O filósofo Theodor Adorno (1903-1969) afirma que, no capitalismo tardio, “a tradicional dicotomia entre trabalho e lazer tende a se tornar cada vez mais reduzida e as ‘atividades de lazer’ tomam cada vez mais do tempo livre do indivíduo”. Paradoxalmente, a revolução cibernética de hoje diminuiu ainda mais o tempo livre. Nossa época dispõe de uma tecnologia que, além de acelerar a comunicação entre as pessoas e os processos de aquisição, processamento e produção de informação, permite automatizar grande parte das tarefas. Contudo, quase todo mundo se queixa de não ter tempo. O tempo livre parece ter encolhido. Se não temos mais tempo livre, é porque praticamente todo o nosso tempo está preso. Preso a quê? Ao princípio do trabalho, ou melhor, do desempenho, inclusive nos joguinhos eletrônicos, que alguns supõem substituir “velharias”, como a poesia. T.S. Eliot, um dos grandes poetas do século XX, afirma que “um poeta deve estudar tanto quanto não prejudique sua necessária receptividade e necessária preguiça”. E Paul Valéry fala sobre uma ausência sem preço durante a qual os elementos mais delicados da vida se renovam e, de algum modo, o ser se lava das obrigações pendentes, das expectativas à espreita… Uma espécie de vacuidade benéfica que devolve ao espírito sua liberdade própria. Isso me remete à minha experiência pessoal. Se eu quiser escrever um ensaio, basta que me aplique e o texto ficará pronto, cedo ou tarde. Não é assim com a poesia. Sendo produto do trabalho e da preguiça, não há tempo de trabalho normal para a feitura de um poema, como há para a produção de uma mercadoria. Bandeira conta, por exemplo, que demorou anos para terminar o poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. Evidentemente, isso não significa que o poeta não faça coisa nenhuma. Mas o trabalho do poeta é muitas vezes invisível para quem o observa de fora. E tanto pode resultar num poema quanto em nada. Assim, numa época em que “tempo é dinheiro”, a poesia se compraz em esbanjar o tempo do poeta, que navega ao sabor do poema. Mas o poema em que a poesia esbanjou o tempo do poeta é aquele que também dissipará o tempo do leitor, que se deleita ao flanar por linhas que mereçam uma leitura por um lado vagarosa, por outro, ligeira; por um lado reflexiva, por outro, intuitiva. É por essa temporalidade concreta, que se manifesta como uma preguiça fecunda, que se mede a grandeza de um poema.(Adaptado de: CÍCERO, Antonio. A poesia e a crítica: Ensaios. Companhia das Letras, 2017, edição digital)que alguns supõem substituir “velharias” (2o parágrafo)No contexto, o termo sublinhado acima exerce a mesma função sintática que o sublinhado em:
AMas o trabalho do poeta é muitas vezes invisível (5o parágrafo)
Bpermite automatizar grande parte das tarefas (2o parágrafo)
CT.S. Eliot, um dos grandes poetas do século XX, afirma que (3o parágrafo)
Dnão há tempo de trabalho normal para a feitura de um poema (4o parágrafo)
EO tempo livre parece ter encolhido (2o parágrafo)
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GabaritoE — O tempo livre parece ter encolhido (2o parágrafo)
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Função sintática do pronome relativo
Gabarito: letra E. O termo sublinhado no enunciado é o pronome relativo "que", que exerce função de sujeito do verbo "substituir" na oração adjetiva reduzida. A alternativa E apresenta o termo "O tempo livre", que também é sujeito do verbo "parece". As demais alternativas trazem termos com outras funções sintáticas (objeto direto, aposto, predicativo).
Trecho do texto: "aos joguinhos eletrônicos, que alguns supõem substituir 'velharias'"
O pronome relativo "que" retoma "joguinhos eletrônicos" e é o sujeito de "substituir" (os joguinhos substituem velharias). Na alternativa E: "O tempo livre parece ter encolhido" – "O tempo livre" é sujeito de "parece".
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Mas o trabalho do poeta é muitas vezes invisível" – "o trabalho do poeta" é sujeito de "é", mas o sublinhado no enunciado não é sujeito? Na verdade, na questão original, o sublinhado provável é "que", que é sujeito. Em A, o termo sublinhado é "o trabalho do poeta", que também é sujeito, mas a banca considerou E correta, indicando que o sublinhado em A não era esse ou que o termo tem outra função. Pelo gabarito, descartamos.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"permite automatizar grande parte das tarefas" – "grande parte das tarefas" é objeto direto de "automatizar", função diferente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"T.S. Eliot, um dos grandes poetas do século XX, afirma que" – "um dos grandes poetas" é aposto, não sujeito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"não há tempo de trabalho normal para a feitura de um poema" – "tempo de trabalho normal" é objeto direto do verbo "haver", função diferente.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"O tempo livre parece ter encolhido" – "O tempo livre" é sujeito do verbo "parece", mesma função (sujeito) que o pronome relativo "que" exerce no trecho original.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de função sintática, identifique primeiro o termo sublinhado no enunciado e sua função na oração. Depois, analise cada alternativa observando a função do termo destacado. O pronome relativo pode exercer diversas funções (sujeito, objeto direto, etc.), então é crucial reescrever a oração adjetiva para descobrir.
NÃO CAIA NESSA!
Sujeito nunca tem preposição
Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.