Questão de Português — Adjetivo — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Adjetivo
Código
ce395624
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE SC
Ano
2023
Cargo
Prom Jus ( )
Justiça é justiça social. É atualização dos princípios condutores, emergindo nas lutas sociais, para levar à criação de uma sociedade em que cessem a exploração e a opressão do homem pelo homem. O direito não é mais, nem menos, do que a expressão daqueles princípios supremos, como modelo avançado de legítima organização social da liberdade. Mas até a injustiça como também o antidireito (isto é, a constituição de normas ilegítimas e sua imposição em sociedades mal organizadas) fazem parte do processo, pois nem a sociedade justa, nem a justiça corretamente vista, nem o direito mesmo, o legítimo, nascem de um berço metafísico ou são presente generoso dos deuses: eles brotam nas oposições, no conflito, no caminho penoso do progresso, com avanços e recuos.
Direito é processo, dentro do processo histórico. Não é uma coisa feita, perfeita e acabada. É aquele vir a ser que se enriquece nos movimentos de libertação das classes e dos grupos ascendentes e que definha nas explorações e opressões que o contradizem, mas de cujas próprias contradições brotarão as novas conquistas.
Roberto Lyra Filho. O que é direito. São Paulo: Brasiliense, 2003, p. 86 (com adaptações).
Texto 2A2-III
Acerca de aspectos gramaticais do texto 2A2-III, julgue o item subsequente.
Em “opressão do homem” e “presente generoso dos deuses”, a substituição das locuções adjetivas “do homem” e “dos deuses” pelos adjetivos humana e divino, respectivamente, manteria a correção gramatical e as relações coesivas do texto original.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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Substituição de locução adjetiva por adjetivo: correção e coesão
Gabarito: letra E (Errado). A substituição de “opressão do homem” por “opressão humana” e de “presente generoso dos deuses” por “presente generoso divino” não manteria a correção gramatical e as relações coesivas do texto original, porque, embora as locuções adjetivas possam ser trocadas por adjetivos correspondentes, a troca altera o sentido e, no segundo caso, quebra a coesão referencial — o adjetivo “divino” não retoma “deuses” com a mesma precisão, e a expressão “presente generoso dos deuses” tem valor possessivo/agente que “divino” não preserva integralmente. A banca explora a falsa equivalência entre locução adjetiva e adjetivo, ignorando o efeito de sentido e a referenciação.
O comando da questão
O enunciado pede um julgamento sobre substituição de palavras — uma reescritura — e exige que se avalie dois critérios simultaneamente: a correção gramatical (a frase continua bem formada?) e as relações coesivas (os referentes e os sentidos são preservados?). Não basta saber que “do homem” equivale a “humano” e “dos deuses” a “divino”; é preciso verificar se a troca mantém o sentido e a coesão do texto original. O comando é de reescritura sem alteração de sentido, o que exige atenção redobrada ao valor semântico das expressões.
O texto e o ponto decisivo
No texto de Roberto Lyra Filho, as expressões aparecem em contextos específicos:
“para levar à criação de uma sociedade em que cessem a exploração e a opressão do homem pelo homem.”
“nem a sociedade justa, nem a justiça corretamente vista, nem o direito mesmo, o legítimo, nascem de um berço metafísico ou são presente generoso dos deuses.”
No primeiro caso, “opressão do homem” tem valor agente/possessivo: é a opressão que o homem exerce (ou sofre) — a locução indica o agente da opressão. O adjetivo “humana” também pode carregar esse valor, mas de forma mais genérica (opressão que é própria do homem, que ocorre entre homens). A troca, embora gramaticalmente possível, altera sutilmente o sentido: “opressão do homem” é mais específica (opressão exercida pelo homem), enquanto “opressão humana” pode ser lida como “opressão típica da humanidade”.
No segundo caso, “presente generoso dos deuses” tem valor possessivo/agente: é o presente que os deuses dão. O adjetivo “divino” também pode indicar “que vem dos deuses”, mas a troca perde a referência explícita a “deuses” — um termo que, no texto, é retomado e contrastado com a ideia de que o direito não nasce de “berço metafísico”. A locução “dos deuses” ancora a expressão no campo semântico da divindade, enquanto “divino” é mais vago e não preserva a mesma coesão referencial com o restante do parágrafo.
A técnica que decide
A regra é: locução adjetiva e adjetivo correspondente são equivalentes apenas quando o sentido é preservado. A maioria das locuções pode ser substituída, mas nem todas — e a banca explora exatamente essa exceção. No caso, a troca não mantém as relações coesivas porque:
“do homem” tem valor agente (opressão exercida pelo homem) — “humana” é mais genérico e perde a especificidade;
“dos deuses” tem valor possessivo/agente (presente dado pelos deuses) — “divino” é mais vago e não retoma “deuses” com a mesma precisão, quebrando a coesão referencial.
A banca adora essa pegadinha: apresenta uma substituição que parece correta (porque a equivalência locução/adjetivo é comum), mas que altera o sentido ou quebra a coesão. O candidato que apenas reconhece a classe gramatical cai na armadilha; o que verifica o efeito no texto acerta.
Análise da assertiva
Locução adjetiva → adjetivo
1Equivalência só se preserva o sentido
2"opressão do homem"
Valor agente (opressão exercida pelo homem)
"humana" generaliza → [-] altera sentido
3"presente generoso dos deuses"
Valor possessivo/agente (presente dado pelos deuses)
"divino" não retoma "deuses" → [-] quebra coesão
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Assertiva — ❌ Errado
A afirmação de que a substituição “manteria a correção gramatical e as relações coesivas” é falsa. Embora a troca seja gramaticalmente possível (não há erro de concordância ou regência), ela não preserva as relações coesivas do texto original. A locução “dos deuses” tem valor possessivo/agente e retoma a ideia de divindade de forma explícita; o adjetivo “divino” é mais vago e não mantém a mesma referência. Além disso, “do homem” tem valor agente específico que “humana” generaliza. A banca explora a falsa equivalência entre locução e adjetivo, ignorando o efeito de sentido e a referenciação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca a locução adjetiva por um adjetivo correspondente, mas ignora o valor semântico — “dos deuses” (posse/agente) não equivale a “divino” (qualidade) sem perder a referência a “deuses”. A troca parece correta, mas altera a coesão.
PEGA ESSA DICA!
Ao julgar substituições, pergunte: o sentido é o mesmo? A equivalência locução/adjetivo só vale quando o valor semântico (posse, agente, origem) é preservado. Teste sempre a referenciação: o adjetivo retoma o mesmo termo que a locução?
Conclusão: a substituição de “opressão do homem” por “opressão humana” e de “presente generoso dos deuses” por “presente generoso divino” não mantém a correção gramatical e as relações coesivas do texto original, pois altera o sentido e quebra a coesão referencial. A assertiva está errada.