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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce146043
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEE-PE
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Assistente Administrativo Educacional

Texto CG3A1-I


        Antes de mais nada, há a liberdade suspensiva oferecida pela caminhada, mesmo que seja um simples passeio: livrar-se da carga das preocupações, esquecer por algum tempo os afazeres. Optamos por não levar o escritório conosco: saímos, flanamos, pensamos em outras coisas. Com as excursões de vários dias, acentua-se o movimento de desapego: escapamos das obrigações do trabalho, libertamo-nos do jugo dos hábitos. Mas em que aspecto caminhar nos faria sentir essa liberdade mais do que numa longa viagem? Afinal, surgem outras limitações não menos penosas: o peso da mochila, a duração das etapas, a incerteza do tempo (ameaças de chuva ou de tempestade, calor sufocante), a rusticidade dos albergues, algumas dores... Mas só a caminhada consegue nos libertar das ilusões do indispensável. Como tal, ela permanece o reino de poderosas necessidades. Para chegar a determinada etapa, é preciso caminhar tantas horas, que correspondem a tantos passos; a improvisação é limitada, pois não estamos percorrendo caminhos de jardim e não podemos nos enganar nos entroncamentos, sob pena de pagar um preço muito alto. Quando a neblina invade a montanha ou uma chuva torrencial começa a cair, é preciso seguir, continuar. A comida e a água são objeto de cálculos precisos, em função do percurso e dos mananciais. Sem falar no desconforto. Ora, o milagre não é ficarmos felizes apesar disso, mas graças a isso. Quero dizer que não dispor de múltiplas opções de comida ou de bebida, estar submetido à grande fatalidade das condições climáticas, contar somente com a regularidade do próprio passo, tudo isso faz, de pronto, que a profusão da oferta (de mercadorias, de transportes, de conexões) e a multiplicação das facilidades (de comunicar, de comprar, de circular) nos pareçam outras tantas formas de dependência. Todas essas microlibertações não passam de acelerações do sistema, que me aprisiona com mais força. Tudo o que me liberta do tempo e do espaço me afasta da velocidade.

Frédéric Gros. Caminhar: uma filosofia.

São Paulo:Ubu Editora, 2021, p. 13-14 (com adaptações).

Acerca dos sentidos e dos mecanismos de coesão do texto CG3A1-I, julgue o próximo item.No antepenúltimo período do texto, o pronome “isso” remete às ideias expressas nas orações do segmento “não dispor de múltiplas opções de comida ou de bebida, estar submetido à grande fatalidade das condições climáticas, contar somente com a regularidade do próprio passo”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: o pronome “isso” no texto CG3A1-I

Gabarito: Certo. O pronome “isso”, no antepenúltimo período, retoma exatamente as ideias expressas nas orações do segmento “não dispor de múltiplas opções de comida ou de bebida, estar submetido à grande fatalidade das condições climáticas, contar somente com a regularidade do próprio passo”. A prova está no próprio texto: o autor escreve “tudo isso faz, de pronto, que a profusão da oferta (...) nos pareçam outras tantas formas de dependência”. O termo “tudo isso” é um resumitivo anafórico — ele condensa, numa expressão sintética, o conteúdo das três orações anteriores, que são exatamente as listadas no item.

O que a questão cobra

A banca pede que você identifique o referente de um pronome demonstrativo (“isso”) — um mecanismo clássico de coesão referencial anafórica. A anáfora ocorre quando um elemento retoma uma informação que já veio antes no texto. Aqui, o pronome “isso” (reforçado por “tudo”) não se refere a uma palavra isolada, mas a um bloco de ideias — as três orações que o antecedem imediatamente.

Veja o trecho completo:

“Ora, o milagre não é ficarmos felizes apesar disso, mas graças a isso. Quero dizer que não dispor de múltiplas opções de comida ou de bebida, estar submetido à grande fatalidade das condições climáticas, contar somente com a regularidade do próprio passo, tudo isso faz, de pronto, que a profusão da oferta (...) nos pareçam outras tantas formas de dependência.”

A estrutura é clara: o autor enumera três situações (as orações destacadas) e, em seguida, usa “tudo isso” para retomar o conjunto e atribuir-lhe um efeito (“faz que a profusão da oferta nos pareça dependência”). O pronome “isso” é, portanto, um termo resumitivo/sintético — recurso coesivo que evita a repetição e amarra o raciocínio.

Por que as demais leituras falham

  • Se “isso” se referisse a “o milagre”: o texto diz “o milagre não é ficarmos felizes apesar disso, mas graças a isso”. Aqui, “disso” e “a isso” retomam, sim, as condições da caminhada (as mesmas orações), mas o item fala do “isso” do antepenúltimo período, que é o “tudo isso” — e este, inequivocamente, retoma as três orações. Não há ambiguidade: a sequência “não dispor... estar submetido... contar somente...” é o antecedente imediato de “tudo isso”.

  • Se “isso” se referisse a “a profusão da oferta”: seria uma leitura invertida. O texto diz que “tudo isso” (as condições da caminhada) faz com que a profusão da oferta nos pareça dependência. Ou seja, “a profusão da oferta” é a consequência do que “isso” representa, não o referente do pronome.

  • Se “isso” se referisse a “as microlibertações”: o trecho “Todas essas microlibertações não passam de acelerações do sistema” vem depois do período em questão. O pronome “isso” é anafórico (retoma o que veio antes), não catafórico (não antecipa o que vem depois). Portanto, não pode se referir a um termo posterior.

A técnica para acertar

  1. Localize o pronome no texto e identifique se ele é anafórico (retoma) ou catafórico (antecipa).

  2. Procure o antecedente imediato — o termo ou oração que vem logo antes do pronome.

  3. Teste a substituição: troque o pronome pelo suposto referente e veja se a frase mantém o sentido. Aqui, “não dispor de múltiplas opções... tudo isso faz” funciona perfeitamente; “a profusão da oferta... tudo isso faz” não faz sentido lógico.

  1. 1Localize o pronome
  2. 2Anafórico ou catafórico?
  3. 3Busque o antecedente imediato
  4. 4Teste a substituição
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PEGA ESSA DICA!

Em questões de coesão referencial, desconfie de alternativas que apontam para termos distantes ou posteriores ao pronome. O referente anafórico quase sempre está logo antes — e, quando o pronome é “tudo isso”, ele resume todo o bloco anterior.

Gabarito: letra C (Certo).

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