Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsSintaxe
Código
ce156821
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MRE
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Oficial de Chancelaria
Texto 1A1-II


       Como é possível que hoje, amanhã ou depois tornem a falar em crise ministerial, venho sugerir aos meus amigos um pequeno obséquio. Refiro-me à inclusão de meu nome nas listas de ministérios, que é de costume publicar anonimamente, com endereço ao imperador.

      Há de parecer esquisito que eu, até aqui pacato, solicite uma fineza destas que trescala a pura ambição. Explico-me com duas palavras e deixo de lado outras duas que também podiam ter muito valor, mas que não são a causa do meu pedido. (...)

       A primeira coisa é toda subjetiva; é para ter o gosto de reter o meu nome impresso, entre outros seis, para ministro de Estado. Ministro de quê? De qualquer coisa: contanto que o meu nome figure, importa pouco a designação. Ainda que fosse de verdade, eu não faria questão de pastas, quanto mais não sendo. Quero só o gosto; é só para ler de manhã, sete ou oito vezes, e andar com a folha no bolso, tirá-la de quando em quando, e ler para mim. E saborear comigo o prazer de ver o meu nome designado para governar.

         Agora a segunda coisa, que é menos recôndita. Tenho alguns parentes, vizinhos e amigos, uns na corte e outros no interior, e desejava que eles lessem o meu nome nas listas ministeriais, pela importância que isto me daria. Creia o leitor que só a presença do nome na lista me faria muito bem. Faz-se sempre bom juízo de um homem lembrado, em papéis públicos, para ocupar um lugar nos conselhos da coroa, e a influência da gente cresce. Eu, por exemplo, que nunca alcancei dar certa expressão ao meu estilo, pode ser que a tivesse daí em diante; expressão no estilo e olhos azuis na casa. Tudo isso por uma lista anônima, assinada — Um brasileiro ou A Pátria.

          (...)

          Eia. Venha de lá esse obséquio! Que diabo, custa pouco e rende muito! Porque a gratidão de um coração honesto é moeda preciosíssima. Mas pode render ainda mais. Sim, suponhamos, não digo que aconteça assim mesmo; mas suponhamos que o imperador, ao ler o meu nome, diga consigo que bem podia experimentar os meus talentos políticos e administrativos e inclua o meu nome no novo gabinete. Pelo amor de Deus, não me atribuam a afirmação de um tal caso; digo só que pode acontecer. E pergunto, dado que assim seja, se não é melhor ter no ministério um amigo, antes do que um inimigo ou um indiferente?

           Não cobiço tanto, contento-me com ser lembrado. Terei sido ministro relativamente.

Machado de Assis. Balas de estalo. In: Crônicas escolhidas de Machado de Assis. Coleção Folha Não Dá pra Não Ler. São Paulo: Ática, 1994, p. 60-62 (com adaptações).
Assinale a opção correta acerca do emprego do vocábulo “que” no segundo parágrafo do texto 1A1-II.
  1. ANas suas três últimas ocorrências no parágrafo, esse vocábulo poderia ser substituído por as quais, sem prejuízo da correção gramatical do texto.
  2. BNas suas duas últimas ocorrências no parágrafo, esse vocábulo retoma o mesmo termo.
  3. CNa sua primeira ocorrência no parágrafo, esse vocábulo introduz uma oração adjetiva com sentido explicativo.
  4. DNa sua última ocorrência no parágrafo, esse vocábulo introduz uma oração adverbial com sentido de oposição.
  5. EEm todas as suas ocorrências no parágrafo, esse vocábulo exerce a mesma função sintática.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Nas suas duas últimas ocorrências no parágrafo, esse vocábulo retoma o mesmo termo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise do vocábulo "que" no 2º parágrafo

Gabarito: Letra B. No segundo parágrafo, as duas últimas ocorrências de "que" ("que também podiam ter muito valor" e "que não são a causa do meu pedido") retomam o mesmo termo "outras duas" (palavras). O texto explicita:

"deixo de lado outras duas que também podiam ter muito valor, mas que não são a causa do meu pedido"

Ambos são pronomes relativos com antecedente "outras duas" (palavras).


Alternativa A — ❌ Incorreta

As três últimas ocorrências são: 2ª ("destas que trescala"), 3ª e 4ª (as duas acima). A 2ª tem antecedente singular "uma fineza destas", e a substituição por "as quais" exigiria o plural ("as quais") — o que quebra a concordância. Portanto, não é possível sem prejuízo gramatical.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como demonstrado, as duas últimas ocorrências (3ª e 4ª) referem-se ambas a "outras duas" (palavras). Retomam o mesmo termo, sendo, portanto, corretas.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A primeira ocorrência de "que" ("que eu, até aqui pacato, solicite uma fineza") introduz uma oração subordinada substantiva (sujeito de "parecer esquisito"), e não uma oração adjetiva. É uma conjunção integrante.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Na última ocorrência, "que" é pronome relativo e introduz uma oração adjetiva (restringe "outras duas"). A oposição é marcada pela conjunção "mas", e não pelo "que". Oração adverbial com sentido de oposição seria introduzida por "embora", "conquanto", etc.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A primeira ocorrência exerce função de conjunção integrante (sem função sintática na oração subordinada), enquanto as demais são pronomes relativos com função de sujeito nas respectivas orações adjetivas. Funções sintáticas diferentes.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta confundir o candidato quanto à referência e à classificação do "que". Na alternativa A, exige perceber a concordância de número; na C e D, a troca de classe (conjunção × pronome) e de oração (substantiva × adjetiva × adverbial).

PEGA ESSA DICA!

Para resolver questões sobre "que", identifique sempre se há um antecedente (pronome relativo) ou se ele inicia uma oração sem antecedente (conjunção). Verifique também a concordância verbal no interior da oração relativa para confirmar o número do antecedente.

Conclusão: A única alternativa que se sustenta com base no texto é a B. As demais ou contradizem a classificação gramatical do "que" ou impõem substituições que alteram a correção.

NÃO CAIA NESSA!

Sujeito nunca tem preposição

Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.

— Sintaxe — identificação do sujeito

Link permanente: /questoes/ce156821