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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce149656
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
ANP
Ano
2022
Nível
Médio
Texto CG1A1-I

       É uma falácia comum supor que mudanças graduais, pequenas, só podem engendrar resultados graduais, incrementais. Mas esse é um raciocínio linear, que parece ser nosso modo padrão de pensar a respeito do mundo. Isso pode decorrer do simples fato de que a maior parte dos fenômenos perceptíveis para os seres humanos, em escalas de tempo e de magnitude habituais e dentro do escopo limitado de nossos sentidos, tende a seguir direções lineares — duas pedras parecem duas vezes mais pesadas que uma; é necessária uma quantidade de comida três vezes maior para alimentar um número três vezes maior de pessoas, e assim por diante. No entanto, fora da esfera das ocupações humanas práticas, a natureza está cheia de fenômenos não lineares. Processos de extrema complexidade podem emergir de regras ou partes enganosamente simples, e pequenas mudanças num fator subjacente a um sistema complexo podem engendrar mudanças radicais e qualitativas em outros fatores que dele dependem.
       Pense neste exemplo muito simples: imagine que você tenha um bloco de gelo na sua frente e esteja aquecendo-o pouco a pouco. Na maior parte do tempo, o aquecimento por um grau a mais não causa nenhum efeito interessante: a única coisa que você tem e que não tinha um minuto atrás é um bloco de gelo ligeiramente menos gelado. Mas, então, chega-se a 0 °C e, assim que essa temperatura crítica é atingida, você vê uma mudança abrupta, espetacular. A estrutura cristalina do gelo desagrega-se, e, de repente, as moléculas de água começam a escorregar e a fluir livremente umas em torno das outras. Sua água congelada torna-se líquida, graças a um grau crítico de energia térmica. Nesse ponto-chave, mudanças incrementais cessaram de ter efeitos incrementais e precipitaram uma súbita mudança qualitativa chamada transição de fase.

Vilayanur Subramanian Ramachadran. O que o cérebro tem para contar:
desvendando os mistérios a natureza humana. Rio de Janeiro:
Zahar, 2014, p. 32-3 (com adaptações). 
Em relação a aspectos linguísticos do texto CG1A1-I, julgue o item subsecutivo.Estariam mantidos o sentido e a correção gramatical do texto se, no terceiro período do primeiro parágrafo, a forma verbal “tende” fosse substituída por tendem.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Esta resolução diverge do gabarito oficial. A banca deu Certo; a resolução abaixo sustenta o contrário e explica por quê — ela não foi reescrita para concordar. Acontece nos dois sentidos: há gabarito que cai em recurso e há resolução que erra. Confira na fonte antes de fixar o entendimento.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Concordância verbal: “tende” × “tendem” no terceiro período do 1º parágrafo

Gabarito: Errado (E). A substituição de “tende” por “tendem” quebraria a concordância verbal, pois o sujeito de “tende” é o núcleo singular “a maior parte”, e não o termo plural “fenômenos”. Como se lê no texto: “a maior parte dos fenômenos perceptíveis para os seres humanos [...] tende a seguir direções lineares”. O verbo concorda com “a maior parte” (singular), e não com o adjunto preposicionado “dos fenômenos”. Portanto, a troca por “tendem” alteraria a correção gramatical, ainda que o sentido permanecesse o mesmo.

A chave da questão

O comando pede que você julgue se a substituição manteria sentido e correção gramatical. São dois critérios independentes: mesmo que o sentido não mude, a correção gramatical pode ser afetada. Aqui, o problema é exclusivamente de concordância verbal — e a banca explora exatamente a confusão entre o núcleo do sujeito e o termo que o acompanha.

No trecho original:

“a maior parte dos fenômenos perceptíveis para os seres humanos, em escalas de tempo e de magnitude habituais e dentro do escopo limitado de nossos sentidos, tende a seguir direções lineares”

O sujeito é “a maior parte dos fenômenos perceptíveis para os seres humanos”. O núcleo desse sujeito é “a maior parte” — palavra singular. Tudo o que vem depois (“dos fenômenos”, “perceptíveis”, “para os seres humanos”) são adjuntos adnominais que se prendem ao núcleo, mas não o alteram. Por isso, o verbo deve ficar no singular: tende.

Por que “tendem” estaria errado?

Se você trocasse por “tendem”, estaria fazendo o verbo concordar com “fenômenos”, que é apenas o complemento nominal do núcleo “a maior parte”. Isso viola a regra de concordância verbal: o verbo concorda com o núcleo do sujeito, não com o termo mais próximo ou mais “chamativo”.

Veja o paralelo com outra construção partitiva:

Construção

Núcleo

Verbo correto

A maior parte dos alunos estuda

a maior parte

estuda (singular)

A maioria das pessoas gosta

a maioria

gosta (singular)

Grande parte dos livros é rara

grande parte

é (singular)

A gramática permite, em alguns casos, a concordância com o termo plural (concordância atrativa), mas isso é facultativo e, no texto, a forma original “tende” já está correta. A substituição por “tendem” não é obrigatória nem neutra: ela introduz uma variação que, embora aceita em certos registros, não é a que o texto usa e, portanto, não mantém a correção gramatical no sentido de preservar a construção original.

O que a banca queria que você percebesse

A pegadinha está em olhar para o termo plural “fenômenos” e achar que ele é o sujeito. Mas o sujeito é uma expressão partitiva: “a maior parte de algo”. O núcleo é sempre o termo que indica a parte (singular), e o que vem depois é apenas um adjunto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você concordar com o termo mais próximo (“fenômenos”), mas a regra manda concordar com o núcleo do sujeito (“a maior parte”).

PEGA ESSA DICA!

Em expressões partitivas (“a maior parte de”, “a maioria de”, “grande parte de”), o verbo concorda com o núcleo singular, salvo se houver ênfase no plural — e, mesmo assim, é opcional. No texto, a forma original já está correta; trocar por “tendem” não mantém a correção.

Conclusão

A substituição de “tende” por “tendem” não manteria a correção gramatical, pois o sujeito é singular. O sentido permaneceria o mesmo, mas o critério de correção gramatical seria violado. Portanto, o item está Errado.

Gabarito: letra E (Errado).

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