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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsSintaxe
Código
ce149861
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
DPE-DF
Ano
2022
Nível
Superior
      Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas agora não”. Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: “Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem mais porteiros, cada um mais poderoso que o outro. O camponês não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com os seus pedidos. O homem, que se havia equipado para a viagem com muitas coisas, lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo. Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime. “O que é que você ainda quer saber?”, pergunta o porteiro. “Você é insaciável.” “Todos aspiram à lei”, diz o homem. “Como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?” O porteiro percebe que o homem já está no fim e, para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: “Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a”. 


Franz Kafka. O processo. Tradução de Modesto Carone. Companhia das Letras, 1997 (com adaptações).
Com referência às ideias, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir.A locução “Uma vez que”, que inicia o período “Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para o interior através da porta”, foi empregada no sentido de conformidade.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido de “Uma vez que” no texto de Kafka

Gabarito: Errado (E). A locução “Uma vez que” foi empregada com valor de causa, e não de conformidade. No trecho, ela introduz a razão pela qual o homem se inclina para o interior da porta: “Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para o interior através da porta”. A ideia é: porque a porta está aberta e o porteiro se afasta, o homem se inclina. Conformidade seria “conforme”, “como”, “segundo” — algo que expressa acordo ou modo, o que não ocorre aqui.

A chave de resolução

A questão pede que se julgue a afirmação sobre o valor semântico da locução. Não se trata de interpretação de sentido figurado, mas de reconhecimento do valor do conectivo no contexto. O comando é de compreensão — a resposta está na relação lógica que a locução estabelece entre as orações.

A locução “uma vez que” é polissêmica: pode ter valor de causa (quando equivale a “já que”, “porque”) ou de tempo (quando equivale a “logo que”, “assim que”). No texto, o valor é claramente causal: a circunstância de a porta estar aberta e o porteiro se pôr de lado é a causa que leva o homem a se inclinar. Não há qualquer noção de conformidade (acordo, modo, “conforme”).

“Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para o interior através da porta.”

A oração introduzida por “uma vez que” explica por que o homem age: é porque a porta está aberta e o porteiro se afasta. Se fosse conformidade, o sentido seria “conforme a porta está aberta, o homem se inclina” — o que não faz sentido lógico. A relação é de causa e consequência: causa (porta aberta + porteiro de lado) → consequência (homem se inclina).

"Uma vez que"
  • 1Valores possíveis
    • Causa (já que, porque)
    • Tempo (logo que, assim que)
  • 2No texto de Kafka
    • Não é conformidade
    • É causa
      • Porta aberta + porteiro de lado
      • → homem se inclina
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Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmativa diz que “Uma vez que” foi empregada no sentido de conformidade. Isso está errado: o valor é de causa. A banca explora a confusão entre os valores possíveis da locução, mas o contexto desfaz a ambiguidade: a relação entre as orações é de causa, não de conformidade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o valor do conectivo — apresenta “conformidade” quando o texto exige “causa”. A armadilha está em o candidato conhecer um dos usos de “uma vez que” (tempo) e não perceber que, aqui, o valor é causal.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o valor de um conectivo, substitua-o por outro de mesmo valor e veja se o sentido se mantém. Troque “uma vez que” por “já que” ou “porque”: se fizer sentido, é causa. Troque por “conforme”: se não fizer, não é conformidade.

Gabarito: letra E — o item está errado, pois a locução tem valor de causa, não de conformidade.

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