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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce130886
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ-RJ
Ano
2021
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário

Texto CG1A1

    

    Na casa vazia, sozinha com a empregada, já não andava como um soldado, já não precisava tomar cuidado. Mas sentia falta da batalha das ruas. Melancolia da liberdade, com o horizonte ainda tão longe. Dera-se ao horizonte. Mas a nostalgia do presente. O aprendizado da paciência, o juramento da espera. Do qual talvez não soubesse jamais se livrar. A tarde transformando-se em interminável e, até todos voltarem para o jantar e ela poder se tornar com alívio uma filha, era o calor, o livro aberto e depois fechado, uma intuição, o calor: sentava-se com a cabeça entre as mãos, desesperada. Quando tinha dez anos, relembrou, um menino que a amava jogara-lhe um rato morto. Porcaria! berrara branca com a ofensa. Fora uma experiência. Jamais contara a ninguém. Com a cabeça entre as mãos, sentada. Dizia quinze vezes: sou vigorosa, sou vigorosa, sou vigorosa — depois percebia que apenas prestara atenção à contagem. Suprindo com a quantidade, disse mais uma vez: sou vigorosa, dezesseis. E já não estava mais à mercê de ninguém. Desesperada porque, vigorosa, livre, não estava mais à mercê. Perdera a fé. Foi conversar com a empregada, antiga sacerdotisa. Elas se reconheciam. As duas descalças, de pé na cozinha, a fumaça do fogão. Perdera a fé, mas, à beira da graça, procurava na empregada apenas o que esta já perdera, não o que ganhara. Fazia-se pois distraída e, conversando, evitava a conversa. “Ela imagina que na minha idade devo saber mais do que sei e é capaz de me ensinar alguma coisa”, pensou, a cabeça entre as mãos, defendendo a ignorância como a um corpo. Faltavam-lhe elementos, mas não os queria de quem já os esquecera. A grande espera fazia parte. Dentro da vastidão, maquinando.

Clarice Lispector. Preciosidade. In: Laços de Família.

Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 86-87 (com adaptações). 

Sem prejuízo dos sentidos do texto CG1A1, a expressão “à mercê”, no trecho “E já não estava mais à mercê de ninguém”, poderia ser substituída por
  1. Aà disposição.
  2. Bà espera.
  3. Cao encontro.
  4. Dà vontade.
  5. Ea fim.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — à disposição.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de “à mercê” sem prejuízo de sentido

Gabarito: letra A. A expressão “à mercê”, no trecho “E já não estava mais à mercê de ninguém”, significa “à disposição” — ou seja, a personagem não está mais submetida à vontade de ninguém. A pista está no próprio texto: logo antes, lê-se que ela “não estava mais à mercê” porque estava “vigorosa, livre”. A substituição por “à disposição” preserva exatamente esse sentido de dependência/submissão a outrem, como se vê na passagem:

“Desesperada porque, vigorosa, livre, não estava mais à mercê.”

A questão pede uma substituição sem prejuízo dos sentidos — ou seja, a alternativa deve manter o significado contextual da expressão. Vamos analisar cada opção.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“À mercê de alguém” = à disposição de alguém, sob o poder/alvedrio de alguém. No texto, a personagem, ao se afirmar “vigorosa, livre”, deixa de estar submetida a outrem. “À disposição” carrega exatamente essa ideia de estar sob a vontade de outro, sem alterar o sentido. A troca é perfeita.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“À espera” remete a aguardar algo/alguém, o que não corresponde ao sentido de submissão. O texto até fala em “espera” (“O aprendizado da paciência, o juramento da espera”), mas “à mercê” não significa “aguardando” — é uma troca de conceito: a banca explora a proximidade temática da espera para confundir.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Ao encontro” significa a favor de, em direção a, e não submissão. No texto, a personagem não está “ao encontro” de ninguém; ela está livre da dependência. A alternativa tangencia o sentido, pois “ao encontro” tem relação com movimento/direção, não com poder alheio.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“À vontade” expressa liberdade, conforto, o que é o oposto do sentido de “à mercê”. O texto diz que ela não está mais à mercê, mas isso não significa que esteja “à vontade” — a personagem está desesperada, como se lê: “sentava-se com a cabeça entre as mãos, desesperada”. A alternativa contradiz o estado emocional descrito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“A fim” (sem complemento) não forma expressão com sentido de submissão; “a fim de” significa para, com o objetivo de. No trecho, não há finalidade, mas estado de dependência. A alternativa extrapola o sentido, pois introduz uma ideia de propósito que o texto não autoriza.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a proximidade temática (a espera aparece no texto) e a aparência de liberdade (à vontade) para desviar do sentido exato de “à mercê”. A correta é a única que mantém a submissão a outrem.

PEGA ESSA DICA!

Ao substituir expressões, teste se a troca preserva o sentido contextual — pergunte: “a personagem está sob o poder de alguém?”. Se sim, “à disposição” é a única que responde.

Gabarito: letra A.

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