Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2021
Português›Sintaxe
Código
ce130887
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ-RJ
Ano
2021
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário
Texto CG1A1
Na casa vazia, sozinha com a empregada, já não andava
como um soldado, já não precisava tomar cuidado. Mas sentia
falta da batalha das ruas. Melancolia da liberdade, com o
horizonte ainda tão longe. Dera-se ao horizonte. Mas a nostalgia
do presente. O aprendizado da paciência, o juramento da espera.
Do qual talvez não soubesse jamais se livrar. A tarde
transformando-se em interminável e, até todos voltarem para o
jantar e ela poder se tornar com alívio uma filha, era o calor, o
livro aberto e depois fechado, uma intuição, o calor: sentava-se
com a cabeça entre as mãos, desesperada. Quando tinha dez
anos, relembrou, um menino que a amava jogara-lhe um rato
morto. Porcaria! berrara branca com a ofensa. Fora uma
experiência. Jamais contara a ninguém. Com a cabeça entre as
mãos, sentada. Dizia quinze vezes: sou vigorosa, sou vigorosa,
sou vigorosa — depois percebia que apenas prestara atenção à
contagem. Suprindo com a quantidade, disse mais uma vez: sou
vigorosa, dezesseis. E já não estava mais à mercê de ninguém.
Desesperada porque, vigorosa, livre, não estava mais à mercê.
Perdera a fé. Foi conversar com a empregada, antiga sacerdotisa.
Elas se reconheciam. As duas descalças, de pé na cozinha, a
fumaça do fogão. Perdera a fé, mas, à beira da graça, procurava
na empregada apenas o que esta já perdera, não o que ganhara.
Fazia-se pois distraída e, conversando, evitava a conversa. “Ela
imagina que na minha idade devo saber mais do que sei e é capaz
de me ensinar alguma coisa”, pensou, a cabeça entre as mãos,
defendendo a ignorância como a um corpo. Faltavam-lhe
elementos, mas não os queria de quem já os esquecera. A grande
espera fazia parte. Dentro da vastidão, maquinando.
Clarice Lispector. Preciosidade. In: Laços de Família.
Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 86-87 (com adaptações).
No trecho “Foi conversar com a empregada, antiga sacerdotisa”, do texto CG1A1, a expressão “antiga sacerdotisa”
Aexerce a função de complemento indireto de “conversar”, introduzindo uma nova personagem que participa da conversa na cozinha.
Bexerce a função sintática de aposto e se refere à expressão “a empregada”.
Cconstitui uma oração coordenada, embora não seja introduzida pela conjunção “e”.
Dfunciona sintaticamente como predicativo, uma vez que se refere ao sujeito de “Foi”.
Eclassifica-se como um vocativo, por se referir a uma possível leitora do texto.
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GabaritoB — exerce a função sintática de aposto e se refere à expressão “a empregada”.
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Função sintática de “antiga sacerdotisa” no trecho de Clarice Lispector
Gabarito: letra B. A expressão “antiga sacerdotisa” exerce a função de aposto e se refere a “a empregada”, como se comprova pela estrutura do trecho: “Foi conversar com a empregada, antiga sacerdotisa”. O termo vem entre vírgulas, logo após o substantivo “empregada”, e o explica/identifica — exatamente a definição de aposto. As demais alternativas confundem aposto com complemento indireto, oração coordenada, predicativo e vocativo, funções que o contexto não autoriza.
A chave da questão
O comando pede a função sintática de um termo isolado. Para resolver, você precisa identificar a relação que “antiga sacerdotisa” estabelece com o restante da oração. No trecho:
“Foi conversar com a empregada, antiga sacerdotisa.”
O núcleo “empregada” é um substantivo; “antiga sacerdotisa” é um sintagma nominal que vem justaposto a ele, separado por vírgula, e explica quem é essa empregada — ela é uma antiga sacerdotisa. Isso é a definição clássica de aposto explicativo: termo que se junta a outro de valor substantivo para explicá-lo, especificá-lo ou resumi-lo, sem verbo e sem conectivo.
Perceba que não há verbo de ligação entre “empregada” e “antiga sacerdotisa” (não está escrito “a empregada era antiga sacerdotisa”), o que já afasta a ideia de predicativo. Também não há preposição exigida pelo verbo “conversar” (que rege “com”), o que afasta a ideia de complemento indireto. E não há chamamento de interlocutor, o que afasta o vocativo.
Termos ligados a substantivo: Aposto (Explica/identifica nome anterior, Sem verbo de ligação, Entre vírgulas ou após dois-pontos); Predicativo (Exige verbo de ligação, Caracteriza sujeito/objeto); Vocativo (Chamamento do interlocutor, Independente na frase)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que “antiga sacerdotisa” é complemento indireto de “conversar”. Isso é um erro duplo: o complemento indireto de “conversar” já está expresso em “com a empregada” (quem conversa, conversa com alguém). “Antiga sacerdotisa” não é introduzido por preposição e não completa o sentido do verbo; ele apenas explica o termo anterior. A banca tenta confundir o candidato fazendo-o achar que todo termo após vírgula é complemento. Erro: troca de conceito (aposto por complemento indireto).
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Como demonstrado, “antiga sacerdotisa” é aposto explicativo de “a empregada”. O aposto é um termo acessório da oração, pois pode ser retirado sem prejuízo da estrutura sintática básica, mas acrescenta uma explicação ao nome a que se refere. No texto, a expressão está entre vírgulas, marca típica do aposto explicativo, e retoma diretamente o substantivo “empregada”. A alternativa está correta e é a única que identifica a função real do termo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa diz que “antiga sacerdotisa” constitui uma oração coordenada. Isso é falso: uma oração exige verbo, e “antiga sacerdotisa” é um sintagma nominal sem verbo. Não há, portanto, oração alguma — nem coordenada, nem subordinada. A banca explora a confusão entre termo da oração (aposto) e oração (estrutura com verbo). Erro: troca de conceito (aposto por oração).
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que “antiga sacerdotisa” é predicativo do sujeito de “Foi”. Para ser predicativo, seria necessário um verbo de ligação explícito ou implícito que ligasse o sujeito a uma característica — por exemplo, “ela era antiga sacerdotisa”. No trecho, não há verbo de ligação; “antiga sacerdotisa” está dentro do sintagma nominal “a empregada, antiga sacerdotisa”, funcionando como aposto, e não como predicativo (que ficaria fora do sintagma, após verbo de ligação). Erro: troca de conceito (aposto por predicativo).
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa classifica “antiga sacerdotisa” como vocativo. Vocativo é o termo usado para chamar/interpelar o interlocutor, e vem sempre isolado por vírgula, mas não se refere a um termo anterior — ele é independente na frase. No trecho, “antiga sacerdotisa” se refere a “a empregada”, que é um termo da oração, e não um chamamento. Além disso, não há nenhum indício de que a personagem esteja sendo invocada; o narrador está apenas explicando quem é a empregada. Erro: troca de conceito (aposto por vocativo).
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta na confusão entre aposto e predicativo (ambos podem caracterizar um nome) e entre aposto e vocativo (ambos podem vir entre vírgulas). A diferença decisiva: o aposto explica um termo anterior; o predicativo exige verbo de ligação; o vocativo é um chamamento sem referência a termo da oração.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar aposto, pergunte: “esse termo explica/identifica o nome anterior?” Se sim, e vier entre vírgulas ou após dois-pontos, é aposto. Se houver verbo de ligação, é predicativo. Se for um chamamento, é vocativo.