Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce151137
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEE-PE
Ano
2022
Nível
Superior

Texto CG1A1-I


  Considerado o principal idealizador das grandes mudanças que marcaram a educação brasileira no século 20, Anísio Teixeira (1900-1971) foi pioneiro na implantação de escolas públicas de todos os níveis, que refletiam seu objetivo de oferecer educação gratuita para todos. A marca do pensador Anísio era uma atitude de inquietação permanente diante dos fatos, considerando a verdade não como algo definitivo, mas que se busca continuamente.  

   O mundo em transformação requer um novo tipo de homem, consciente e bem-preparado para resolver seus próprios problemas, acompanhando a tríplice revolução da vida atual: intelectual, pelo incremento das ciências; industrial, pela tecnologia; e social, pela democracia. Essa concepção exige, segundo Anísio, “uma educação em mudança permanente, em permanente reconstrução”.

  As novas responsabilidades da escola eram, portanto, educar em vez de instruir; formar homens livres em vez de homens dóceis; preparar para um futuro incerto em vez de transmitir um passado claro; e ensinar a viver com mais inteligência, mais tolerância e mais felicidade. Para isso, seria preciso reformar a escola, começando-se por dar a ela uma nova visão da psicologia infantil.

 O próprio ato de aprender, dizia Anísio, durante muito tempo significou simples memorização; depois seu sentido passou a incluir a compreensão e a expressão do que fora ensinado; por último, envolveu algo mais: ganhar um modo de agir. Só aprendemos quando assimilamos uma coisa de tal jeito que, chegado o momento oportuno, sabemos agir de acordo com o aprendido.

   Para o pensador, não se aprendem apenas ideias ou fatos, mas também atitudes, ideais e senso crítico — desde que a escola disponha de condições para exercitá-los. Assim, uma criança só pode praticar a bondade em uma escola onde haja condições reais para desenvolver o sentimento. A nova psicologia da aprendizagem obriga a escola a se transformar num local onde se vive, e não em um centro preparatório para a vida. Como não aprendemos tudo o que praticamos, e sim aquilo que nos dá satisfação, o interesse do aluno deve orientar o que ele vai aprender. Portanto, é preciso que ele escolha suas atividades.

   Para ser eficiente, dizia Anísio, a escola pública para todos deve ser de tempo integral para professores e alunos, como a escola parque, por ele fundada em 1950, em Salvador, que mais tarde inspirou os centros integrados de educação pública (CIEP) do Rio de Janeiro e as demais propostas de escolas de tempo integral que se sucederam. Cuidando da higiene e saúde da criança, bem como da sua preparação para a cidadania, essa escola é apontada como solução para a educação básica no livro Educação não é privilégio. Além de integral, pública, laica e obrigatória, ela deveria ser também municipalizada, para atender aos interesses de cada comunidade. O ensino público deveria ser articulado numa rede até a universidade.

 Márcio Ferrari. Anísio Teixeira, o inventor da escola pública no Brasil. In: Revista Nova Escola, jul./2008 (com adaptações). 

Em relação ao texto CG1A1-I, às ideias nele expressas e à sua construção, julgue o item a seguir.Infere-se do texto que Anísio Teixeira era um pensador que desvalorizava o aprendizado de conteúdos, tendo ressaltado, em seu trabalho na educação, a proeminência da prática no processo de ensino-aprendizagem.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência sobre a valorização de conteúdos por Anísio Teixeira

Gabarito: letra E (ERRADO). O item está errado porque o texto não autoriza a inferência de que Anísio Teixeira desvalorizava o aprendizado de conteúdos. Pelo contrário, o texto afirma que se aprendem não apenas ideias ou fatos, mas também atitudes, ideais e senso crítico — ou seja, os conteúdos (ideias e fatos) são valorizados, e a prática é um complemento, não uma substituição. A passagem que sustenta essa leitura é:

"Para o pensador, não se aprendem apenas ideias ou fatos, mas também atitudes, ideais e senso crítico — desde que a escola disponha de condições para exercitá-los."

Aqui, "não apenas... mas também" indica adição: os conteúdos continuam sendo aprendidos, e a eles se somam atitudes e valores. A prática é um meio de aprender esses elementos, não uma negação do conteúdo.

Análise do item

O comando pede uma inferência ("Infere-se do texto"), ou seja, uma dedução ancorada em pistas textuais. Para ser válida, a inferência precisa ser obrigatória — o texto deve conduzir a ela. No caso, a dedução proposta é uma extrapolação: o texto valoriza a prática, mas não diz que o conteúdo é desprezado. Vejamos os trechos que mostram o equilíbrio entre conteúdo e prática:

  • O texto diz que a escola deve "educar em vez de instruir", mas isso não significa abandonar o conteúdo — significa ir além da mera instrução.

  • O ato de aprender, segundo Anísio, evoluiu da "simples memorização" para a "compreensão e expressão" e, por fim, para "ganhar um modo de agir". Ou seja, o conteúdo é a base; a prática é a aplicação.

  • A frase "Só aprendemos quando assimilamos uma coisa de tal jeito que, chegado o momento oportuno, sabemos agir de acordo com o aprendido" mostra que o aprendizado inclui o saber agir, mas não exclui o conteúdo assimilado.

Portanto, a afirmação de que Anísio "desvalorizava o aprendizado de conteúdos" é uma generalização indevida: o texto valoriza a prática sem desvalorizar o conteúdo. A banca tentou fazer o candidato acreditar que a ênfase na prática implicava desprezo pelo conteúdo, mas isso não está no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — o texto fala da importância da prática, e o candidato infere que o conteúdo é desprezado. Mas o texto diz "não se aprendem apenas ideias ou fatos, mas também atitudes", ou seja, há adição, não oposição.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, desconfie de palavras absolutas como "desvalorizava" e "proeminência". O texto pode valorizar algo sem desvalorizar o outro. Procure no texto se há alguma passagem que obrigue à conclusão proposta; se não houver, é extrapolação.

Conclusão: o item está errado porque a inferência proposta não é sustentada pelo texto. O texto valoriza a prática, mas não desvaloriza o conteúdo — pelo contrário, afirma que se aprendem "ideias ou fatos" e também atitudes. Gabarito: letra E (ERRADO).

Link permanente: /questoes/ce151137