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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce146051
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEE-PE
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Assistente Administrativo Educacional

Texto CG3A1-I


        Antes de mais nada, há a liberdade suspensiva oferecida pela caminhada, mesmo que seja um simples passeio: livrar-se da carga das preocupações, esquecer por algum tempo os afazeres. Optamos por não levar o escritório conosco: saímos, flanamos, pensamos em outras coisas. Com as excursões de vários dias, acentua-se o movimento de desapego: escapamos das obrigações do trabalho, libertamo-nos do jugo dos hábitos. Mas em que aspecto caminhar nos faria sentir essa liberdade mais do que numa longa viagem? Afinal, surgem outras limitações não menos penosas: o peso da mochila, a duração das etapas, a incerteza do tempo (ameaças de chuva ou de tempestade, calor sufocante), a rusticidade dos albergues, algumas dores... Mas só a caminhada consegue nos libertar das ilusões do indispensável. Como tal, ela permanece o reino de poderosas necessidades. Para chegar a determinada etapa, é preciso caminhar tantas horas, que correspondem a tantos passos; a improvisação é limitada, pois não estamos percorrendo caminhos de jardim e não podemos nos enganar nos entroncamentos, sob pena de pagar um preço muito alto. Quando a neblina invade a montanha ou uma chuva torrencial começa a cair, é preciso seguir, continuar. A comida e a água são objeto de cálculos precisos, em função do percurso e dos mananciais. Sem falar no desconforto. Ora, o milagre não é ficarmos felizes apesar disso, mas graças a isso. Quero dizer que não dispor de múltiplas opções de comida ou de bebida, estar submetido à grande fatalidade das condições climáticas, contar somente com a regularidade do próprio passo, tudo isso faz, de pronto, que a profusão da oferta (de mercadorias, de transportes, de conexões) e a multiplicação das facilidades (de comunicar, de comprar, de circular) nos pareçam outras tantas formas de dependência. Todas essas microlibertações não passam de acelerações do sistema, que me aprisiona com mais força. Tudo o que me liberta do tempo e do espaço me afasta da velocidade.

Frédéric Gros. Caminhar: uma filosofia.

São Paulo:Ubu Editora, 2021, p. 13-14 (com adaptações).

Considerando as ideias do texto CG3A1-I, julgue o seguinte item.Na oração “não podemos nos enganar nos entroncamentos” (oitavo período), o vocábulo “entroncamentos” transmite o mesmo sentido de adversidades, pois, no texto, refere-se às dificuldades que podem surgir ao longo da vida das pessoas.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido de "entroncamentos" no texto — a afirmação extrapola o contexto

Gabarito: Errado (E). O vocábulo "entroncamentos" não transmite o sentido de "adversidades" nem se refere a "dificuldades que podem surgir ao longo da vida das pessoas". No texto, "entroncamentos" tem sentido denotativo e espacial: são os pontos de encontro/cruzamento de caminhos, nos quais o caminhante pode se enganar e se perder. A alternativa extrapola ao generalizar o sentido para a vida das pessoas, o que o texto não autoriza.

A chave de resolução

A questão pede interpretação de sentido contextual de uma palavra. O método é voltar ao trecho e ver o que o autor está descrevendo: a caminhada, com suas limitações concretas. Veja o trecho:

"Para chegar a determinada etapa, é preciso caminhar tantas horas, que correspondem a tantos passos; a improvisação é limitada, pois não estamos percorrendo caminhos de jardim e não podemos nos enganar nos entroncamentos, sob pena de pagar um preço muito alto."

Aqui, "entroncamentos" está no campo semântico de caminhos, trilhas, percursos — são os pontos onde um caminho se bifurca ou cruza com outro. O sentido é literal/denotativo: o risco de errar o caminho físico. Não há nenhuma pista no texto de que o autor esteja falando metaforicamente de "adversidades da vida".

Por que a alternativa está errada

  • Extrapolação: a alternativa acrescenta uma interpretação que o texto não sustenta. O autor não diz que "entroncamentos" representa dificuldades da vida; ele fala de dificuldades concretas da caminhada (peso da mochila, chuva, calor, dores, e também o risco de se perder nos cruzamentos de trilhas).

  • Troca de sentido: "adversidades" é um termo genérico e abstrato; "entroncamentos" é um termo específico e concreto. Não são sinônimos no contexto.

  • Fuga ao tema: a alternativa desloca o foco do texto (a caminhada real) para uma reflexão genérica sobre a vida, o que não é o que o autor faz nesse trecho.

Conclusão

A afirmação está errada porque atribui a "entroncamentos" um sentido figurado e ampliado que o texto não apresenta. O vocábulo mantém seu sentido próprio, ligado ao percurso físico da caminhada.

Gabarito: letra E (Errado).

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