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Questão de Português — Morfologia — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsMorfologia
Código
ce146520
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEE-PE
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Professor - Língua Portuguesa
Texto 10A1-I

    A discussão sobre um gênero neutro na linguagem deriva do uso do gênero gramatical masculino para denotar homens e mulheres (Todos nessa sala de aula devem entregar o trabalho.) e do feminino específico (Clarice Lispector é incluída pela crítica especializada entre os principais autores brasileiros do século 20.).
     Na gramática, o uso do masculino genérico é visto como gênero não marcado, ou seja, usá-lo não dá a entender que todos os sujeitos sejam homens ou mulheres — ele é inespecífico. Por ser algo cotidiano, é difícil pensar nas implicações políticas de empregar o masculino genérico, mas o tema foi amplamente discutido por especialistas como uma forma de marcar a hierarquização de gêneros na sociedade, priorizando o homem e invisibilizando a mulher. O masculino genérico é chamado, inclusive, de falso neutro.
    Entretanto, essa abordagem não é unânime no campo da linguística. Para muitos estudiosos, a interpretação sexista do masculino genérico ignora as origens latinas da língua portuguesa.
     No latim havia três designações: feminina, masculina e neutra. As formas neutras de adjetivos e substantivos no latim acabaram absorvidas por palavras de gênero masculino. A única marcação de gênero no português é o feminino. O neutro estaria, portanto, junto ao masculino.
    O Brasil não é o único país onde a linguagem neutra é discutida. Alguns setores acadêmicos, instituições de ensino e ativistas estadunidenses já consideram usar pronome neutro para se referir a todos, em vez de recorrer à demarcação de gênero binário.
    Especialistas avaliam que a modificação gramatical em línguas latinas pode ser muito mais complexa e custosa do que no inglês ou no alemão, em que já está em uso o gênero neutro, porque as línguas anglo-saxônicas em si já oferecem essa opção.
     Segundo especialistas, esse tipo de inovação é mais fácil de ocorrer no inglês, em que, com exceção daquelas palavras herdadas do latim, como actor (ator) e actress (atriz), a flexão de gênero não altera os substantivos e adjetivos. No caso do português, essa transformação não depende apenas da alteração de um pronome, porque a flexão de gênero afeta todo o sintagma nominal. Assim, a flexão de gênero é demarcada pela vogal temática a ou o (como em pesquisadoras brasileiras) e(ou) por meio do artigo a ou o (como em a intérprete).
     Mesmo com os desafios morfológicos, linguistas afirmam que não é impossível pensar em proposições mais inclusivas, e que isso não necessariamente significa que haja uma tentativa de destruição do português. Segundo explicam esses especialistas, a história de uma língua sempre conta muito sobre a história de seus falantes, de modo que as coisas que falamos hoje em dia não brotaram da terra nem vieram prontas, mas dependem da nossa história como humanidade. Nesse sentido, as propostas já existentes seriam os primeiros passos nesse movimento, e não uma forma final a ser imposta a todos os falantes.  

 Internet: <https://tab.uol.com.br> (com adaptações).
Acerca de aspectos linguísticos do texto 10A1-I, julgue o item que se segue.A palavra “movimento” (último período do texto) constitui exemplo de palavra formada por derivação imprópria.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Derivação imprópria: por que “movimento” não é exemplo dela

Gabarito: Errado (E). A palavra “movimento” não é formada por derivação imprópria, pois não houve mudança de classe gramatical — ela é um substantivo e continua substantivo. O que ocorre é uma derivação sufixal (ou regressiva, conforme a análise): o substantivo “movimento” deriva do verbo “mover” com acréscimo do sufixo -mento. A derivação imprópria (conversão) exige que a palavra mude de classe sem alterar a forma, o que não acontece aqui.

O que é derivação imprópria?

Derivação imprópria (ou conversão) é o processo em que uma palavra muda de classe gramatical sem sofrer alteração na forma — não há acréscimo de prefixo ou sufixo. O que muda é apenas a função e o sentido no contexto. Exemplos clássicos:

  • Substantivação: “O porém da questão” (conjunção → substantivo); “O jantar estava ótimo” (verbo → substantivo).

  • Adjetivo → advérbio: “Falou alto” (adjetivo funcionando como advérbio).

  • Particípio → substantivo: “O feito histórico” (particípio → substantivo).

No texto, a palavra “movimento” aparece no último período: “as propostas já existentes seriam os primeiros passos nesse movimento”. Ela é um substantivo que designa o processo de mudança linguística — não houve conversão de classe.

Por que “movimento” é derivação sufixal (ou regressiva)?

A palavra “movimento” é formada a partir do verbo mover (ou do substantivo “movimento” já existente). Veja a análise morfológica:

  • Radical: mov- (de “mover”)

  • Sufixo: -mento (formador de substantivos a partir de verbos, como em “falamento”, “sofrimento”)

Assim, temos derivação sufixal: mover + -mento → movimento. Alguns gramáticos também classificam como derivação regressiva, pois o substantivo abstrato “movimento” indica ação/resultado de “mover”, mas a forma com sufixo é a mais aceita. Em qualquer caso, não é derivação imprópria, pois a palavra mantém a classe substantiva e há acréscimo de morfema.

A pegadinha da banca

A banca tenta fazer o candidato confundir derivação imprópria com derivação sufixal/regressiva. A derivação imprópria é um processo sem acréscimo de afixos; “movimento” tem sufixo -mento, o que já descarta a imprópria. Além disso, a palavra não mudou de classe: continua substantivo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre derivação imprópria (mudança de classe sem alteração formal) e derivação sufixal (acréscimo de sufixo). “Movimento” tem sufixo -mento e permanece substantivo — logo, não é imprópria.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar derivação imprópria, pergunte: “a palavra mudou de classe gramatical?” Se sim, e sem acréscimo de afixo, é imprópria. Se há sufixo/prefixo, é derivação prefixal/sufixal/parassintética.

Gabarito: letra E (Errado).

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