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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsSintaxe
Código
ce120860
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE-SC
Ano
2021
Nível
Superior
Cargo
Promotor de Justiça Substituto - Prova 2
    É o discurso que nos liberta e é o discurso que estabelece os limites da nossa liberdade e nos impulsiona a transgredir e transcender os limites — já estabelecidos ou ainda a ser estabelecidos no futuro. Discurso é aquilo que nos faz enquanto nós o fazemos. E é graças ao discurso, e seu ímpeto endêmico de espreitar além das fronteiras que ele estabelece para a sua própria liberdade, que nosso estar no mundo é um processo de vir a ser perpétuo — incessante e infinito: nosso vir a ser e o vir a ser do nosso “mundo da vida” — juntar-se, misturar-se, embora sem solidificar, estreita e inseparavelmente, entrançados e entrelaçados, e compartilhando nossos respectivos sucessos e infortúnios, ligados um ao outro para o melhor e para o pior, desde o momento de nossa concepção simultânea até que a morte nos separe.
    O que nós chamamos de “realidade”, quando entramos em um ânimofilosófico, ou “os fatos da questão” quando seguimos obedientemente as instâncias da doxa, é tecido de palavras. Nenhuma outra realidade nos é acessível: não acessamos o passado “como ele realmente aconteceu”, o qual Leopold von Ranke celebremente conclamou (instruiu) seus colegas historiadores do século XIX a recuperar. Comentando sobre a história de Juan Goytisolo a respeito de um velho, Milan Kundera salienta que a biografia — qualquer biografia que tente ser o que seu nome sugere — é, e não poderia deixar de ser, uma lógica artificial inventada, imposta retrospectivamente a uma sucessão incoerente de imagens, reunida pela memória de partículas e fragmentos. Ele conclui que, em total oposição às presunções do senso comum, o passado compartilha com o futuro a ruína incurável da irrealidade — esquivando-se/evadindo-se obstinadamente, como ambos o fazem, das redes tecidas de palavras movidas pela lógica. Não obstante, essa irrealidade é a única realidade a ser captada e possuída por nós, que “vivemos em discurso como o peixe na água”. 

Zygmunt Bauman e Riccardo Mazzeo. O elogio da
literatura. Zahar. Edição do Kindle (com adaptações).

Julgue o item que se segue, com relação a aspectos linguísticos do texto precedente.No trecho “É o discurso que nos liberta” (primeiro parágrafo), o termo “nos” desempenha a função de complemento indireto de “liberta”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função sintática do pronome "nos" em "É o discurso que nos liberta"

Gabarito: Errado (E). A afirmativa está incorreta porque o pronome oblíquo átono "nos" exerce a função de objeto direto do verbo "liberta", e não de objeto indireto. O verbo "libertar" é transitivo direto (liberta alguém), e "nos" é o complemento sem preposição, caracterizando objeto direto.

Análise sintática

No trecho "É o discurso que nos liberta", o verbo liberta é transitivo direto: pede um complemento sem preposição (liberta quem? liberta nós). O pronome oblíquo átono nos é a forma de primeira pessoa do plural do caso acusativo, ou seja, funciona como objeto direto.

Regra: pronomes oblíquos átonos podem ser:

  • Acusativos (me, te, se, o, a, nos, vos, os, as) → objeto direto

  • Dativos (me, te, se, lhe, lhes, nos, vos) → objeto indireto

A forma nos é ambígua: pode ser acusativo ou dativo, dependendo da transitividade do verbo. Com verbos transitivos diretos (como "libertar", "amar", "ver"), é objeto direto. Com verbos transitivos indiretos (como "dar", "contar", "perdoar"), é objeto indireto. Exemplo: "Ele nos deu um presente" → "nos" = objeto indireto (deu a nós). Mas no texto, liberta não exige preposição, então "nos" é objeto direto.

Distratora

A banca tenta confundir o candidato fazendo-o acreditar que todo "nos" é objeto indireto. Isso é um erro clássico de confundir a forma do pronome com sua função. Para acertar, é preciso verificar a transitividade verbal.

NÃO CAIA NESSA!

Troca de objeto direto por objeto indireto. O pronome "nos" é ambíguo; a função depende do verbo. O verbo "libertar" é VTD, portanto "nos" é OD.

Gabarito: Errado (E).

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