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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsSintaxe
Código
ce146525
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEE-PE
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Professor - Língua Portuguesa
Texto 10A1-I

    A discussão sobre um gênero neutro na linguagem deriva do uso do gênero gramatical masculino para denotar homens e mulheres (Todos nessa sala de aula devem entregar o trabalho.) e do feminino específico (Clarice Lispector é incluída pela crítica especializada entre os principais autores brasileiros do século 20.).
     Na gramática, o uso do masculino genérico é visto como gênero não marcado, ou seja, usá-lo não dá a entender que todos os sujeitos sejam homens ou mulheres — ele é inespecífico. Por ser algo cotidiano, é difícil pensar nas implicações políticas de empregar o masculino genérico, mas o tema foi amplamente discutido por especialistas como uma forma de marcar a hierarquização de gêneros na sociedade, priorizando o homem e invisibilizando a mulher. O masculino genérico é chamado, inclusive, de falso neutro.
    Entretanto, essa abordagem não é unânime no campo da linguística. Para muitos estudiosos, a interpretação sexista do masculino genérico ignora as origens latinas da língua portuguesa.
     No latim havia três designações: feminina, masculina e neutra. As formas neutras de adjetivos e substantivos no latim acabaram absorvidas por palavras de gênero masculino. A única marcação de gênero no português é o feminino. O neutro estaria, portanto, junto ao masculino.
    O Brasil não é o único país onde a linguagem neutra é discutida. Alguns setores acadêmicos, instituições de ensino e ativistas estadunidenses já consideram usar pronome neutro para se referir a todos, em vez de recorrer à demarcação de gênero binário.
    Especialistas avaliam que a modificação gramatical em línguas latinas pode ser muito mais complexa e custosa do que no inglês ou no alemão, em que já está em uso o gênero neutro, porque as línguas anglo-saxônicas em si já oferecem essa opção.
     Segundo especialistas, esse tipo de inovação é mais fácil de ocorrer no inglês, em que, com exceção daquelas palavras herdadas do latim, como actor (ator) e actress (atriz), a flexão de gênero não altera os substantivos e adjetivos. No caso do português, essa transformação não depende apenas da alteração de um pronome, porque a flexão de gênero afeta todo o sintagma nominal. Assim, a flexão de gênero é demarcada pela vogal temática a ou o (como em pesquisadoras brasileiras) e(ou) por meio do artigo a ou o (como em a intérprete).
     Mesmo com os desafios morfológicos, linguistas afirmam que não é impossível pensar em proposições mais inclusivas, e que isso não necessariamente significa que haja uma tentativa de destruição do português. Segundo explicam esses especialistas, a história de uma língua sempre conta muito sobre a história de seus falantes, de modo que as coisas que falamos hoje em dia não brotaram da terra nem vieram prontas, mas dependem da nossa história como humanidade. Nesse sentido, as propostas já existentes seriam os primeiros passos nesse movimento, e não uma forma final a ser imposta a todos os falantes.  

 Internet: <https://tab.uol.com.br> (com adaptações).
Acerca de aspectos linguísticos do texto 10A1-I, julgue o item que se segue.Dadas as possibilidades de interpretação e de regência do verbo “pensar” (segundo período do segundo parágrafo), a coerência e a correção gramatical do texto seriam mantidas caso se retirasse a preposição em da contração “nas”, deixando-se, portanto, só o artigo definido feminino plural nesse caso.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

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Regência do verbo “pensar” e a retirada da preposição em “nas”

Gabarito: letra C (CERTO). A retirada da preposição em da contração “nas” — deixando apenas o artigo definido feminino plural “as” — mantém a coerência e a correção gramatical do texto, porque o verbo “pensar”, na acepção de “refletir, considerar”, admite tanto a regência transitiva indireta (pensar em algo) quanto a transitiva direta (pensar algo). No trecho, a mudança não altera o sentido essencial nem quebra a estrutura sintática.

A chave da questão

O enunciado pede que você julgue se a supressão da preposição em “nas implicações políticas” (segundo período do segundo parágrafo) preservaria a coerência e a correção. Para decidir, é preciso analisar a regência do verbo “pensar” no contexto.

No texto, lê-se:

“é difícil pensar nas implicações políticas de empregar o masculino genérico”

O verbo “pensar” está empregado com o sentido de “refletir, considerar, ter em mente”. Nessa acepção, a norma culta admite duas construções:

  • Transitivo indireto: pensar em algo — “pensar nas implicações”.

  • Transitivo direto: pensar algo — “pensar as implicações”.

Ambas são corretas e equivalentes em sentido. Portanto, retirar a preposição “em” e manter o artigo “as” (que passaria a ser o núcleo do objeto direto) não gera erro gramatical nem compromete a coerência.

Por que a alternativa está correta

A banca afirma que a retirada da preposição é possível. Isso é verdadeiro porque o verbo “pensar”, no sentido de “refletir”, é bitransitivo — aceita tanto objeto direto quanto indireto. A norma padrão registra:

  • “Pensar em alguma coisa” (VTI) — uso mais comum.

  • “Pensar alguma coisa” (VTD) — uso também consagrado, especialmente com o sentido de “considerar, avaliar”.

Assim, a frase reescrita ficaria:

“é difícil pensar as implicações políticas”

A construção é gramatical e mantém o sentido. Não há prejuízo à coerência, pois o complemento continua claro.

O que a banca testa

A questão explora a regência verbal e a possibilidade de variação sem alteração de sentido. É uma pegadinha clássica: o candidato pode achar que a preposição é obrigatória, mas o verbo “pensar” admite as duas regências.

Regência do verbo "pensar"
  • 1Sentido: refletir, considerar
    • Transitivo indireto — pensar em algo
    • Transitivo direto — pensar algo
  • 2Reescrita do trecho
    • Original: pensar nas implicações
    • Retirada da preposição: pensar as implicações
      • Mantém correção
      • Mantém coerência
LEVEL · soulevel.com.br
NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a falsa ideia de que “pensar” exige sempre a preposição “em”. Na verdade, no sentido de “refletir”, o verbo aceita objeto direto, o que torna a retirada da preposição perfeitamente válida.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens de reescrita, verifique se o verbo admite mais de uma regência. Verbos como “pensar”, “esquecer”, “lembrar” e “aspirar” têm usos variáveis conforme o sentido.

Conclusão: o item está CERTO, pois a retirada da preposição “em” de “nas” mantém a correção gramatical e a coerência, já que “pensar” também se constrói como transitivo direto.

Gabarito: letra C

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