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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce156826
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MRE
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Oficial de Chancelaria
Texto 1A1-I


           Machado de Assis viria a sofrer, no governo do presidente Prudente de Morais, o que considerou uma grave injustiça. Julgando lhe ser agradável e querendo deixar-lhe mais tempo livre para seus trabalhos literários, o novo ministro, Sebastião Eurico Gonçalves de Lacerda — pai do grande tribuno parlamentar Maurício de Lacerda e avô de Carlos Lacerda — resolveu substituir Machado de Assis na Diretoria de Viação, que então ocupava, deixando-o como simples adido à Secretaria de Estado, percebendo os vencimentos que lhe competissem. Machado ficou muito magoado, achando que o ministro o julgara um inútil. Queixou-se muito, em cartas aos amigos, não se conformando em ficar de braços cruzados, ganhando o dinheiro da nação sem trabalhar. Foi durante esse período que escreveu uma de suas obras-primas, Dom Casmurro; sempre demonstrara, em seus romances, contos e crônicas, profunda aversão aos parasitas. E era sincero. Não queria ser um deles. E não sossegou enquanto não voltou à atividade, embora diminuído funcionalmente: de diretor de um departamento, passou a ser simples secretário do ministro Severino Vieira. Quando este se demitiu, no governo de Campos Sales, para candidatar-se ao governo da Bahia, o ministro da justiça, Epitácio Pessoa, nomeado para substituir interinamente Severino Vieira, não se deu bem com Machado de Assis. Jovem, irrequieto, Epitácio estava então veraneando em Petrópolis. Pela manhã, atendia ao expediente da pasta da justiça. À tarde, ia para o outro ministério, onde Machado de Assis lhe fazia minuciosas exposições sobre cada assunto, apresentando-lhe em seguida as minutas dos despachos. Epitácio queria sempre abreviar as exposições, a fim de não perder a barca que saía da Prainha para Mauá, no fundo da baía, de onde, nos fins do século XIX, partia o trem para Petrópolis. Algumas vezes perdeu a barca, só tomando a segunda e chegando à casa já em plena noite. Por isso, um dia disse a respeito de Machado: “Grande escritor, mas péssimo secretário!”. Talvez Machado, sem o dizer, pensasse a mesma coisa de Epitácio: “Moço inteligente, mas muito afobado para ser um bom ministro!”.

        Machado passou vários anos constrangido e humilhado até encontrar, em Lauro Müller — o grande ministro da viação que iniciou as obras do Porto do Rio de Janeiro e fez construir a Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco — quem lhe fizesse justiça. Lauro Müller fez Machado voltar a ser diretor.


Raymundo Magalhães Jr. Machado de Assis funcionário público. In: Revista do Serviço Público, Brasília, 56(2), abr. – jun./2005, p. 237-248 (com adaptações). 
No texto 1A1-I, predomina o tipo textual
  1. Adescritivo, mas há também trechos narrativos.
  2. Bdissertativo, mas há também trechos descritivos.
  3. Cargumentativo, mas há também trechos descritivos.
  4. Dexpositivo, mas há também trechos argumentativos.
  5. Enarrativo, mas há também trechos expositivos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — narrativo, mas há também trechos expositivos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Predomínio do tipo textual no texto 1A1-I

Gabarito: letra E. O texto 1A1-I é predominantemente narrativo, pois relata uma sequência de eventos na vida de Machado de Assis como funcionário público: sofre uma injustiça, é substituído, fica magoado, escreve Dom Casmurro, depois retorna à atividade e finalmente é reabilitado por Lauro Müller. Há personagens (Machado, ministros, Epitácio), conflito (a humilhação) e desfecho (justiça feita). Os trechos expositivos, como a explicação sobre a obra de Machado e a rotina de Epitácio, são acessórios à narrativa principal. Vejamos cada alternativa:

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Foi durante esse período que escreveu uma de suas obras-primas, Dom Casmurro; sempre demonstrara, em seus romances, contos e crônicas, profunda aversão aos parasitas." (expositivo)

O eixo principal é a sucessão temporal dos acontecimentos, característica da narração. O trecho inicial "Machado de Assis viria a sofrer... resolveu substituir... Machado ficou muito magoado... Queixou-se... Foi durante esse período... não sossegou enquanto não voltou..." mostra claramente o encadeamento de fatos. Portanto, o predomínio é narrativo, com trechos expositivos que informam o leitor sobre dados relevantes.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Machado de Assis viria a sofrer... o novo ministro... resolveu substituir Machado de Assis..." (ação, não descrição estática)

Embora haja descrições pontuais (como a caracterização de Epitácio: "Jovem, irrequieto..."), o texto não se dedica a detalhar um objeto, pessoa ou cena de forma estática. A descrição não predomina; ela está a serviço da narrativa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O texto não é dissertativo, pois não defende uma tese com argumentos. A banca usa "dissertativo" como sinônimo de argumentativo; o narrador apenas conta uma história, sem tentar convencer o leitor de um ponto de vista. Não há estrutura de introdução, desenvolvimento argumentativo e conclusão.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Não há argumentação. O autor não emite juízos de valor para persuadir; ele relata fatos e impressões do próprio Machado. Por exemplo: "Machado ficou muito magoado, achando que o ministro o julgara um inútil." Isso é narração do estado emocional, não argumento.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O texto não é predominantemente expositivo. Apesar de conter trechos expositivos (explicação sobre a obra de Machado e a rotina no ministério), a trama predomina: há personagens, conflito, clímax (a fala de Epitácio) e desfecho. A exposição serve para contextualizar, não é o eixo.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o tipo textual predominante, pergunte-se: "O texto conta uma história (narrativa), descreve algo (descritivo), explica um conceito (expositivo) ou defende uma opinião (argumentativo)?" A sequência de verbos no pretérito perfeito ("resolveu", "ficou", "queixou-se", "escreveu", "voltou") é forte indício de predomínio narrativo.

Gabarito: letra E

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