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Questão de Português — Ortografia — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsOrtografia
Código
ce138551
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPC-SC
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Procurador de Contas do Ministério Público

Texto 1A16-I


        Há muitas línguas na língua portuguesa. Para dar voz e rosto a culturas e religiosidades tão díspares e distantes, esse idioma passou a existir dentro e fora do seu próprio corpo. Nós, brasileiros, portugueses, angolanos, moçambicanos, caboverdianos, guineenses, santomenses, falamos e somos falados por uma língua que foi moldada para traduzir identidades que são profundamente diversas e plurais.

         Vivemos na mesma casa linguística, mas fazemos dela uma habitação cujas paredes são como as margens dos oceanos. São linhas de costa, fluidas, porosas, feitas de areia em vez de cimento. Em cada uma das divisórias dessa comum residência, mora um mesmo modo de habitar o tempo, um mesmo sentimento do mundo (nas palavras do poeta Drummond). Essa língua é feita mais de alma do que de gramática. A língua não é uma ferramenta. É uma entidade viva. Com esse idioma, construímos e trocamos diversas noções do tempo e diferentes relações entre o profano e o sagrado.

        Jorge Amado atravessou o oceano num momento em que as colônias portuguesas na África se preparavam para a luta pela independência. Na década de cinquenta do século passado, intelectuais e artistas africanos estavam ocupados em procurar a sua própria identidade individual e coletiva. Nessa altura, era clara a necessidade de rupturas com os modelos europeus. Escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe procuravam caminhos para uma escrita mais ligada à sua terra e à sua gente. Carecíamos de uma escrita que nos tomasse como não apenas autores de estórias, mas também sujeitos da sua própria história. Precisávamos de uma narrativa que nos escrevesse a nós mesmos.

         Muito se especula sobre as semelhanças entre as nações africanas e o Brasil. Essas comparações resultam muitas vezes de simplificações, mistificações e romantizações. Na maior parte das vezes, essas analogias são fundadas em estereótipos que pouco têm a ver com uma realidade que é composta por dinâmicas e complexidades que desconhecemos.

         O que é mais africano no Brasil e mais brasileiro na África não é o candomblé, não são as danças nem os tipos físicos das pessoas. O que nos torna tão próximos é o modo como, de um e de outro lado do Atlântico, aprendemos a costurar culturas e criar hibridizações. A presença africana não mora hoje apenas nos descendentes dos escravizados. Essa presença permeia todo o Brasil. Dito de outra maneira: a semelhança não está no pano. Está na costura. Está no costureiro. E esse costureiro é a história. E é a língua que partilhamos. Essa língua é, ao mesmo tempo, linha, pano e mãos tecedeiras.



Mia Couto. As infinitas margens do oceano. In: Panorama da Contribuição do Brasil para a Difusão do Português. Brasília: FUNAG, 2021, p. 421-424 (com adaptações). 

Julgue o item a seguir, considerando aspectos temáticos, estruturais e conceituais do texto 1A16-I.Dos pontos de vista lexical e sintático, o texto está de acordo com a modalidade padrão da língua portuguesa usada contemporaneamente no Brasil.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conformidade com a norma padrão no texto de Mia Couto

Gabarito: C (CERTO). O texto está de acordo com a modalidade padrão da língua portuguesa contemporânea do Brasil, tanto no léxico quanto na sintaxe. Não há desvios de ortografia, concordância, regência ou colocação pronominal que justifiquem a marcação de erro.

A questão pede uma avaliação normativa do texto: verificar se ele segue a gramática padrão. Para isso, é preciso examinar aspectos como ortografia (grafia correta das palavras), sintaxe (ordem dos termos, concordância, regência) e léxico (emprego adequado das palavras). O texto de Mia Couto, embora literário e repleto de metáforas, mantém a correção gramatical em todos esses níveis.

Análise dos aspectos cobrados

  • Ortografia: Todas as palavras estão grafadas conforme o Acordo Ortográfico vigente. Exemplos: "línguas", "portuguesa", "religiosidades", "díspares", "moldada", "habitação", "porosas", "divisórias", "costurar", "hibridizações", "costureiro", "tecedeiras". Não há erros de acentuação ou de emprego de letras.

  • Concordância verbal e nominal: As estruturas estão corretas. Veja: "Há muitas línguas" (verbo haver impessoal no singular), "Nós, brasileiros, portugueses, angolanos... falamos" (concordância com o sujeito composto), "Essa língua é feita mais de alma do que de gramática" (concordância nominal adequada), "as colônias portuguesas na África se preparavam" (sujeito no plural, verbo no plural).

  • Regência: Os verbos estão empregados com a regência correta. Exemplo: "falamos e somos falados por uma língua" (regência do verbo falar: quem fala, fala algo; quem é falado, é falado por alguém). "Carecíamos de uma escrita" (verbo carecer exige a preposição 'de'). "Precisávamos de uma narrativa" (verbo precisar exige 'de').

  • Colocação pronominal: A próclise é usada corretamente em contextos que a exigem, como após advérbios ou palavras negativas: "nos tomasse", "nos escrevesse", "se preparavam". Não há ênclise indevida.

  • Paralelismo sintático: O texto mantém estruturas paralelas, como em "não é o candomblé, não são as danças nem os tipos físicos" e "Está na costura. Está no costureiro.", o que reforça a coesão e a correção.

Por que a alternativa E (Errado) está incorreta

A alternativa E afirma que o texto não está de acordo com a norma padrão. Isso é falso, pois não há nenhum desvio gramatical. O texto é um exemplo de prosa literária que respeita integralmente a gramática normativa, mesmo utilizando linguagem figurada e recursos estilísticos.

NÃO CAIA NESSA!

Em questões de "certo/errado" sobre norma padrão, leia o texto procurando erros objetivos de ortografia, concordância, regência ou colocação. Se não encontrar nenhum, a resposta é certo. Não confunda estilo literário com erro gramatical.

Gabarito: letra C (CERTO).

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