Questão de Filosofia — O Sujeito Moderno — FCC 2022
Filosofia›O Sujeito Moderno
Código
fc062826
Banca
FCC
Órgão
SEC-BA
Ano
2022
Cargo
Professor Padrão P - Grau III - Ciências Humanas: Filosofia
A diferença entre ele com os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um
cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o
cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam
jantar − o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão [...]. O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas,
sofrendo espantada [...] mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas
para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite − tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um
cego mascando goma despedaçava tudo isso.
(LISPECTOR, Clarice. “Amor”, Laços de Família. São Paulo: Rocco, 1998)
Do ponto de vista da experiência filosófica, o que ocorreu com Ana revela que
Aela na verdade ficou presa em seus pensamentos.
Bo excerto é apenas uma narrativa da vida cotidiana.
Cela experiencia a atitude filosófica por ter se espantado.
Dela percebeu que há preconceitos em seu íntimo.
Eela percebe que o cotidiano pode revelar-se enfadonho.
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GabaritoC — ela experiencia a atitude filosófica por ter se espantado.
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Experiência filosófica e o espanto (thaumazein)
Gabarito: letra C. A experiência de Ana com o cego mascando chicles provoca um estranhamento que quebra a rotina e a faz ver o ordinário de forma nova — exatamente a atitude filosófica de espanto (thaumazein) que, segundo Platão e Aristóteles, dá início à filosofia. O texto descreve como "um cego mascando goma despedaçava tudo isso" (a rotina), e Ana sente "prazer intenso com que olhava agora as coisas". Esse espanto é o motor da reflexão filosófica.
Atitude filosófica: Origem: espanto (thaumazein) (Platão (Teeteto), Aristóteles (Metafísica)); Características (Estranhamento do familiar, Quebra da rotina, Olhar novo sobre o ordinário); Oposto (Introspecção passiva, Redução ao cotidiano banal, Autocrítica moral)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que Ana ficou "presa em seus pensamentos". O texto mostra o contrário: ela está intensamente voltada para o exterior, observando o cego e o mundo ao redor. Não há imersão em si mesma, mas abertura ao novo. A experiência filosófica não é introspecção passiva, mas espanto ativo diante do real.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Reduz o excerto a uma mera "narrativa da vida cotidiana". No entanto, o conto de Clarice Lispector explora o transcendente no banal: o encontro com o cego desencadeia uma crise existencial e uma nova percepção. Filosoficamente, o texto é um exemplo de como o cotidiano pode se tornar problema e objeto de questionamento.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta porque capta o núcleo filosófico: Ana experiencia a atitude filosófica pelo espanto. O "espanto" (thaumazein) é a origem da filosofia, como afirmam Platão no Teeteto e Aristóteles na Metafísica. Ana se espanta com o cego que mastiga goma — ato banal que, sob seu olhar, despedaça a ordem habitual. Esse estranhamento é o primeiro passo do filosofar.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Interpreta a crise como descoberta de "preconceitos no íntimo". O texto não fala de preconceito, mas de um olhar que desnaturaliza o familiar. A experiência é de descoberta positiva, não de autocrítica moral.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Diz que Ana percebe o cotidiano como "enfadonho". Na verdade, o cotidiano deixa de ser enfadonho e se torna fascinante: ela sente "prazer intenso" ao olhar as coisas. O enfado é substituído pelo encantamento filosófico.
PEGA ESSA DICA!
Sempre que um texto literário descreve um personagem que se surpreende com algo corriqueiro e passa a questionar a realidade, associe ao conceito de espanto filosófico (thaumazein). Esse é um tema clássico de Filosofia, frequentemente cobrado em concursos.