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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063665
Banca
FCC
Órgão
TCE-GO
Ano
2022
Cargo
Analista de Controle Externo - Contabilidade
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

O que será da escrita sem solidão?

    Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
   Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. “A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada”, ela diz. “Aquilo sem o qual já não vemos nada.” Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
   Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
    A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.


Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)
Está correta a nova redação de um segmento do texto em
  1. Adesisti de estar só = renunciei a estar só
  2. Bainda é capaz de estar só = ainda está apto à ser só
  3. Cnão me refiro à penúria = não me atenho pela penúria
  4. Duma busca por espaços = uma demanda aos espaços
  5. Eespaços isolados do alvoroço = espaços alheios no alvoroço
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — desisti de estar só = renunciei a estar só

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Reescrita de segmentos — equivalência semântica e correção gramatical

Gabarito: letra A. A única alternativa que mantém o sentido original e respeita a regência é a A: desisti de estar só = renunciei a estar só. Ambas as expressões significam abandonar a intenção de ficar sozinho, e a regência de "renunciar" exige a preposição "a", que foi corretamente empregada.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"A esta altura desisti de estar só."

A reescrita "renunciei a estar só" preserva o sentido de abandono deliberado da solidão. O verbo "renunciar" rege a preposição "a" (renunciar a algo), e o segmento está gramaticalmente correto. Há equivalência semântica entre "desistir de" e "renunciar a" no contexto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"se alguém é ainda capaz de estar só"

A reescrita "ainda está apto à ser só" comete dois erros: (1) crase diante de verbo no infinitivo — o correto seria "apto a ser só", sem acento grave; (2) troca de "estar" por "ser", o que altera o sentido (estar só = condição momentânea; ser só = caráter solitário). Logo, há troca de conceito e erro de regência.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Não me refiro, claro, à penúria afetiva"

A reescrita "não me atenho pela penúria" é inválida: o verbo "ater-se" rege a preposição "a" (ater-se a algo), não "por". Além disso, "referir-se a" significa mencionar; "ater-se a" significa limitar-se a. Os sentidos são diferentes — a banca explora troca de conceito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos"

"Busca por" equivale a "procura de". Já "demanda aos espaços" não mantém o mesmo sentido: "demanda" sugere solicitação ou exigência, não procura, e a preposição "aos" indica direção, não o objeto da busca. Há mudança de significado e regência inadequada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"espaços isolados do alvoroço que nos cerca"

"Isolados do" significa separados em relação ao alvoroço. "Alheios no alvoroço" indica estar alheio dentro do alvoroço, o que não equivale à ideia de isolamento. A preposição "no" e o adjetivo "alheios" alteram o sentido original. Troca de conceito.

Conclusão: Apenas a alternativa A reescreve o segmento mantendo o sentido e a correção gramatical. As demais cometem erros de regência ou substituem termos por outros de sentido diverso.

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