Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2021
- Código
- ce132004
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- TCE-RJ
- Ano
- 2021
- Nível
- Superior

- CCerto
- EErrado

GabaritoE — Errado
Gabarito: Errado (E). O item atribui ao texto uma tese defensiva — a de que ele defende o direito da população com doenças raras ou crônicas ao acesso a medicamentos de alto custo —, mas o texto é descritivo/expositivo: apresenta a judicialização como um fenômeno multifacetado, com prós e contras, sem tomar partido nem reivindicar qualquer direito. A passagem que sustenta essa leitura é a abertura:
“O fenômeno conhecido como judicialização da saúde é multifacetado.”
O adjetivo multifacetado já anuncia que o autor não vai defender um lado, e sim expor as duas faces do problema. O item, portanto, extrapola — acrescenta uma opinião/juízo que o texto não externa.
O primeiro parágrafo apresenta a dualidade do fenômeno, com o conectivo “por um lado... por outro”, que marca oposição entre duas perspectivas:
“Por um lado, as ações judiciais comprometem uma parcela significativa do orçamento para atender demandas específicas de alguns pacientes; por outro, podem significar o único caminho para salvar ou prolongar a vida de pacientes, especialmente de pessoas com doenças raras ou crônicas, como diabetes e câncer, que dependem de medicamentos de alto custo.”
Repare: o texto reconhece que, para alguns pacientes, a via judicial pode ser o único caminho — mas isso é uma constatação, não uma defesa de direito. O autor não diz “é dever do Estado fornecer”, “a população tem direito”, nem “é preciso garantir”. Ele apenas descreve um dos lados do fenômeno.
O segundo parágrafo trata do impacto orçamentário e de uma solução institucional (o consórcio intermunicipal de Santa Catarina), sempre em tom expositivo:
“A preocupação com o impacto da judicialização nos municípios é justificável.”
“Por meio do consórcio intermunicipal, criou-se um padrão comum de atuação, que evitou sobreposições de pedidos e racionalizou gastos e investimentos.”
Nenhuma dessas passagens contém verbo de defesa (defender, garantir, assegurar, reivindicar) nem juízo de valor favorável a um suposto direito. O texto informa, não argumenta a favor de uma tese.
O item comete o erro clássico de acrescentar opinião (ou extrapolar): ele pega um dado real do texto — a menção a doenças raras/crônicas e medicamentos de alto custo — e o transforma em tese defensiva que o autor não sustentou. Veja a comparação:
Elemento | Texto | Item |
|---|---|---|
Doenças raras/crônicas | citadas como exemplo de pacientes que podem depender de medicamentos de alto custo | citadas como sujeito de um direito |
Medicamentos de alto custo | citados como objeto de demandas judiciais | citados como objeto de um direito a ser defendido |
Posição do autor | neutra/descritiva (fenômeno multifacetado) | defensiva (defende o direito) |
A palavra-chave que denuncia a armadilha é “defende”. O texto não defende nada; ele descreve e explica um fenômeno. Atribuir ao autor uma posição que ele não tomou é extrapolar — e extrapolação, ainda que com dados verdadeiros, é erro de interpretação.
A banca adora transformar uma constatação em tese. O texto diz “podem significar o único caminho” (fato descrito); o item diz “defende o direito” (opinião inventada). Desconfie de verbos como defender, criticar, propor — eles só são válidos se o autor realmente tomar partido.
Antes de marcar, pergunte: “o autor defende isso ou apenas menciona?”. Se o texto é expositivo/descritivo, não há tese a defender — e qualquer alternativa que atribua posição é extrapolação.
Gabarito: letra E (Errado).
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