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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
ce396464
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEE PE
Ano
2023
Cargo
Prof ( )

Com altos índices de evasão escolar, baixo engajamento e conteúdos pouco conectados à realidade dos alunos, o ensino médio já era, antes da pandemia de covid-19, a etapa mais desafiadora da educação básica. Com o fechamento das escolas e o distanciamento dos estudantes do convívio educacional, os últimos anos escolares passaram a trazer ainda mais dificuldades a serem enfrentadas — reforçadas pelas desigualdades raciais, socioeconômicas e de acesso à Internet.


Nenhuma avaliação diagnóstica precisou os prejuízos totais da pandemia para a aprendizagem dos alunos, mas há alguns estudos que ajudam a entender melhor o cenário. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) apontou que houve piora em todas as séries avaliadas. Segundo a pesquisa amostral, em matemática, o desempenho alcançado no 3.º ano do ensino médio foi de 255,3 pontos na escala de proficiência, inferior aos 261,7 obtidos pelos estudantes ao final do 9.º ano do ensino fundamental no Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) de 2019. Em língua portuguesa, os estudantes do 9.º ano apresentaram uma queda de 12 pontos, e os do 3.º ano do ensino médio, de 11 pontos.


Após o retorno presencial, estados e municípios ainda têm muito trabalho para identificar os reais prejuízos, dimensioná-los e encontrar caminhos e soluções para que professores e estudantes possam retomar a aprendizagem.


Para Suelaine Carneiro, coordenadora de educação na Geledés, organização da sociedade civil que se posiciona em defesa de mulheres e homens negros, “há um consenso de que não foi possível atender todos os alunos” na educação pública. “Os dados indicam um baixo número de participação dos estudantes, somado à impossibilidade de os familiares acompanharem a resolução das tarefas”, afirma. Mas não fica apenas nisso. “Em termos de aprendizagem, os dados também mostram dificuldades no que diz respeito à compreensão e à resolução das tarefas.”


De acordo com ela, a situação de alunos negros requer ainda mais atenção. “É preciso prestar atenção nessa condição: a pessoa já estava vulnerável socialmente, sem a possibilidade de realizar um isolamento dentro de casa, pois vive em uma casa pequena ou onde não há cômodos suficientes”, contextualiza Suelaine.

 

Agravada pela pandemia, que engrossou o número de trabalhadores desempregados, a questão econômica foi um dos grandes fatores que impactou a vida dos estudantes do ensino médio. “Temos alunos que estão trabalhando no horário de aula, dizendo que precisam ajudar a família, e aos fins de semana assistem às atividades”, relata a professora Lucenir Ferreira, da Escola Estadual Mário Davi Andreazza, em Boa Vista (RR). Lucenir conta que muitos alunos chegam a falar que não conseguem aprender nada e desabafam por sentir que a aprendizagem foi prejudicada, principalmente os que estão em processo de preparação para o vestibular.


Apesar dos desafios, Suelaine acredita que os impactos não são irreversíveis, como outros especialistas têm apontado. “Você pode recuperar dois anos se houver políticas públicas, compromisso público com a educação, de forma a desenvolver diferentes ações”, diz ela.


Internet: <novaescola.org.br> (com adaptações).

Texto CB1A1-I

 

A respeito dos sentidos e dos aspectos tipológicos e coesivos do texto CB1A1-I, julgue o próximo item.

 

Considera-se o texto um artigo de opinião, porque apresenta a opinião de várias pessoas acerca de um mesmo problema, como maneira de evitar um posicionamento homogêneo a respeito do tema.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tipologia e gênero textual: artigo de opinião × reportagem

Gabarito: ERRADO. O texto não é um artigo de opinião, mas uma reportagem (gênero jornalístico informativo-expositivo), pois apresenta dados, pesquisas e opiniões de especialistas para informar o leitor sobre os impactos da pandemia no ensino médio — e não para defender uma tese autoral. A afirmação do item erra ao classificar o gênero e, principalmente, ao atribuir à pluralidade de vozes a finalidade de "evitar um posicionamento homogêneo", o que não encontra respaldo no texto.

O comando: classificar o gênero textual

A questão pede um julgamento sobre a tipologia e o gênero textual do texto CB1A1-I. Para resolvê-la, é preciso distinguir dois conceitos que as bancas adoram confundir:

  • Tipo textual: a estrutura linguística predominante (narrativo, descritivo, dissertativo-expositivo, dissertativo-argumentativo, injuntivo).

  • Gênero textual: a forma concreta e situada de comunicação (artigo de opinião, reportagem, notícia, editorial, carta, etc.).

O item afirma que o texto é um artigo de opinião. Para testar essa classificação, pergunte: qual é a intenção predominante do autor? Convencer o leitor de uma tese pessoal (artigo de opinião) ou informar com base em fatos, dados e múltiplas fontes (reportagem)?

O texto: reportagem, não artigo de opinião

O texto CB1A1-I apresenta as marcas típicas da reportagem:

  • Dados objetivos: "em matemática, o desempenho alcançado no 3.º ano do ensino médio foi de 255,3 pontos na escala de proficiência, inferior aos 261,7 obtidos pelos estudantes ao final do 9.º ano".

  • Citação de pesquisa: "Uma pesquisa realizada pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) apontou que houve piora em todas as séries avaliadas".

  • Múltiplas vozes: a coordenadora Suelaine Carneiro, a professora Lucenir Ferreira — todas identificadas e contextualizadas, como manda o gênero reportagem.

"Para Suelaine Carneiro, coordenadora de educação na Geledés, organização da sociedade civil que se posiciona em defesa de mulheres e homens negros, 'há um consenso de que não foi possível atender todos os alunos' na educação pública."

A reportagem ouve fontes para construir uma visão ampla e objetiva do fato. O artigo de opinião, por sua vez, parte de uma tese do próprio autor, que a defende com argumentos pessoais — e, quando cita outras vozes, é para reforçar o ponto de vista dele, não para pluralizar perspectivas.

A técnica: a finalidade do texto decide o gênero

A classificação do gênero não depende da forma, mas da intenção comunicativa (o conteúdo predomina sobre a forma). Veja a diferença:

Critério

Artigo de opinião

Reportagem (o caso do texto)

Intenção

Convencer o leitor de uma tese

Informar sobre um fato com profundidade

Voz predominante

A do autor, que defende seu ponto de vista

A do repórter, que apresenta fatos e ouve fontes

Uso de fontes

Cita para reforçar a própria tese

Cita para pluralizar e dar credibilidade à informação

Estrutura

Tese → argumentos → conclusão

Lide → desenvolvimento com dados e entrevistas

O texto CB1A1-I se encaixa claramente na segunda coluna: há dados, pesquisa e entrevistas, mas não há uma tese autoral sendo defendida. O autor não diz "eu acho que" ou "é preciso" — ele relata o que estudos e especialistas apontam.

Análise do item

Item — ❌ Errado ⟵ GABARITO

O item comete dois erros:

  1. Classifica mal o gênero: o texto é uma reportagem, não um artigo de opinião. A presença de opiniões de terceiros (Suelaine, Lucenir) não transforma o texto em artigo de opinião — na reportagem, essas vozes são fontes ouvidas, não a tese do autor.

  1. Inventa uma finalidade: o item afirma que as opiniões são apresentadas "como maneira de evitar um posicionamento homogêneo a respeito do tema". Essa motivação não está no texto. Em nenhum momento o autor diz que ouviu várias pessoas para evitar homogeneidade. Isso é uma extrapolação — o candidato acrescenta uma intenção que o texto não declara nem sugere.

PEGA ESSA DICA!

Para classificar o gênero, pergunte sempre: quem fala e com que intenção? Se o autor defende uma tese pessoal, é artigo de opinião. Se ele informa com dados e fontes, é reportagem. A presença de opiniões alheias não basta — o que importa é a função delas no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato confundir reportagem com artigo de opinião pelo simples fato de o texto conter opiniões. Mas opinião de fonte ouvida ≠ opinião do autor. Além disso, a finalidade "evitar posicionamento homogêneo" é uma invenção — o texto não diz isso em lugar nenhum.

Conclusão: o item está errado porque classifica o texto como artigo de opinião quando ele é uma reportagem, e ainda atribui à pluralidade de vozes uma finalidade que o texto não menciona. A resposta correta é ERRADO.

Gabarito: ERRADO (letra E).

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