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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2018

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc048710
Banca
FCC
Órgão
SEC-BA
Ano
2018
Cargo
Professor Padrão P - Língua Portuguesa
Segue um fragmento do primeiro texto do livro Sobre pessoas, de Antônio Torres.Para começarQuereria um começo com a delicadeza de Fernando Sabino, em A última crônica, que cada vez que releio mais me encanta. E agora a ela retorno, em busca de ensinamentos. (...)Foi em tais circunstâncias, a confabular consigo mesmo pelas ruas do Rio, que Fernando Sabino acabou por nos legar uma pequena obra-prima. (...)Este aqui de vez em quando batia perna ao lado do mestre, nos calçadões à beira-mar, Copacabana-Ipanema-Leblon.Numa dessas vezes, ele perguntou:– Você já leu o meu livro sobre a Zélia?Por essa eu não esperava. Uma pedra no meio do caminho. Sinuca de bico. Cul-de-sac.Persignando-me mentalmente diante da imagem de Nossa Senhora do Amparo, a padroeira do Junco, onde nasci, e dizendo-me “Nas horas de Deus e da Virgem Maria, amém”, criei coragem e respondi que Zélia, uma paixão era o único livro dele que eu jamais leria. (...)Como bom mineiro, ficou em silêncio, remoendo a sua falha trágica ao declarar: “Zélia sou eu”. No calor da hora, a sua brincadeira não teve graça.Levaram-na a sério demais. Como se ele acreditasse, verdadeiramente, que a personagem que causara um terremoto na economia dos cidadãos, na era Collor, tivesse o mesmo status literário da heroína de Gustave Flaubert, Madame Bovary. (...)Mas por que, e para que o chatear ainda mais, quando privava de sua camaradagem, durante uma caminhada para desenferrujar as pernas, desanuviar a mente, e suar todas as tristezas? – eu me perguntava. Ora, ora, quem mandou Fernando Sabino tocar no assunto? Pensei que ele ia ficar zangado, a ponto de cortar a nossa relação, para sempre.Numa manhã de domingo o telefone tocou e era o próprio, de viva voz.Disse:– Acordei hoje com vontade de ligar para o Mário de Andrade, o Rubem Braga, o Paulo Mendes Campos, o Otto Lara Resende e o Hélio Pellegrino. Como nenhum deles pode atender...Foi um começo de conversa e tanto. Ao final, convidou-me para um drinque em sua casa.– Que tal amanhã? – perguntei-lhe.– Ih! Amanhã não dá. Ao descobrirem que fiz oitenta anos, me empurraram para os exames médicos. Assim que me livrar dessas chateações, telefono para combinar.Não telefonou mais. Só iria voltar a vê-lo já embalado para a última viagem, no cemitério São João Batista.Ah, Fernando. Para começar, que falta que você faz.(TORRES, Antônio. Para começar. In: Sobre pessoas. Disponível em: www.antoniotorres.com.br. Acesso: 20 dez. 2017. Fragmento)Em relação à construção e à linguagem do texto, aplica-se a seguinte análise:
  1. AAs duas primeiras frases do texto “escondem” o foco narrativo em primeira pessoa. Essas frases, em princípio não trazem marcas do narrador-personagem, como acontece na última frase do texto, onde figura implicitamente o dêitico “eu”.
  2. BA recriação da língua oral (em discurso direto) aparece no texto em diferentes momentos. Primeiro num diálogo face a face entre as personagens; e depois na conversa telefônica; em ambos os casos há a reprodução em discurso direto das vozes dos dois interlocutores, em situação de relativa serenidade.
  3. CNo texto, registram-se situações linguísticas de menor ou maior formalidade. Observam-se marcas coloquiais como os usos de termos obscenos e vulgares (Cul-de-sac) e expressões típicas populares (batia perna, sinuca de bico, desenferrujar as pernas, desanuviar a mente e suar todas as tristezas).
  4. DQuando menciona a declaração histórica de Sabino, “Zélia sou eu”, associando-a à famosa frase de Gustave Flaubert, "Madame Bovary sou eu", o narrador tem a intenção de demonstrar o quanto Sabino, assim como Flaubert, identificava-se com a sua personagem e partilhava dos seus sentimentos.
  5. EAssim como costuma ocorrer em sua ficção, nesse texto, Torres faz largo uso das intertextualidades. Em “Nas horas de Deus e da Virgem Maria, amém”, fundem-se à narrativa fragmentos híbridos da liturgia católica. No segmento “a padroeira do Junco, onde nasci”, há indícios da biografia do próprio autor.
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GabaritoE — Assim como costuma ocorrer em sua ficção, nesse texto, Torres faz largo uso das intertextualidades. Em “Nas horas de Deus e da Virgem Maria, amém”, fundem-se à narrativa fragmentos híbridos da liturgia católica. No segmento “a padroeira do Junco, onde nasci”, há indícios da biografia do próprio autor.

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Análise da construção e linguagem em "Para começar"

Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que se sustenta integralmente no texto. Ela aponta as intertextualidades (a expressão religiosa "Nas horas de Deus e da Virgem Maria, amém") e a referência autobiográfica ("a padroeira do Junco, onde nasci"), ambas presentes e relevantes para o estilo do autor. As demais alternativas ou contradizem o texto ou cometem extrapolações.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que as duas primeiras frases "escondem" o foco narrativo em primeira pessoa, mas elas já trazem marcas explícitas do narrador-personagem:

"Quereria um começo..." (verbo em 1ª pessoa) e "E agora a ela retorno" (1ª pessoa).

Portanto, a afirmação de que "não trazem marcas" é falsa. A última frase também não figura o dêitico "eu" implicitamente de forma diferente. Erro: contradiz o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Diz que há reprodução em discurso direto das vozes dos dois interlocutores em ambos os diálogos. No primeiro diálogo face a face, a fala do narrador é relatada em discurso indireto:

"respondi que Zélia, uma paixão era o único livro dele que eu jamais leria."

Não há aspas ou travessão para a resposta. Além disso, a situação não é de "relativa serenidade" — o narrador ficou tenso ("Persignando-me mentalmente..."). Erro: contradiz o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Classifica "Cul-de-sac" como termo obsceno ou vulgar. Na verdade, é uma expressão francesa usada em contextos formais/literários, significando "beco sem saída". As demais expressões são coloquiais, mas não obscenas. Erro: contradiz o texto (classificação equivocada).

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que o narrador tem a intenção de demonstrar o quanto Sabino se identificava com Zélia, assim como Flaubert com Madame Bovary. Porém, o texto mostra que o narrador critica essa identificação:

"Como bom mineiro, ficou em silêncio, remoendo a sua falha trágica... No calor da hora, a sua brincadeira não teve graça."

Há ironia: "Como se ele acreditasse, verdadeiramente, que a personagem... tivesse o mesmo status literário...". A intenção é mostrar o exagero de Sabino, não elogiar. Erro: inverte a intenção do autor (extrapolação).

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O texto faz uso de intertextualidades, como a expressão religiosa católica "Nas horas de Deus e da Virgem Maria, amém", incorporada à narrativa. Além disso, o trecho "a padroeira do Junco, onde nasci" traz um dado biográfico do autor (Antônio Torres nasceu em Junco/Itapitanga). Esses elementos confirmam a análise proposta. Correta.

Gabarito: letra E

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