perpétuo — incessante e infinito: nosso vir a ser e o vir a ser do nosso “mundo da vida” — juntar-se, misturar-se, embora sem solidificar, estreita e inseparavelmente, entrançados e entrelaçados, e compartilhando nossos respectivos sucessos e infortúnios, ligados um ao outro para o melhor e para o pior, desde o momento de nossa concepção simultânea até que a morte nos separe.
    O que nós chamamos de “realidade”, quando entramos em um ânimofilosófico, ou “os fatos da questão” quando seguimos obedientemente as instâncias da doxa, é tecido de palavras. Nenhuma outra realidade nos é acessível: não acessamos o passado “como ele realmente aconteceu”, o qual Leopold von Ranke celebremente conclamou (instruiu) seus colegas historiadores do século XIX a recuperar. Comentando sobre a história de Juan Goytisolo a respeito de um velho, Milan Kundera salienta que a biografia — qualquer biografia que tente ser o que seu nome sugere — é, e não poderia deixar de ser, uma lógica artificial inventada, imposta retrospectivamente a uma sucessão incoerente de imagens, reunida pela memória de partículas e fragmentos. Ele conclui que, em total oposição às presunções do senso comum, o passado compartilha com o futuro a ruína incurável da irrealidade — esquivando-se/evadindo-se obstinadamente, como ambos o fazem, das redes tecidas de palavras movidas pela lógica. Não obstante, essa irrealidade é a única realidade a ser captada e possuída por nós, que “vivemos em discurso como o peixe na água”. 

Zygmunt Bauman e Riccardo Mazzeo. O elogio da
literatura. Zahar. Edição do Kindle (com adaptações).

Julgue o item que se segue, com relação a aspectos linguísticos do texto precedente.No terceiro período do segundo parágrafo, o termo “Milan Kundera” funciona como aposto, uma vez que especifica o termo “um velho”.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

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Item: "Milan Kundera funciona como aposto" – ❌ ERRADO ⟵ GABARITO

Gabarito: Errado (E). A afirmação de que "Milan Kundera" funciona como aposto especificando "um velho" é falsa. No terceiro período do segundo parágrafo, "Milan Kundera" exerce a função de sujeito do verbo "salienta", e não de aposto. O aposto é um termo que explica ou especifica outro, geralmente isolado por vírgulas, e aqui não há essa relação.

Veja o período no texto:

"Comentando sobre a história de Juan Goytisolo a respeito de um velho, Milan Kundera salienta que a biografia — qualquer biografia que tente ser o que seu nome sugere — é, e não poderia deixar de ser, uma lógica artificial inventada, imposta retrospectivamente a uma sucessão incoerente de imagens..."

Na estrutura oracional, "Milan Kundera" é o sujeito de "salienta". A expressão "a respeito de um velho" está ligada a "história", não a Kundera. Kundera comenta sobre a história contada por Goytisolo; ele não é o velho. Portanto, não há especificação nem aposto.

Conceito de aposto: termo que se junta a outro para explicá-lo, especificá-lo ou resumi-lo, geralmente entre vírgulas, parênteses ou travessões. Ex.: Juan Goytisolo, escritor espanhol, escreveu... — "escritor espanhol" é aposto de "Juan Goytisolo". No texto, não há vírgulas separando "Milan Kundera" de "um velho", e a função sintática é de sujeito, não de aposto.

Erro da banca: confundir sujeito com aposto. A banca tenta fazer o candidato acreditar que "Milan Kundera" especifica "um velho", mas o texto mostra que Kundera é o autor do comentário, distinto do velho mencionado na obra de Goytisolo.

NÃO CAIA NESSA!

Sujeito nunca tem preposição

Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.

— Sintaxe — identificação do sujeito

Gabarito: E (Errado).

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