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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce130888
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ-RJ
Ano
2021
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário

Texto CG1A1

    

    Na casa vazia, sozinha com a empregada, já não andava como um soldado, já não precisava tomar cuidado. Mas sentia falta da batalha das ruas. Melancolia da liberdade, com o horizonte ainda tão longe. Dera-se ao horizonte. Mas a nostalgia do presente. O aprendizado da paciência, o juramento da espera. Do qual talvez não soubesse jamais se livrar. A tarde transformando-se em interminável e, até todos voltarem para o jantar e ela poder se tornar com alívio uma filha, era o calor, o livro aberto e depois fechado, uma intuição, o calor: sentava-se com a cabeça entre as mãos, desesperada. Quando tinha dez anos, relembrou, um menino que a amava jogara-lhe um rato morto. Porcaria! berrara branca com a ofensa. Fora uma experiência. Jamais contara a ninguém. Com a cabeça entre as mãos, sentada. Dizia quinze vezes: sou vigorosa, sou vigorosa, sou vigorosa — depois percebia que apenas prestara atenção à contagem. Suprindo com a quantidade, disse mais uma vez: sou vigorosa, dezesseis. E já não estava mais à mercê de ninguém. Desesperada porque, vigorosa, livre, não estava mais à mercê. Perdera a fé. Foi conversar com a empregada, antiga sacerdotisa. Elas se reconheciam. As duas descalças, de pé na cozinha, a fumaça do fogão. Perdera a fé, mas, à beira da graça, procurava na empregada apenas o que esta já perdera, não o que ganhara. Fazia-se pois distraída e, conversando, evitava a conversa. “Ela imagina que na minha idade devo saber mais do que sei e é capaz de me ensinar alguma coisa”, pensou, a cabeça entre as mãos, defendendo a ignorância como a um corpo. Faltavam-lhe elementos, mas não os queria de quem já os esquecera. A grande espera fazia parte. Dentro da vastidão, maquinando.

Clarice Lispector. Preciosidade. In: Laços de Família.

Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 86-87 (com adaptações). 

No trecho “Quando tinha dez anos, relembrou, um menino que a amava jogara-lhe um rato morto. Porcaria! berrara branca com a ofensa. Fora uma experiência.”, do texto CG1A1, o termo “Fora” poderia ser substituído, sem prejuízo dos sentidos do texto, por
  1. ATeria sido.
  2. BFoi.
  3. CHavia sido.
  4. DHavia tido.
  5. EHaveria sido.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Havia sido.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de 'Fora' por forma verbal equivalente no texto de Clarice Lispector

Gabarito: letra C. O termo 'Fora' (pretérito mais-que-perfeito do indicativo do verbo 'ser') pode ser substituído por 'Havia sido' (pretérito mais-que-perfeito composto) sem alteração de sentido, pois ambas as formas expressam anterioridade a um momento passado. No trecho, a narradora relembra um episódio de infância; o pluperfect indica que o evento ocorreu antes do ato de recordar. 'Havia sido' preserva exatamente esse valor temporal.

  1. 1Fora = pretérito mais-que-perfeito
  2. 2Anterioridade a outro passado
  3. 3Equivalente: Havia sido (composto)
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Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

'Teria sido' é futuro do pretérito composto (conditional perfect), indicando hipótese ou fato futuro em relação a um passado. No contexto factual do texto, essa substituição alteraria o sentido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

'Foi' é pretérito perfeito, que coloca o evento no mesmo plano temporal da narração, perdendo a noção de anterioridade. Embora na fala cotidiana seja comum, no texto literário a substituição modifica o valor temporal.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

'Havia sido' é o pretérito mais-que-perfeito composto, exatamente equivalente ao sintético 'Fora'. Ambas indicam um fato passado anterior a outro passado, mantendo o sentido original.

Alternativa D — ❌ Incorreta

'Havia tido' também é pretérito mais-que-perfeito composto, mas do verbo 'ter', alterando a estrutura de 'ser uma experiência' para 'ter uma experiência'. Isso muda sutilmente o sentido, pois a expressão original tem valor específico.

Alternativa E — ❌ Incorreta

'Haveria sido' é outra forma de conditional perfect, com o mesmo problema da alternativa A: introduz hipótese onde há fato.

Conclusão: A única equivalência perfeita é 'Havia sido', que preserva tempo, aspecto e o verbo 'ser'.

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